O falso consenso da educação

1 de junho de 2014
educacao_624x415

Há consensos que unem até palmeirenses e corintianos. Um deles é: “A educação gera o desenvolvimento”. Todo mundo parece concordar com isto. Quem já não ouviu de um companheiro involuntário de uma fila, do tio na festa da família, de um taxista, a célebre frase: “este país precisa é de educação”.

Mas, estariam palmeirenses, corintianos e seu tio certos?

É fato que alguns dos países que mais cresceram nas últimas décadas (Coréia do Sul, Malásia e Cingapura) aparecem regularmente no topo das avaliações internacionais do nível de aprendizagem dos estudantes.

Além de palmeirenses e corintianos, as pesquisas apontaram que há três mecanismos principais, que ligam educação ao crescimento:
1) Elevação do nível de qualificação da população e, em função disso, da produtividade do trabalho;
2) Aumento da capacidade de inovação;
3) Facilitação da adoção de tecnologias existentes e inovadoras.

Mesmo que repetido, desde antes do Sarney chegar ao poder (sim, muito longinquamente), somente no final do século passado a relação empírica entre educação e crescimento foi claramente estabelecida. Porém é comum na ciência social aplicada (Economia inclusive) que se faz. Ela é muito útil para entender o passado, e quando o entende, talvez ele já tenha mudado.

Em um conhecido estudo publicado década e meia atrás, “Where Has All the Education Gone?”, Lant Pritchett mostrou que, apesar de vários indicadores educacionais terem melhorado significativamente nas últimas décadas em vários países da África e da América Latina, o crescimento desses países foi nulo ou mesmo negativo se analisado durante o mesmo período.

Indicadores como taxas de matrícula e número de anos de estudo da população, usualmente identificados como “Educação”, não se refletiam mais nas taxas de crescimento econômico.

As evidências empíricas encontradas por Pritchett foram alçadas à categoria de “paradoxo da educação” por William Easterly em seu livro “The Elusive Quest for Growth”, o que motivou uma série de estudos.

O que fazem os cientistas quando uma teoria parece não explicar mais a realidade? O mesmo que os palmeirenses e corintianos. Mudam a realidade, porque deu muito trabalho para elaborar a teoria, já tem uma série de aulas prontas baseadas nelas, além de uns gráficos maneiros animados em PowerPoint.

Assim, a maioria dos que tentam salvar a correlação Educação-Crescimento, isto é, dizer que a mesma lei que governou o período 1930-90, ainda se aplica, recorre à explicação da qualidade. Assim, não é a educação, mas sua qualidade que tem um grande impacto no crescimento econômico. Alteram-se os elementos, mas se mantêm a correlação. Este é o argumento fundamental de um estudo de Eric Hanushek (Economic Growth and Performance in Education, Universidade de Stanford, Comparative Studies, Oct-11).

Fiz um “test-drive” na teoria do Prof. Hanushek*. Para ele e seus seguidores, qualidade na educação (entendida como êxito nos testes padronizados de matemática e ciências) é responsável por desenvolvimento econômico (medido como crescimento de PIB). Nem vou entrar na discussão se os parâmetros para Qualidade Educacional (êxito em testes) e Desenvolvimento (crescimento econômico) são válidos. Brinquei com as regras colocadas pelo estudo. Apliquei um modelo regressivo de parâmetros móveis (Albuquerque & Rochmann,Progressive Variable Proxy. Econometrics Applied Development,Yale Press, 2006) a todos os países da OCDE + China-Índia+ África do Sul + Brasil+América Latina (sem Brasil e México já incluídos nas listas anteriores). Coloquei o crescimento econômico, atribuído por Hanushek à qualidade da educação em teste com outras variáveis (taxas de juros, ganho cambial, crescimento econômico na Zona do Euro + EUA; Evolução do índice GINI). Utilizei-me do mesmo período de “delay” entre educação e crescimento que Hanushek, isto é, que as taxas de educação demorariam de 5-10 anos para “fazer efeito” na economia.

Algumas conclusões:

1. Com exceção da Coréia do Sul, EM NENHUM PAÍS PODEMOS ATRIBUIR O CRESCIMENTO AOS RESULTADOS EDUCACIONAIS.

2. E mesmo na única exceção, a Coréia do Sul, o ciclo parece ter estagnado. O ganho educacional perdeu força desde 2007, isto é, a melhoria nas taxas dos testes influencia pouco as taxas de crescimento.

3. De todos os indicadores pesquisados os que parecem ter mais correlação com crescimento econômico são: taxas de juros e balança comercial. Noutras palavras, juros influenciam mais o crescimento econômico do que o desempenho educacional.

4. Uma correlação existente, mas fraca, mostra que o desempenho educacional melhora depois (média de 3 anos) do crescimento econômico e não o contrário.

As conclusões poderiam estimular a troca da teoria porque não há mais consistência de correlação entre Educação (mesmo a qualidade) e Crescimento Econômico. Isto tinha sido apontado em alguns estudos ignorados que mostram que: A Educação (seja medida como acesso ou mesmo como qualidade) impactou fortemente o crescimento econômico em sistemas econômicos internacionais mais desiguais, fechados, com baixo compartilhamento e mobilidade de tecnologia; e propriedade intelectual tradicional.

Mas, como já disse Dorothy a Totó, “Não estamos mais em Kansas”. Dois tipos de mudança quebraram a correlação clara (que suponhamos tenha existido) entre Educação e Crescimento econômico: Perfil e Modo de Produção.

Perfil Escolar: O aumento no estoque educacional gerou o paradoxo da escolaridade. Na América Latina, por exemplo, o impacto econômico de um ano adicional de escolaridade na década de 1980, corresponde ao mesmo impacto que hoje há para 2.1 anos. Educação vale mais na inversa medida em que é disseminada. Quanto mais gente estuda, mais eu preciso estudar para que a educação me traga vantagens. Não é a educação em si que me faz gerar mais renda, é a educação a mais do que meu competidor. Isto vale também parece se aplicar entre os países. Como no campeonato brasileiro, não precisa ser bom, precisa ser melhor do que seu adversário.

Modo de Produção: Passamos por mudanças profundas na maneira como educação gera tecnologia e por sua vez esta é aplicada. O aumento da automação e do teletrabalho, a expansão da mobilidade da aplicação tecnológica e a propriedade intelectual difusa (hoje, 72% dos recursos oriundos de patentes mundiais são registradas por empresas de capital aberto, contra menos de 30%, em 1960). Tecnologia, educação são apropriados e aplicados transnacionalmente. Noutras palavras, com base em um estoque educacional mínimo, é possível transferir tecnologia. E a indústria de alta tecnologia? Esta sim dependente de altos níveis educacionais e gera riqueza. Mas, emprega contingentes populações pequenas e colabora para a concentração de riquezas. Um estudo recente em 3 pólos deste tipo de indústria mostra um alto internacionalismo (atraem os melhores de todos os lados) e aumentaram a concentração de riqueza nas áreas onde se instalaram.

Há correlação entre desempenho nos testes e violência, mas eu não ousaria afirmar que quanto melhor nos testes, mais violenta é uma sociedade.

Infelizmente, há fatores socioeconômicos que compõe uma “tecnologia da exploração” que permite a um país crescer muito e até consistentemente e ainda assim excluir grandes parcelas de sua população de educação de qualidade. A China cresce muito com base em investimentos públicos e de produção massiva escorada em tecnologias não produzidas lá. Os resultados chineses mostram que é possível crescer muito educando bem menos de 10% da população.

Eu tive que passar muito tempo na escola e agora não teria mais motivos para ser contrário a ela. Mas, os dados mostram que a Educação necessariamente não gera riqueza (algo que eu sei quando olho meu saldo bancário), mas parece ter impacto em algo muito mais importante do que no crescimento econômico.

O que os dados mostram e passam ao largo da análise do Professor Hanushek é que o que ele considera Educação de qualidade tem uma correlação, mas não com o crescimento econômico e sim com desigualdade, em TODOS os países pesquisados.

Noutras palavras, é possível crescer e gerar renda sem educação de qualidade para a maioria. Porém, não parece ser possível reduzir sensivelmente a desigualdade interna sem que acesso e qualidade na educação sejam endereçados.

Uma educação de qualidade, olhada da ótica da agregação pura e simples de PIB, não compensa. Mas, o investimento em Educação certamente tem alto retorno, se visto como ferramenta essencial para reduzir o privilégio dos quem têm acesso a uma escola melhor sobre os que não têm.

O que nem o Prof. Hanushek, Palmeirenses ou Corintianos parecem dispostos a fazer é mudar a teoria para ajustá-la a realidade. Se fizessem isto, torceriam pelo Fluminense.

(* A versão completa e bem mais chata, com todas as notinhas e fórmulas, deste meu artigo pode ser lida em:Éducation et Développement : Notes pour la révision de une théorie macroéconomique orthodoxe. Diffuseur. l’Institut d’Étude du Développement Économique et Social, Université de Paris 1 Panthéon-Sorbonne).

Eduardo Nunes

Eduardo Nunes

Capixaba, torcedor do Fluminense, gago, formado em Ciências Sociais, História e Teologia. Mestre e Doutor em Ciência Política (USP e Yale) e Doutor em Economia. Além de ter sido goleiro reserva do time B da 7a série, trabalhei na Visão Mundial Brasil por 18 anos e por 7 na World Vision International, além de Consultor Sênior do Banco Mundial para Avaliação. Membro da Associação Americana de Avaliação e do Comitê Consultivo de Indicadores de Desenvolvimento Humano. Professor na FGV e na USP-FEA. Mas, difícil mesmo foi ser goleiro reserva do time B da 7a série.

Artigos de Eduardo Nunes (ver todos)

Eduardo Nunes

Artigos de Eduardo Nunes (ver todos)