O jovem rico e a destruição dos direitos sociais

24 de março de 2017
Jovem_rico

Acompanhando o noticiário das reformas da previdência e a trabalhista no Brasil e também a discussão sobre a proposta da reforma na área de saúde e de corte nos impostos dos “super-ricos” nos Estados Unidos, eu me lembrei de uma frase de Jesus que há muito tempo não recordava: “É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus” (Mc 10,25).

Eu sei que há muita discussão sobre o que significa esse “fundo de uma agulha”, que em algumas traduções aparece como “buraco de uma agulha”. Mas eu penso que essa discussão, por mais interessante que possa ser, perde de vista o ponto central da frase de Jesus. Imagino que Jesus deveria estar muito desapontado ou frustrado para pronunciar uma frase assim. O evangelho de Marcos nos diz que um pouco antes ele tinha tido uma conversa com um jovem rico, a quem olhou com amor, sobre o caminho que esse mesmo jovem queria seguir. Admirado pelo seu desejo de seguir o caminho do Reino de Deus, Jesus pede um passo radical que o faz desistir por seu apego à riqueza. Diante da desistência desse jovem, Jesus diz: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” (Mc 10,23).

Tentando imaginar como Jesus teria dito essas frases, o tom que chega aos meus ouvidos é o de tristeza. Jesus não está acusando e condenando esse jovem, nem outros ricos; o som que me vem é de tristeza diante da desistência desse jovem, da poderosa força magnética da riqueza. Eu penso que a fala de Jesus não foi de acusação porque depois Jesus vai dizer que a salvação dos ricos também é possível porque nada é impossível para Deus (cf. Mc 10,27). Esse ensinamento reforça a minha imaginação de que a fala dele é de tristeza e decepção diante da nossa condição humana tão mesquinha. O problema não está em ser rico, pois quando o jovem se apresenta a Jesus perguntando pelo caminho de Deus, ele não pede ao jovem nada de radical ou extraordinário, simplesmente lhe pede que viva os mandamentos de Deus. É só quando o jovem se mostra insatisfeito com esse nível de comprometimento com o caminho do Reino é que Jesus lhe mostra o caminho radical.

Jesus respeita profundamente o processo pedagógico da caminhada espiritual desse jovem. É preciso que ele sinta que obedecer aos mandamentos não lhe é mais suficiente, que ele experimente desejo por algo maior e mais profundo. Diante da resposta inesperada de Jesus, ele se entristece e se vai. O desejo pelo caminho de Deus não é ainda maior do que a atração que ele sente pela sua riqueza, por tudo o que ela significa para ele e para os que o cercam. Neste momento, ele percebeu que a atração ou magnetismo da riqueza, que atua como um imã poderoso que não permite que pessoas busquem outro caminho, era maior do que o seu desejo de humanização, de seguir o caminho de Deus.

Pensei nessas coisas porque tenho dificuldade em entender por que pessoas super-ricas lutam tanto, com meios muitas vezes escusos, contra os direitos sociais básicos das pessoas mais pobres – como direito a saúde, a educação de qualidade e direitos trabalhistas e de aposentadoria, para acumular mais riquezas, para pagar menos impostos e menos salários. Durante minha vida eu li muito das ciências sociais e humanas, mas, francamente, as ciências modernas e pós-modernas não me satisfazem com suas tentativas de explicação. Eu penso que Jesus entendeu melhor esse drama humano: o desejo de ser atraído pela riqueza é maior do que discursos bonitos ou a insatisfação sentida pelo falso caminho de vida que percorre. Podem falar de um futuro melhor para as crianças do país e coisas assim, mas quando chega a hora da decisão, o seu desejo e a opção política seguem o magnetismo do poder e da riqueza. Por isso, destroem direitos sociais dos trabalhadores e dos mais pobres em nome da promessa falsa de um futuro melhor para todos.

Jesus já tinha percebido isso no seu tempo, tempo esse em que a monetização crescente da economia e da vida estava levando muitos a fazer da acumulação do dinheiro o sentido último da sua vida e das suas decisões. Por isso disse que não se pode servir a dois senhores: a Deus e a Mamom (Mt 6,24). Lutando pela vida dos “mais pequeninos” contra essas forças de morte que, como Moloch, sugam o sangue do povo, Jesus deve ter ficado muito alegre com o desejo desse jovem rico de dar um passo a mais, mas logo se entristeceu ao ver que a um rico é muito difícil entender em que consiste o Reino de Deus. Apesar da sua frustração, ele não condenou; e o seu profundo amor a todos o fez colocar na mão de Deus, de infinita misericórdia, a questão da salvação eterna desse jovem.

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung

Jung Mo Sung é Doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (1993), com Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (2000). É professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou, com Nestor Míguez e Joerg Rieger, Para além do Espírito do Império: novas perspectivas em política e religião (Paulus, 2012).
Jung Mo Sung