O pre-conceito da heterossexualidade e a história em aberto

26 de maio de 2011
Gay christian

No artigo anterior, defendi que no debate em curso sobre os direitos dos homossexuais, que recebeu novo impulso com a decisão histórica do STF de semanas atrás, há uma sólida imbricação entre justiça e moralidade que ajuda a compreender as reações viscerais dos evangélicos conservadores, mas traz suas próprias exigências para outros setores com os quais estes se relacionam. A começar pela minoria evangélica que está aberta a discutir sem pré-conceitos (teológicos, culturais e políticos) o tema da sexualidade, mas também os setores seculares e de outras religiões.

Gostaria de continuar nessa linha, e explorar um dos pontos de conexão entre justiça e moralidade sensível à lógica de pensamento do mundo evangélico, para a qual, sem recurso direto ao texto bíblico, não há convencimento possível. Não tenho qualquer ilusão, porém, de que estamos num terreno nivelado: minha fala terá muito menos poder, neste momento, do que as estridentes vozes das lideranças eclesiásticas e dos muitos “teólogos” leigos nas comunidades locais que bradam a tese da homossexualidade como abominação e pecado. Me aterei apenas ao argumento de que a forma como queremos que o mundo seja (nossos valores do aceitável, legítimo, belo e justo) tem direta repercussão sobre nosso posicionamento nessa questão dos direitos dos homossexuais.

Essa última expressão é crucial: meu ponto de partida é que estamos discutindo os direitos civis dos homossexuais brasileiros. Mas, do artigo anterior, retomo a tese de que em se tratando rigorosamente de uma questão de direitos, e portanto de justiça, não há como separar isso da questão de como significamos e situamos os termos do debate: afinal se trata de direitos a serem assegurados não somente pelo estado, mas assumidos – no mínimo em termos de não discriminação pública – pelos cidadãos e cidadãs país afora, dos quais mais de vinte e cinco milhões (15% da população) são evangélicos(as).

Há um grande número de passagens bíblicas sobre o direito quase sempre referidas à denúncia da violência e da opressão ou a crítica da discriminação baseada na injustiça ou no preconceito étnico ou moral. Elas procedem de um mundo sem democracia, sem indivíduos e sem qualquer noção de igualdade política entre os cidadãos. Apesar disso, elas têm ao longo de séculos animado e guiado a reflexão ético-social e ético-política de judeus e cristãos, e influenciado a legislação em todo o mundo ocidental. Algumas delas, raramente lidas por essa ótica nas igrejas, podem ser citadas: Lv. 19.15; Dt 1.17, 10.17, 16.19; II Cr 19.7; Jó 34.12-29; Sl 103, 140; Pv 31.8-9; Is 58; Jr 9.23, 24, cap. 22; Lm 3.33-35; Am 5; Ez 18, 45.9; Ml 2.9; At 10.34; Tg 2.9.

Mas na mesma Bíblia lemos passagens onde flagrantes violações de direitos são narradas ou mesmo defendidas de modo por vezes chocante e perturbador. São comportamentos assumidos pelo povo de Deus. Ao lê-las com alguma sensibilidade e honestidade é difícil não sentir desconforto ou indignação: a violência e a inflexível recusa a considerar a complexidade das situações humanas nos soam injustas. Assim sentiram-se os profetas bíblicos (ver Hc, 1; Os 4.1-2). Dou como exemplos: Ex 21.1-11; Lv 20.9-18; Nm 31.15-17; Dt 7.1-2, 20; Jz 11.29-39, cap. 19; II Cr 15.12-13; Ez 21.4.

Considerando o desprezo, a rejeição, a humilhação, a discriminação no trabalho, a desconfiança, a violência sofrida por gays e lésbicas, sob as vistas complacentes de pessoas comuns, lideranças sociais e eclesiásticas, e agentes do estado responsáveis por garantir os direitos civis mais básicos a qualquer cidadão(ã), esses textos precisam ser lidos urgentemente sob nova ótica. Qual linha adotar? A da equalização entre homossexuais e os oprimidos a quem se deve fazer justiça, ou sua identificação com os ímpios contra quem se deve confrontar, inclusive exterminando-os? Onde, como e quem traça a linha entre tão díspares atitudes?

A situação do exílio no Antigo Testamento e as primeiras perseguições contras os cristãos no Novo Testamento levaram a uma notável conclusão: a de que os limites do presente não tem como se comparar ao que sobrevirá como resultado da ação libertadora divina: o anúncio de coisas novas, de uma ordem de coisas inimaginável (cf. Is 43.19; 66.22; Mc 1.27) demandava mais do que uma abertura de mente, demandavam a disposição de aceitar a obra nova de Deus, confiar em que os novos caminhos da história são abertura para um novo tempo, não uma volta ao passado conhecido.

O que quero ressaltar na brevíssima leitura acima é que enquanto não entendermos que o Deus justo é o mesmo que abre novos capítulos na história, nossa ortodoxia será apenas um catálogo de pré-conceitos. O conceito de heterossexualidade tem, óbvio, clara ressonância bíblica. Na mesmíssima medida em que a Bíblia retrata fiel e explicitamente os condicionamentos culturais de todos os seus personagens.

A história bíblica jamais foi a de um eterno retorno – esta é a representação do pecado, nas narrativas sobre Israel: Deus salva, celebra um pacto, o povo desobedece, a iniquidade campeia, os oprimidos gemem, Deus salva… A história bíblica sempre aponta para recomeços, mas também para o completamente novo, que nega, supera, e denuncia práticas e conceitos solidamente estabelecidos entre pessoas de convicções religiosas inegociáveis tanto quanto entre as dissimuladas ou incoerentes.

A história bíblica é aberta. Ela abriu lugar e reclamou proteção para estrangeiros num Israel nacionalista; admitiu prostitutas na linhagem genealógica de Jesus; levou Jesus e seus discípulos ao acolhimento de miseráveis, analfabetos, histéricos e psicóticos (endemoninhados), guerrilheiros, adúlteras e eunucos; destinou o evangelho a gente de todos os povos, línguas e nações (assim, em princípio, redimindo todas as culturas como possíveis lugares de encontro com Deus).

Se não fosse assim, não haveria Igreja (lugar de reunião, assembleia dos novos cidadãos do Reino), não haveria igrejas (diferentes tradições e denominações, com práticas e doutrinas muitas vezes opostas), não haveria a revelação contínua do Espírito Santo soprando os ventos de uma história com Deus que não tem fim, na qual não somente Deus se mostra à medida de nosso discernimento e despreendimento teológico e cultural, mas certamente também interage com a trajetória e as novas questões de nossa caminhada coletiva de fé. Não só como evangélicos, mas como humanidade. História em aberto para as novas questões de justiça.

Joanildo Burity

Joanildo Burity

Joanildo Burity é doutor em Ciência Política pela University of Essex, Inglaterra, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e professor colaborador dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política da UFPE. É membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Joanildo Burity