O protestantismo à moda brasileira. Para além de uma sociologia burguesa das religiões

4 de novembro de 2014
pentecostalismo

tempos de Reforma Protestante, o religioso mais destacável foi Thomas Müntzer. Este sacerdote religioso é profundamente marginalizado e desconhecido pelos intelectuais que estudam as revoluções dos tempos renascentistas da Europa. Para fundamentar as minhas observações, usarei a tipologização da história protestante feita pelo historiador Fábio Py. O pensamento e o movimento protestantes podem ser vistos a partir de três grandes configurações sociointelectuais: o aristocrático, o burguês e o camponês.

No primeiro estofo teológico, estão as expressões anglicanas, luteranas e calvinistas. No segundo (o burguês), estão, por exemplo, as expressões menonitas e batistas. Na terceira esteira das expressões protestantes, estão os camponeses. A despeito da sociologia e da historiografia terem valorizados os horizontes da primeira e segunda expressões religiosas, é na terceira que encontramos os fortes germes da liberdade, transcendência, utopia, espiritualidade e da criatividade protestante – a qual o teólogo Paul Tillich entendeu ser dinamizada pelo princípio protestante.

Os estudos sobre a religiosidade pentecostal no Brasil e na América Latina se ajeitam aos modos burgueses e demasiadamente preconceituosos. Com as exceções do prof. Clemir Fernandes, Dr. Gedeon Alencar e do meu companheiro Dr. Saulo Baptista, a sociologia da religião, que vai de Paul Freston a Ricardo Mariano, ainda se vê numa luta inconsciente que busca salvar o movimento evangélico das garras da fervura criativo-popular. O pentecostalismo é mal estudado pela sociologia de consciência burguesa, mas é nele que encontramos os germes da reforma protestante brasileira – e que a despeito da vontade de classe, ele se manifesta peremptoriamente no trânsito dos séculos XIX, XX e XXI.

Ainda em 2014, fui à Paragominas falar sobre religião e política num mal fadado projeto pessoal de esclarecimento. Afinal, é difícil vencer a indústria musical gospel buscando concorrencialmente que todos optem pelo debate crítico e autocrítico da política democrática. No caminho, entre a região de Marabá e Altamira, fui surpreendido pela presença de templos assembleianos nos assentamentos de movimentos sociais “sem-terra”. Claro que essa manifestação participativa e crítica de movimentos pentecostais não é minoria no Brasil.

Fato é que os movimentos pentecostais são estudados e analisados pela sua manifestação midiática e não por sua presença popular – apesar de sabermos que não é na mídia que se manifestam as expressões socioculturais de mais de 200 milhões de habitantes num espaço gigantesco com território com mais de 8 milhões de quilômetros quadrados.

O pentecostalismo brasileiro é riquíssimo em criatividade e desenvoltura política. Ele pode se expressar minoritariamente nas falas do Pastor Malafaia e, ao mesmo temo, pode, em grande número, se expressar entre tradições batismais e em atividades de bricolagens e sincretismos com religiões afro-indígenas. Esse pentecostalismo avança entre periferias e nas classes médias. Um movimento de êxtase, cura, oráculos, lutas sociais, participação comunitárias, etc., é a face de um cristianismo ainda não estudado exaustivamente e que, por isso mesmo, precisa ser descoberto para além de um marxismo positivista e de um weberianismo elitista.

Tal como Ernst Bloch descobriu o potencial libertário de um protestantismo renegado (o de Thomas Müntzer), precisamos estudar e descobrir uma expressão religiosa que, como afirma Gedeon Alencar, é expressivamente brasileira.

Manoel Ribeiro de Moraes Jr

Manoel Ribeiro de Moraes Jr

Doutor em Ciências da Religião (UMESP), mestre em Ética e Filosofia Política (UERJ) e graduado em Filosofia (UERJ) e em Teologia (STBSB). É professor adjunto de Filosofia na Universidade do Estado do Pará (UEPA) e coordenador adjunto do Mestrado em Ciências da Religião na mesma Universidade.

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