O que é pós-modernidade? Considerações inacabadas

17 de novembro de 2009
mascaras-980

“Os tribalistas já não querem ter razão, não querem ter certeza, nem juízo, nem religião. Os tribalistas já não entram em questão, não entram em doutrina em fofoca ou discussão… chegou o tribalismo no pilar da construção. Pé em Deus e fé na taba”. (Os Tribalistas)

Introdução

Durante muito tempo eu achei que esse trecho da musica “Tribalistas” resumisse bem o “espírito pós-moderno”. Hoje, penso que ela resume parte (explico depois).

Também até certo tempo concordei com a alusão feita por um professor sobre a pós-modernidade, na música “Caviar”, do Zeca Pagodinho: “Você sabe o que é caviar? Nunca vi nem comi eu só ouço falar”.

Hoje, minha aproximação com a pós-modernidade, ainda que em construção e provisória, é menos preconceituosa e mais generosa – no sentido de tentar ouvir mais atentamente o que está em questão; ela não possui uma só voz, mas várias.

O esporte predileto dos cristãos em geral, considerando alguns livros que li, é atacar o pós-moderno, associando-o ao relativismo (desprezo pela idéia de uma única verdade ou da verdade em si), ao pluralismo (desprezo pelas concepções fechadas e, ao mesmo tempo, abertura a qualquer concepção) e ao espiritualismo (busca pela espiritualidade nos lugares errados).

Prefiro pensar nessas designações como caricaturas: “reprodução deformada de alguma coisa”.

Meu desejo aqui é indagar se há outro caminho a trilhar além do rechaço. Pensar nas contribuições à fé, teologia e igreja que podemos extrair da conversação pós-moderna. Verificar as ondas possíveis de se surfar nesse “mundo”. E é também pedir ao Senhor que nos dê abertura de mente para ler e interpretar os “sinais dos tempos” (Mt 16.1-3).

A definição de pós-modernidade

O conceito de pós-modernidade não é dos mais fáceis de definir. Porque se trata de um objeto que se insere na perspectiva do múltiplo: múltiplas abordagens, perspectivas e nomenclaturas.

Fora isso, ainda há a questão de que se trata de um fenômeno de protesto, que tem muito mais desconstrução do que construção em vista. Definição é coisa moderna. A cultura moderna é que fez com que nos habituássemos a “pôr fim em”, fechar questão, conceituar.

Nós fizemos um pacto com os conceitos. Eles nasceram para dar conta do mundo, para ser uma designação fiel das coisas às quais eles remetem. Se digo, por exemplo, “Deus”, o dizer em si já remete à entidade a qual desejo designar. Parte-se do pressuposto da correspondência entre a palavra e a coisa em si; o conceito é igualado à realidade que ele tenta descrever.

Rob Bell[1] disse o seguinte: “Nossas palavras não são absolutas. Apenas Deus é absoluto, e Deus não tem a intenção de partilhar seu absolutismo com ninguém, especialmente palavras que as pessoas usam para falar sobre Ele. E isso é uma das coisas com a qual pessoas têm se debatido desde o princípio: Deus é maior que nossas palavras, cérebros, cosmovisões e nossas imaginações”.

Bem, tudo isso para dizer que eu não tenho uma definição. Mas, vamos chegar lá…

Quem fala em “pós” está querendo dividir algo. Se uma coisa é X, e outra que vem depois de X ainda não se tem por certo o que é, então ela é designada provisoriamente como pós-X.

Então, o prefixo da palavra pós-modernidade indica que estamos falando de um fenômeno que desponta como transbordamento de algo, vai além. No caso, da modernidade.

Segundo François Lyotard[2], simplificando ao extremo, o pós-moderno se define pela “incredulidade em relação aos metarrelatos” – grandes relatos que buscam uma explicação universal (única) e correspondente à realidade.

Exemplo: minha linguagem (conceito) dá conta da realidade que pretendo descrever. Ou a coincidência entre a capacidade (o que eu posso chegar a fazer) e o desejo (o que eu quero que seja feito).

O moderno pode ser descrito por aquele que crê nessas correspondências e o pós-moderno como aquele que desconfia, abandona ou descrê na possibilidade de coerência plena entre elas.

Uma sociedade é moderna, segundo Zygmunt Bauman[3], “na medida em que tenta, sem cessar mas em vão, ‘abarcar o inabarcável’, substituir diversidade por uniformidade, por ordem coerente e transparente”.

A que podemos comparar?

Brian McLaren[4] faz uma comparação interessante: o mundo de Jurassic park é o mundo moderno. “Um sonho de controle. Tecnologia por diversão e lucro. Mas trata-se de um sonho torto. A natureza, por sua vez, tem uma corrente de caos passando através dela”.

É um mundo que desejava controle, mas que perdeu o controle. E o olhar crítico a esse mundo vê que ele “desencadeou os velociraptors da degradação ambiental, os tiranossauros rexes da opressão ética, os componentes computadorizados da lascívia e da cobiça”.[5]

A frase de Michel Qüost, cabe bem aqui: “O homem é limitado em seus meios e ilimitado em seus desejos”. A limitação não é o problema, o problema é a infinitude (viver sem limites).

Por isso, o olhar pós-moderno é de desencanto para com as teorias modernas (são apenas teorias), para com o sujeito moderno (capaz, autônomo) e sua habilidade de conhecer (na verdade, conhecemos só em parte).

A modernidade, segundo Bauman, refere-se essencialmente à “solução de conflito”, a não admissão do erro, da contradição e negação do conflito, pois sempre há uma “solução”.

Se pudéssemos usar outra comparação, o símbolo da modernidade seria o sólido (certezas, precisão, convicções inabaláveis) e o da pós-modernidade seria o líquido (incertezas, dispersão, convicções fluentes).

Ao mesmo tempo, não entendo que o “pós” esteja se referindo a algo “cronológico”, nem ao abandono total de princípios, como verdade, fé, ou conceitos morais anteriormente estabelecidos, mas da “rejeição de maneiras tipicamente modernas de tratar seus problemas morais”[6], de modo absoluto e coercitivo.

Em contrapartida, a pós-modernidade pode ser representada em dois conceitos, utilizados por Bauman, que endereçam sua aceitação do conflito e da pluralidade:

Ambivalência. Compreende o estado em que não sabemos exatamente como agir nem prever o que vai acontecer. Ambivalente é a situação ou pessoa que admite a falta de ajuste entre a capacidade e o desejo, assume o limite dos seus meios frente à sua infinitude de desejos.

Aporia. Indica uma dificuldade ou dúvida racional diante da impossibilidade objetiva de uma resposta ou conclusão definitiva a respeito de algo. Representa, portanto, um estado desejável pelos pós-modernos, de incerteza, apologia do erro, e assunção da natureza inacabada de seu conhecimento a respeito da realidade.

Um dos erros da vida acadêmica hoje é o de continuarmos sendo modernos no sentido de buscar a suficiência e evitar o erro a todo custo, como se ele fosse o câncer da ciência. Pelo contrário, o câncer da ciência se chama sufi-ciência! É quando o cientista ou intelectual pensa que a ciência tem todas as respostas e é capaz de tudo e mais um pouco. Essa falsa assunção é (foi) sua ruína. Pois o erro não é defeito, mas é a condição de continuidade e processualidade da ciência, pois “ciência sem erro é dogma”, afirma Pedro Demo, e mais: “A renovação do conhecimento é diretamente proporcional a presença do erro”[7].

Por isso é que eu disse lá no começo que esse negócio “tribalista” de não querer mais ter razão, juízo, certeza ou religião, não é tudo o que se pode dizer sobre a pós-modernidade. A diferença não está exatamente no conteúdo, mas na forma. O pós-moderno faz uso da razão, constrói juízos e até admite algumas certezas, porém, reconhecendo os limites de sua razão, a provisoriedade de seus juízos e as dúvidas presentes, mesmo em suas certezas.

Além disso, é também uma caricatura dizer que o pós-moderno “de carteirinha”, como diz McLaren, não crê na verdade absoluta. Ele não duvida da existência de uma verdade absoluta lá fora, mas de nossa capacidade de apreendê-la, codificar numa linguagem e transmitir a outras pessoas e fazê-las compreender de uma maneira “absolutamente exata”. O problema deles não é a verdade absoluta, mas o conhecimento absoluto [8].

Implicações para a teologia

Certa vez, ouvi de um professor o seguinte: “Para tudo o que é, a linguagem cala”. E logo me lembrei da passagem bíblica em que Moisés pede uma alcunha para Deus, como se dissesse: “Esse povo aí irá me perguntar a Quem estou dizendo para eles seguirem; embora eu tenha dito que é ‘o Deus de vossos pais’, eles vão querer um nome; então que nome eu dou pra você, quem é você afinal?”. E a resposta do Senhor foi emblemática: “EU SOU O QUE SOU”. E para tudo que é… Se a discussão é sobre se ele é verdadeiro ou não, a resposta é: “EU SOU”. Pronto. Contente-se com isso, Moisés, com a impossibilidade de expressar a verdade por meio da sua linguagem.

E se é com isso que os teólogos mais se debatem quando se fala em pós-modernidade, eu vejo aqui uma contribuição interessante: precisamos reconhecer que se a verdade é o absoluto ou eterno, ela é, e ponto final. Nossa linguagem e razão podem até margeá-la, mas nunca detê-la.

Certo então, a linguagem se cala diante da verdade, pois dizer a verdade compreensivamente (em tudo o que ela é) seria o mesmo que matar a própria verdade. Porém, o ser humano se serve o tempo todo desse meio improvável chamado de linguagem, de modo que se poderia indagar: “Ora, se somos irremediavelmente ligados a essa atividade de nomear, como posso me calar diante de tudo aquilo que vejo”?

Trata-se, como diria Jacques Ellul, de nosso instrumento mais lábil, incerto, referindo-se ao que é mais certo. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus. Mas como saberemos o caminho? O que é a verdade? Que vida é essa? E continuamos tentando descodificar a verdade na linguagem.

Fazer teologia, até aqui, tem sido julgamento do correto pelo incorreto. Embora a verdade que desejamos tanto deter, nos escapa, porque somos detidos por ela e não o contrário, ainda assim insistimos em nos mover num universo de exatidão, em busca da única resposta, a solução correta, o paradigma exato. Quando na natureza do paradigma em si mesmo mora a imprecisão. Como diz Ellul: “Não existe experiência imediata da verdade, nem da mentira, nem do erro. (…) O que vem da palavra nunca é evidente. O real pode ser evidente, a verdade, nunca”.[9]

Aí, um de vocês pode estar se perguntando: “Mas então porque devo continuar nisso se já descobri que a verdade não pode ser descoberta ou plenamente desvendada pela razão”?

É simples, e é complexo: porque é ela que confere sentido ao nosso existir. A impossibilidade da linguagem deveria, assim, nos conduzir a uma tarefa mais honesta, humilde, dependente daquilo que somos e temos, e da graça de Deus e, por tudo isso, alegre e celebrativa.

Eis o extraordinário, diria Ellul: é uma benção para o ser humano viver assim, cativo da linguagem, distante da completude e, ao mesmo tempo, em busca dela, pois do contrário, acrescentaria eu, não seriamos seres humanos e sim deuses, ou semideuses.

Parafraseando Ellul, nossas certezas teológicas podem ser incompletas quanto à exatidão da revelação (quando assim pretendemos), mas são elas que nos permitem viver. Porque a verdade na qual cremos é uma pessoa (Jesus), e não um conceito que pode ser desmembrado num diagrama qualquer.

 Concluindo (ou inacabando)…

Duas contribuições de Paulo me chamam a atenção. A primeira está em 1Co 13.12: “Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”. Em outra tradução (A Mensagem) se diz: “Apenas conhecemos uma porção da verdade, e o que dizemos sobre Deus é sempre incompleto. Mas quando o Completo chegar, nossas incompletudes serão canceladas”. Faz sentido isso para você? Pois para mim faz muito sentido…

A outra contribuição paulina está em Fp 3.12: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado”. Essa é uma afirmação tremendamente Cristã, de humildade, honestidade e inquietação: Eu ainda não terminei, ainda não estou acabado, não cheguei à reta final. E porque eu não me considero um expert nesse negócio, olho para frente e sigo adiante, procurando aquilo que ainda me aguarda.

Esses exemplos me ajudam a entender um pouco mais a pós-modernidade (ou pelo menos uma faceta dela), que me recorda uma grande lição: que a incompletude não é a minha tragédia (ainda que possa parecer), mas o caminho para a liberdade e dependência de Deus, atributo indispensável da vida, mais ainda da vida cristã.

Notas

[1] BELL, Rob. Velvet Elvis. Repainting the Christian Faith.  Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2005, p. 23.

[2] LYOTARD, Jean-François. O pós-moderno. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993, p. xvi.

[3] BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997, p. 10.

[4] MCLAREN, Brian. A igreja do outro lado. Brasília: Palavra, 2008, p. 228.

[5] Ibid., p. 229.

[6] BAUMAN, op. cit. p. 8.

[7] DEMO, Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. São Paulo: Atlas, 1995, p. 53.

[8] MCLAREN, op. cit., p. 234.

[9] ELLUL, Jacques. A palavra humilhada. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 35.

Jonathan Menezes

Jonathan Menezes

Professor da Faculdade Teológica Sul Americana, em Londrina-PR. Doutorando em História e Sociedade pela UNESP e mestre em História Social pela UEL. Autor de "Humanos, graças a Deus" e "Espiritualidade em Transformação", ambos pela Editora Novos Diálogos. Casado com Cibele, pai de Cauã.

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