O que temos hoje basta? Uma reflexão sobre “os evangélicos” no Brasil pós-1985

10 de dezembro de 2011
evangelico e brasil

Há alguns dias o pastor Ricardo Gondim publicou um provocativo texto sobre o que, num mundo contrafactual, seria um país governado – ou antes controlado – por evangélicos. Texto forte e corajoso, que dá a pensar e sobretudo permite fazermos um balanço do tipo de publicização religiosa produzida pela presença evangélica na política e na cultura brasileira do período pós-ditadura.

Concordo inteiramente com o tom geral da provocação e com as preocupações expostas, mas discordo do tom geral do texto. Compreendo que o estilo polêmico e a ironia são formas eficazes de abrir uma discussão, sacudir a complacência de discursos politicamente generosos vindos de dentro e de fora do campo religioso, e apontar possibilidades não desejadas de influência religiosa na sociedade brasileira. Mas é preciso dizer mais do que isso. É preciso nomear onde o problema está. É preciso avaliar a promessa da politização evangélica dos anos 1980 e onde estamos hoje. O que temos basta? Concordo com Gondim com um rotundo “NÃO”. Por isso é necessário irmos mais fundo. Que tal refletir sobre uma trajetória?

Começo pelo recurso da generalização, que pode cumprir a indesejável função de um tiro no pé. Gente como Gondim mostra que “os evangélicos” é uma generalização que temos de resistir seriamente. Mostra que “os evangélicos” é o nome de um projeto político-cultural, inspirado em teologias e práticas conservadoras (algumas francamente reacionárias e outras mesmo fascistas), tradicionais e pentecostais, que tomou de assalto o campo protestante nas últimas duas décadas e meia, mas que não é toda a história.

Tal projeto decorre de duas fontes principais. Primeiro, a recentíssima onda de politização evangélica se ancora num contingente de pessoas majoritariamente sem experiência de participação social e política, sem formação política (de cunho acadêmico ou teológico-pastoral). Inexperiência e falta de recursos simbólicos para compreender, analisar e posicionar-se nos debates que a complexa situação social contemporânea coloca leva a que, de um lado, os neo-politizados escudem-se nos modelos à sua disposição – da rejeição principista à adesão “realista” à política da troca e do favor, a distância é fundamentalmente apenas de atitude; de outro lado, adotam um biblicismo primário que crê encontrar modelos prontos e diretivas diretas, trans-históricas e sem necessidade de mediação, entre a Bíblia e as questões sociais, políticas, econômicas, ambientais, de hoje.

De um lado, politização sem socialização política; de outro, discurso ético-político sem mediações históricas e teológicas. Nenhuma das fontes é particularmente propícia a uma política interessada na realidade e assentada em valores radicais de pluralidade, liberdade e igualdade.

Segundo, o caráter fortemente institucionalizado e clerical da politização evangélica reflete uma teologia popular que não favorece separações ou distinções entre o mundo espiritual e o mundo material, o céu e a história, a igreja e a política. Tudo é avaliado desde a perspectiva espiritual e pode levar à radical rejeição do mundo, com consequente alienação política, ou a um engajamento que crê possível alinhar o mundo aos padrões morais e espirituais da comunidade de fé. A minoria religiosa se apresenta assim como portadora de um projeto para toda a sociedade, mas o conteúdo desse projeto é apenas a expansão em larga escala das práticas eclesiais vigentes.

Politização que produz instâncias de planejamento, investimento financeiro e controle político da atuação eleitoral dos evangélicos (os “conselhos políticos”), que reproduz modelos empresariais de conquista de mercados, e que se ancora na autoridade última de bispos e pastores como oráculos da verdade e guias infalíveis, é mais do que a comparação com a Genebra de Calvino permite: não é um retrocesso a um mundo pré-moderno, mas envia sinais de uma incômoda contemporaneidade com a transformação de todas as relações sociais segundo a lógica privada e não democrática do mundo empresarial. Falta a noção de que o espaço público se constitui de uma pluralidade irredutível e é regulado por noções de direitos e justiça, onde o reconhecimento do outro e a negociação de demandas, interesses e projetos é uma exigência permanente.

Ora, não é preciso muito para entender a ambiguidade deste projeto e sua real possibilidade de aplicações autoritárias. Conhecendo a sanha punitiva, a retórica intolerante e a prática política em pouco distinta da tradição conservadora brasileira (com seus laivos de patrimonialismo, corporativismo e corrupção – já sobejamente demonstrados no comportamento de numerosos parlamentares evangélicos desde a bancada federal de 1986 e seu voto pelos cinco anos para o mandato de Sarney), certamente há motivos para preocupações.

Mas evangélicos como Ricardo Gondim também mostram que há pensamento crítico, prática social comprometida, gosto pela liberdade e pela pluralidade de formas de vida. Somente pessoas muito limitadas em sua experiência do mundo, fechadas num provincianismo que ignora suas próprias fontes (afinal, sejam elas “a cultura do Norte” ou a longa tradição judaico-cristã, estamos falando de uma longa história, multiétnica, multicultural, pluri-ideológica, onde ninguém jamais estará autorizado a afirmar que só há um modo de ser cristão) agem da forma como Ricardo condena. Ele está certo porque de fato esses “evangélicos” existem, aos milhares e, perigosamente, em maioria entre nossos representantes eleitos.

Mas está errado ao adotar – ainda que polemicamente – o termo generalizante, “os evangélicos”, que dá a entender que o avanço público de visibilidade e participação entre os evangélicos ocorrido nos últimos tempos só pode levar a uma espécie de totalitarismo moreno. Os pentecostais, os carismáticos e os tradicionais evangélicos são muito mais plurais do que isso. Evangélicos Pela Justiça, dezenas de ONGs evangélicas, o abençoado trabalho de fermentação teológica e solidariedade militante do movimento ecumênico (institucionalizado ou não, com ou sem os “evangelicais”), a orientação pastoral de algumas denominações, a experiência concreta de centenas de igrejas/congregações/paróquias/grupos de cristãos e cristãs locais, nos apontam não poucos exemplos de que o protestantismo brasileiro não é a mesma coisa que “os evangélicos” e que não precisaríamos temer o cristianismo destes.

Gondim esperou quinze anos para se pronunciar, como disse. Propus aqui voltar mais ainda, a 1985. Duas décadas e meia depois, talvez seja o momento de insistir na categoria “protestante”. Pois admito e defendo que há um dissenso a ser invocado e uma luta a travar. Precisamos mais do que de polêmica e ironia: precisamos de uma “disputa hegemônica” com esses “evangélicos” que seja capaz de mudar suas ideias e práticas, neutralizar suas investidas autoritárias e intolerantes, ou se necessário denunciar publicamente suas práticas e inconsequências.

Isto não precisa ser feito no espírito de cruzada tantas vezes repetido para dentro tanto quanto para fora das igrejas cristãs. Precisamos acreditar que valores como amor ao próximo, perdão e reconciliação e liberdade cristã, imbuídos de uma espiritualidade crítica e orientada para o mundo aprendida dos profetas bíblicos e de Jesus, nos ajudarão a somar forças com pessoas de várias e nenhuma religião na tarefa infinitamente mais complexa e dura de transformar o mundo. Precisamos submeter tais valores ao crivo da sua aplicabilidade e de sua particularidade numa sociedade plurirreligiosa, pluricultural e pluri-ideológica. Invocar a herança protestante, o “princípio protestante” de que falou Tillich, e salientar a prática efetiva de pessoas e organizações no mundo evangélico que já estão comprometidas com isso, aqui e agora, começando por Gondim, é o mínimo que os evangélicos que não somos como “os evangélicos” podemos fazer.

Reacender o dissenso, organizar a resposta à generalização de uma ética sectária como sinônimo de presença cristã no mundo, e articular uma linguagem que ao mesmo tempo dê conta dos desafios do século 21 e ousadamente insista na contemporaneidade dos valores e narrativas cristãs é um pequeno programa para escapar ao terrível, chato e monocromático mundinho dos “evangélicos”.

Joanildo Burity

Joanildo Burity

Joanildo Burity é doutor em Ciência Política pela University of Essex, Inglaterra, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e professor colaborador dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política da UFPE. É membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Joanildo Burity