Ocupação na igreja e a igreja desocupada

10 de maio de 2016
igreja ocupada

E se um grupo de estudantes ocupantes batesse na porta da sua igreja convocando-os para que a Igreja se envolvesse na questão da merenda roubada? Chamaria o Coronel Telhada junto com a PM do Alckmin ou abriria a porta do templo?

E se um grupo de sem-tetos desabrigados da Ocupação Rosa Leão batesse na porta do templo da sua igreja com um monte de crianças pequenas, o que você faria? Chamaria a PM do Pimentel para reprimi-los ou abriria a porta da Igreja?

Se a sua resposta for pela repressão policial, é bem possível que sua noção de “ser igreja“ seja meramente jurídica, sem nenhuma profundidade bíblica. O papel da Igreja e sua estrutura é estar a serviço de todos os seus “não membros”.

Porém, ao longo de minha caminhada, tenho testemunhado diversas situações lamentáveis. Uma dessas situações se deu no Ceará, numa denominação da qual fui membro. Havia um programa de distribuição de leite para famílias carentes do bairro de uma de nossas igrejas, mas que foi desativado porque os membros diziam que “essa gente vai sujar as paredes da igreja”.

O grande constrangimento é ver igrejas que deixaram de ser espaço para aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade, como as ocupações urbanas que lutam por um direito básico (moradia, por exemplo). Assim se desvela a tragédia do discurso dos neofundamentalistas evangélicos: achar que o templo feito por mãos humanas tem maior relevância do que os corpos de gente pobre que são Templo do Espírito Santo. Achar que o lugar da conversão genuína está circunscrito a quatro paredes frias e não ao reconhecimento da face de Cristo na vida desses pequeninos.

O “neofundamentalismo” não pode ser enquadrado como uma vertente protestante. É verdadeira traição ao protestantismo defender à ferro e fogo o “templocentrismo“. É um conceito da lógica do catolicismo ultramontano e tridentino. Nada mais é do que um protestantismo deformado, longe da herança reformada, que há muito tempo rompeu com esse pensamento tacanho. John Wesley disse que nossa paróquia deve ser o mundo.

É de chorar que alguns insistam em ser paroquialistas de portas fechadas para os clamores de vozes que esse mundo cão deseja exterminar. Assim, ainda ressoam as palavras proféticas de Dietrich Bonhoeffer:

A comunidade cristã está no lugar onde o mundo todo deveria estar; nesse sentido, ela serve representativamente ao mundo e existe em função dele. Por outro lado, o mundo chega à sua própria plenitude onde está a comunidade (…) a ‘nova criação’, ‘a nova criatura’, o alvo dos caminhos de Deus na terra. Nessa dupla representatividade está a comunidade, inteiramente na comunhão e no discipulado do seu Senhor, que foi o Cristo precisamente no fato de existir totalmente para o mundo e não para si mesmo (2009, p 38).

Igreja que não serve, não serve. É inútil. É sal que não salga e que só serve para ser pisada pelos homens. Igreja que não acolhe a voz dos necessitados, dos doentes, dos excluídos, dos esquecidos e desprezados, é apenas um clube religioso sem função alguma. Sequer precisaria a Igreja ser ocupada por movimentos sem-teto ou por coletivos de estudantes que denunciam desvio de merenda no sistema educacional. Deveria ser a própria Igreja a estimular a participação nessas causas e a primeira a empoderar tais iniciativas. Uma Igreja que não se ocupa do que deveria fazer, é tudo menos igreja. É tão somente a reprodução da Igreja de Laodicéia:

Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca. Você diz: Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego e que está nu“. (Apocalipse 3.16, 17, NVI)

Igreja que não se ocupa é igreja desocupada. E igreja desocupada não é casa de Deus, mas oficina do diabo. Deus nos livre de uma religiosidade ensimesmada. Que Ele nos converta e nos reconcilie com os becos e vielas de nossas cidades. Uma Igreja que assume protagonismo em favor da Justiça e do Bem Comum, pois o Deus que servimos instituiu que toda a sua Criação está a serviço de todos.

Referências

BONHOEFFER, Dietrich. Ética. Sinodal, 2009.

Caio Marçal

Caio Marçal

Caio Marçal é cearense e membro da Igreja Batista da Redenção, em Belo Horizonte. É missionário na Ocupação Rosa Leão e membro da Coordenação Nacional da Rede FALE .
Caio Marçal