Ocupações são a “reintegração de posse” da política a partir de baixo

3 de maio de 2016
ocupar e resistir

A construção do comum é inseparável da reinvenção da comunidade

Achille Mbembe, filósofo camaronês

Disse a filósofa americana Ângela Davis, em uma entrevista, que o movimento pelos direitos civis sabia que não ia resolver os problemas do racismo estrutural nos Estados Unidos, mas ele criou um terreno para formular novas questões e caminhar em novas direções. Assim também vejo os movimentos de ocupação das escolas. Não resolverão problemas imediatos, mas apontam novos caminhos de participação e construção de narrativas políticas.

Mesmo que perca força de pressão e ritmo, as ocupações protagonizadas por jovens alunos no Rio e em São Paulo já nos deram uma aula de cidadania e participação. Quando o governador, de um ou de outro Estado, recorre à força policial para cumprir a reintegração de posse de uma escola (assim como de um prédio, assim como de uma terra improdutiva ou não utilizada) o que ele faz na verdade é verdadeira invasão. Eles invadem a política e violentam os sujeitos que a constituem efetivamente. Hannah Arendt dizia que o “espaço político diz respeito às realizações humanas em um mundo plural e comum a todos os homens”. A invasão do espaço político que reprime a narrativa reivindicatória daqueles e daquelas que querem o acesso e a garantia da qualidade do que deve ser comum a todas e todos (a educação, a terra, a casa, a saúde, a justiça, o transporte público) é feita então pelo aparato policial armado do Estado, e não pelos ocupantes.

Esses jovens não devem desistir, e mesmo que eles parem, a lição já foi dada. As ocupações empreendidas por eles já é um dos muitos caminhos abertos de enfrentamento do status quo repetitivo, burocrático, legalista, pesado. Tudo o que as autoridades possuem para legitimar suas respostas truculentas, redundantes e burras é a intenção deles de preservar o estado democrático de direito. Mas o estado democrático de direito é uma invenção que se esvazia de sentido na medida em que só é evocado quando o Estado (que não é democrático, e nem respeita direitos) é confrontado.

Então devemos ocupar tudo. Hospitais, teatros, Tribunais de Justiça, mais escolas, universidades, câmaras de deputados e vereadores, igrejas. As ocupações são a materialização do diálogo que, sem essa presença forte e desconfortável dos inconformados, é negligenciado por quem detém o poder e a autoridade. As vias institucionais não comportam mais os que querem participar de baixo pra cima. Se quisermos ter de volta (um dia tivemos?) o comum a todos, já está passando da hora de compreender a necessidade de transgredir, marginalizar, subverter as formas de reivindicação. Como diz o camaronês Achille Mbembe, “a construção do comum é inseparável da reinvenção da comunidade”. Estes alunos e alunas estão nos ajudando a reinventar a nossa comunidade, mais ativa e participativa, ao nos mostrar que repensar a política de baixo pra cima é como uma oração, súplica impertinente que só é feita por quem crê.

Nossa classe política atrasada, arcaica e profundamente hierarquizada detesta lidar com ocupações. Não conhecem outra forma de contra-argumentação que não seja através do braço armado do Estado. Criminalizam ocupantes como invasores, e se valem das maldosas matérias da grande mídia que buscam dividir opiniões. Mas estas ocupações possuem um imenso poder simbólico.

Neste sentido, nada mais lindo do que os alunos jantando à luz de velas, uma vez que as autoridades escolheram cortar a luz. A política é nossa. O espaço político é dos sujeitos, cidadãs e cidadãos. Também não devemos entregar a construção coletiva e comunitariamente criativa nas mãos de velhos agentes e narrativas militantes que não sabem ocupar outro lugar senão o de comando. A hierarquia de fala, poder e saberes já se esgotaram. Ocuparemos quando quiser e quando for necessário, e não quando mandarem. Ocupemos mais. Ocupemos os espaços que reproduzem o racismo estrutural e institucional. Ocupemos os comandos das máquinas de guerra que invadem favelas e periferias de forma irresponsável matando nossa juventude negra, e que põem escolas e creches sob fogo cruzado. Ocupemos as ruas, praças e comunidades que são nossas. Que possamos encontrar novas formas de empreender a reintegração de posse do espaço político comum, que é nosso.

Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco

Ronilso é de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Estuda Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio. É membro do Coletivo Nuvem Negra e congrega na Comunidade S8 Rio. Interlocutor social na ONG Viva Rio.
Ronilso Pacheco