Onde está a política?

3 de fevereiro de 2010
politica

As pessoas costumam localizar a política num determinado lugar da vida social. Aliás, essa representação comum da vida social como se fosse uma topografia em níveis, ou com territórios claramente definidos, também predominou no discurso das ciências humanas e sociais desde a segunda metade do século 19 até fins dos anos de 1960. Se a política está localizada, há lugares e práticas que não são políticas, e é preciso estabelecer os termos de relacionamento ou de comparação entre esse lugar da política e os outros.

É preciso inclusive admitir que não seja possível ou desejável que outros lugares e práticas venham a se relacionar com a política. Assim é que, para já entrarmos no caso dos discursos religiosos sobre a política, se ouve que “religião não se mistura com política”, ou que a política tem a ver com a conquista e a manutenção do poder e que considerações de caráter religioso só trarão problemas, por não respeitarem a especificidade da política. Muito do que se conhece como liberalismo em política se constitui em torno dessa ideia.

Como sugeri no texto anterior, transformações históricas puseram profundamente em questão essas visões, a despeito de elas continuarem a predominar, ao custo de cada vez mais contraditórias “concessões” conceituais e pragmáticas dessa concepção topográfica da política.

Para começar, o discurso religioso sempre teve dificuldades de conceder esse lugar distinto e protegido à política, particularmente no Ocidente cristão não liberal. Assim, é antes a fusão entre o domínio da religião e o da política que caracteriza a posição conservadora clássica (suspendo por enquanto a questão sobre o que significam tais conceitos “antes” de sua “fusão”). A luta para delimitar um lugar para a política que coincidisse com a retração da religião à esfera privada ou mesmo puramente subjetiva da vida levou séculos e não foi obra do conservadorismo religioso. Foi a luta que consagrou a concepção liberal da separação entre igreja e estado como separação entre privado e público e reservou o religioso à esfera das convicções e valores, da moralidade individual.

O argumento antipolítico que conhecemos hoje é já uma resposta meio resignada à vitória do liberalismo. E havia religião dos dois lados. À sombra das guerras de religião do século 16, da resistência católica à modernidade nos séculos seguintes e da experiência quase-religiosa do totalitarismo no século 20, o liberalismo (de inspiração solidamente protestante) prevaleceu como campeão das liberdades religiosa, de pensamento e de expressão, e muitos cristãos contribuíram decisivamente para tanto.

E, em reação visceral ao avanço do liberalismo político e do socialismo (ainda mais rigoroso em sua ideia de separação entre religião e política), um discurso radicalmente quietista espalhou-se pelo mundo, a partir de setores evangélicos brancos norte-americanos, que convergirá com o anticomunismo militante dos anos de 1950 em diante, ativamente participante na Guerra Fria. Esse discurso, que aliou contraditoriamente a recusa à participação política ao apoio explícito a políticas anticomunistas (incluindo violações da soberania nacional e dos direitos humanos em várias partes do mundo), tornou-se dominante entre os protestantes brasileiros a partir do golpe militar de 1964. Também o foi entre muitos católicos.

No entanto, este é um processo com muitas entradas. De um lado, em resposta à ortodoxia secularista, ao apoliticismo e ao reacionarismo religioso, respostas religiosas foram sendo dadas que recolocaram no centro da reflexão e da prática o desafio de articular religião e política de outra maneira. De outro lado, o avanço da lógica estatal sobre cada vez mais áreas da vida social e privada, em linha com as políticas de bem-estar e as reivindicações dos movimentos sociais dos anos de 1960 em diante (direitos civis, feminismo, ecologismo, antirracismo e defesa dos direitos culturais e suas múltiplas combinações), politizou temas e práticas antes consideradas não políticas.

Assim, nas últimas décadas, em escala internacional, ampliou-se consideravelmente o rol das temáticas e práticas consideradas políticas. O inconformismo com os limites da democracia representativa (parlamentarista ou presidencialista) como único lugar de deliberação pública e tomada de decisões; as lutas contra os autoritarismos do século 20; a busca por formas de expressão coletiva de crítica social; e a crescente percepção intelectual das múltiplas formas de cumplicidade entre poder e saber – esses processos conduziram à expansão dos “territórios” da participação, à ampliação da agenda de questões de relevância pública, à emergência da “sociedade civil” como ator crucial na definição do que é de interesse público, de que vozes contam como representativas dos diferentes grupos e posições existentes.

A definição de democracia se amplia para além dos limites do estado – sem perder contato com ele – e cria-se uma zona cada vez mais cinzenta na fronteira do que antes separava o domínio do político do que seria não político. Ser político é um atributo que se torna contingente, volátil, contestado. O que hoje é não político pode amanhã ser “politizado”; o que é político numa determinada esfera da vida social, pode ser não político em outra(s).

A separação entre “igreja” e “estado” torna-se mais complexa quando a forma-igreja não se confunde mais nem com a Igreja Católica, nem com as igrejas cristãs, à medida que o pluralismo religioso se instala, pela migração de pessoas de outras culturas, ou pelo trânsito religioso (conversão a outras religiões). O ativismo religioso na política já não tem que ameaçar o caráter laico da esfera pública (seja no âmbito da sociedade civil ou do estado). Reivindica o reconhecimento das vozes da religião como representativas de certas identidades sociais e de práticas socialmente relevantes, ao invés de exigir que todos se ajustem a formas de crença e comportamento de alguma corrente religiosa politicamente vitoriosa.

Não se trata mais, portanto, de retornar a uma concepção “integral” da relação entre religião e política. Admitir a distinção entre as duas não significa aceitar sua incomunicabilidade, sua radical separação. Mais ainda, num mundo de intrincadas e mutantes relações entre crenças, valores, interesses e práticas de inúmeros grupos, as fronteiras que separam religião e política tornam-se incertas, provisórias, sujeitas a constante contestação ou negociação. A questão não é nem mesmo qual a política dos evangélicos. É antes a de continuamente redefinir o que está em questão que mereça ser levado ao debate público, confrontado a outras visões e interesses, e com quem tal questão será discutida e negociada. O estado não é mais o único lugar onde isso se dá. Nem os políticos são mais as únicas pessoas encarregadas desses assuntos.

Joanildo Burity

Joanildo Burity

Joanildo Burity é doutor em Ciência Política pela University of Essex, Inglaterra, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e professor colaborador dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política da UFPE. É membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Joanildo Burity