Os ganhos da Copa

20 de maio de 2014
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Não há dúvida de que o povo brasileiro já está no lucro com essa Copa. Talvez, contudo, não seja por conta do que alguns estão pensando nem o que a propaganda do governo quer nos convencer.

1. Ao servir de motivo para a mobilização popular nas ruas no ano passado, a Copa ajudou o povo brasileiro a se lembrar de artigo central da Constituição Federal: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes…”. As autoridades públicas perderam o sono. Lembro-me de o senador Pedro Simon dizer para mim, em Brasília: “Nunca vi o Congresso Nacional trabalhar tanto”.

2. Descobrimos que sem “Pressão Fifa” não há “Padrão Fifa”. Se o Blatter e o Valcke não tivessem saído do pé dos nossos governantes, não tenha dúvida, tudo seria muito pior.

3. Vimos que faz parte da cultura política nacional não cumprir o que promete, gastar mais do que o anunciado, permitir superfaturamento em obras públicas, improvisar e não respeitar cronograma. Veja o ministro dos Esportes dizendo que as obras estavam atrasadas porque, no Brasil, as coisas funcionam tal como ocorre num casamento: não há em nosso país um só no qual a noiva não chegue atrasada, mas o casamento sempre acontece. Imaginemos a GE, IBM, Apple, Samsung, Nestlé etc. sendo geridas dessa maneira.

4. Gastar fortuna em grandes eventos sem consultar o povo pode gerar revolta na população. Que lição!

5. Quem não gosta de política é governado por quem gosta. Todos esses gastos aconteceram porque deixamos. Soube de um holandês, que disse a seguinte coisa para um taxista amigo meu: “Na Holanda, não deixaríamos eles botarem o terceiro tijolo no estádio de futebol”.

Se compreendermos essas lições, a Copa não terá sido um desperdício completo para o povo brasileiro. Quanto ao mais, deixe torcer quem quer torcer, trate com hospitalidade o turista estrangeiro e… permita protestar com liberdade quem acha que o gasto de dinheiro público na Copa merece o repúdio da “torcida brasileira”, nas ruas.

Aliás, seria ótimo se os torcedores, que já compraram ingresso, encontrassem uma maneira democrática, pacífica e criativa de protestar dentro dos estádios nas horas dos jogos.

Publicado originalmente em http://palavraplena.typepad.com/accosta/2014/05/os-ganhos-da-copa.html

Antonio Carlos Costa

Antonio Carlos Costa

Pastor da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca e presidente da ONG Rio de Paz. Possui mestrado em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, no Instituto Presbiteriano Mackenzie e é doutorando pela Faculté Libre de Théologie Réformée, França.

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