Os portões de nossa teologia não abrirão. Só nos resta pular os muros

1 de fevereiro de 2015
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“Com o tempo, porém, percebi que justamente o recolhimento, o cultivo e os exercícios da alma eram o que me isolava, o que me fazia tão desagradável e esquisito aos demais e incapaz de compreendê-los verdadeiramente”.

Este é um trecho do famoso livro do alemão Hermann Hesse, O Jogo das contas de vidro. Aqui, seu personagem principal, José Servo, cansa de sua vida monacal em Castália, uma comunidade de intelectuais que passam a vida discutindo, pensando e jogando o principal jogo do lugar, cujo nome é o mesmo do livro. Cansado das divagações e da vida introspectiva falando entre pares, Servo resolve conhecer o “mundo real”. E inicia uma nova saga.

Não pensei em trecho melhor, ao refletir sobre Igreja e Teologia no Brasil e na América Latina. É evidente que não digo isso como fruto de pesquisa, viagens pelo continente ou a partir de entrevistas em diversos países. Faço tal observação não a partir do que é dito ou feito. Faço a partir do silêncio e do distanciamento da Igreja e da Teologia do cotidiano da vida das pessoas, da ausência de sua reflexão, dialogando com outros saberes sobre a violência, o racismo, a sexualidade, o feminismo, o estado de exceção, a repressão, o terrorismo, as drogas, o controle biopolítico dos corpos.

Enclausurados, muitos na Igreja e entre os seus teólogos atuais, seguem a vida entre eles, discutindo entre eles, jogando o jogo das contas de vidro. No entanto o mundo segue a realidade de uma modernidade avançada, cheia de desafios e cada vez mais intimidadora e ameaçadora das vidas vulneráveis. Nos tempos do Antigo Testamento eram órfãos e viúvas, pobres e estrangeiros. Hoje é uma massa imensurável de vidas expostas a riscos ao longo do continente, expostas à força excludente das cidades-mercado, às realidades que matam as utopias. Já dizia sabiamente Franz Hinkelammert que “toda vez que a modernidade se encontra em perigo, que é desafiada, ela se torna antiutópica”. A utopia, o sonho, a esperança movida pela fé e a perseverança na mudança são ameaçadoras para as estruturas que oprimem. O poder segue busca castrar a utopia, para torná-la estéril. A isso contribui a Igreja e a Teologia quando o mundo ao seu redor treme e elas permanecem inabaláveis, limitando-se a discutir Deus em separado do abalo sísmico da realidade social, em que o governo e o governamento atravessarão de cima pra baixo.

O que nossa vivência busca é evitar os riscos. Mas eis que o mundo é recheado de riscos e desafios. Em meio aos seus riscos e desafios, nosso mundo vai arrastando junto de si a precarização da vida cotidiana. Um mundo sem segurança e cheio de incertezas que torna a vida também cada vez mais frágil e amedrontada. É o mundo real. Este mundo não nos surpreenderia, não deveria ser evitado, maquiado ou invisibilizado pela igreja, muito menos pela Teologia. Se afetada fosse pela desconstrução que varreu a imponência e as convicções do mundo particular de outras ciências, a Teologia veria que este mundo deveria ser cada vez mais iluminado, denunciado, destacado, pensado, refletido.

O medo e o estigma são os agentes legitimadores do isolamento e da construção do “mundo à parte”, monacal, algo como a Castália de Hesse, imaginário como a Macondo de García Márquez. São, sobretudo, os agentes legitimadores dos métodos de anulação do que causa o medo e do que está montado no estigma. Entra em cena a violência, instrumento que é utilizado pelo estado para garantir, por ironia, a segurança e a liberdade. Já dizia o sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre a necessidade de os tempos atuais não nos permitirem escolher as duas opções simultaneamente. Quanto mais liberdade, menos segurança você terá, inclusive do estado. Quanto mais segurança, menos liberdade terá. Pois para garantir tanto a segurança, quanto a liberdade, o estado só o faz debaixo da intimidação pela violência. E essa violência não atinge a todos, evidentemente.

Emblemático o Deus que se encarna como um sujeito de vida precária, vulnerável, inseguro, tolhido de liberdade, já em contexto de perseguição. O Cristo se assume em um mundo desigual e sem qualquer segurança para sua condição. Sem essa encarnação neste exato contexto, teríamos a legitimação e a justificativa para o extravio do mundo ameaçador. Mas o mundo real está lá fora. Ele continua girando, com as pessoas vivendo sua intensidade, enfrentando seus riscos, sob a governamentalidade (governa-mentalidades).

Se diante deste mundo real, nos parecem que os portões da Igreja e da Teologia se encontram fechados, faz-se necessário pularmos o muro, injetarmos um pouco de subversão. Mas a subversão não é a rebeldia intolerante, a hostilidade. A subversão é a capacidade de construir pontes que ultrapassem os muros e permita novas formas de mobilidade dentro do mundo fechado em si mesmo. Pular os muros torna-se aqui a metáfora para “tensionamento” necessário para deslocar nossa comodidade, o prazer pela reflexão circular de nossas hermenêuticas, dogmas e interpretações. Este círculo descritivo da espiritualidade, da religião, de Deus e da moralidade que nos segue. “Pular os muros” pode ter o efeito do desencaixe proposto por Anthony Giddens. Mas provavelmente tem mesmo é o desconforto da Teologia Indecente da Marcella Althus-Reid.

Sem este desconforto, Igreja e Teologia seguem satisfeitas com seu mundo em que militam e falam em defesa de si mesma, e quando se abrem, arrogam para si uma ação inclusiva, mas já não se trata de serem inclusivas, se trata de construir novas configurações também a partir do (daquilo e daquele) que foi excluído. As igrejas matarão uma geração de teólogos, pelo fato de tornarem sua existência útil apenas para elas e seu universo. Temerão o mundo real, se intimidarão com a complexidade da vida social, da esfera pública, se perderão procurando o sitz in leben onde só haverá a dura nudez do lebenswelt. Pular os muros salvará a Teologia da irrelevância e as igrejas da pequenez do seu mundo.

Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco

Ronilso é de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Estuda Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio. É membro do Coletivo Nuvem Negra e congrega na Comunidade S8 Rio. Interlocutor social na ONG Viva Rio.
Ronilso Pacheco