Para que serve a Bíblia?

26 de maio de 2016
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Tenha calma! Se você se dispuser a seguir o longo argumento que proponho, você vai constatar que a pergunta que lhe dá título é feita com seriedade, e com vontade sincera de discernimento. No mais, isso aqui é só um argumento mesmo, e nada mais. Eu sou teólogo por formação, e não consigo não meter o bedelho nessas coisas, especialmente nesses dias de “muita fé”, em que a Bíblia tem tido milhares de utilizações diferentes. A maioria desastrosa.

Na verdade, eu estou entre aquelas pessoas que pensam que a sociedade inteira deveria levar a Teologia muito a sério. Por quais razões? Porque diferentemente da Modernidade, que confinou a influência da Religião à dimensão privada da vida das pessoas, atualmente assistimos à reocupação do espaço público-político por representantes de instituições religiosas, que a partir de suas tradições de fé tentam pautar certas políticas públicas. O caráter laico dos Estados atuais nunca esteve tão relativizado quanto agora. E eu vejo nisso um risco à Democracia.

A Bíblia é o documento central para uma grande parte dos cristãos no mundo todo. Os protestantes, por exemplo, dizem não reconhecer outra autoridade normativa para a sua fé e prática além da Bíblia (na prática não é bem assim, mas abafemos esse caso…). Para os católicos, a Bíblia tem o mesmo peso normativo que a Tradição Eclesial e o Magistério Hierárquico. Assim, a autoridade de fé e prática dos católicos está assentada num tripé. Os protestantes nunca aceitaram isso (ou nunca entenderam!). Enfim…

Mas a Bíblia mesma, o que é?

Os cristãos mais fervorosos dirão: “É a Palavra de Deus” – inerrante, infalível, atemporal e deve ser o mapa a nortear a existência humana. Outros ponderarão e dirão: “Ela contém a Palavra de Deus”. O verbo “conter” ajudaria a contemporizar essa noção, situando a Palavra de Deus em porções muito especiais da Bíblia, o que, obviamente, exclui muita coisa ali presente. Ela conteria a Palavra de Deus, mas conteria também muita palavra humana, falível, errante e cultural.

De fato, a Bíblia é uma coletânea de tradições religiosas muito antigas e muito diferentes, que por meio de longos processos históricos e acirradas disputas de poder, foram reunidas na forma de um “cânon”. Isso vale para o Antigo Testamento e para o Novo também. Esse longo processo histórico e essas acirradas disputas de poder deixaram de fora conteúdos tais que, se reunidos, produziriam outras três ou quatro Bíblias. Deus mesmo, segundo penso, esteve ausente o tempo todo dessas disputas de poder. A seleção, portanto, foi um processo bem profano.

O produto final – essas Bíblias que carregamos hoje em dia – reúne narrativas religiosas que vão desde a sacralização da guerra (culto ao Deus da morte) até a proposta de universalização do amor e da misericórdia (culto ao Deus da vida). Ela reúne tradições que vão desde a meditação sapiencial para qualificar a vida, até a religião dos profetas, que era marcada pela denúncia dos diversos tipos de opressão. Há muitas imagens de Deus ali presentes, muitas delas bastante contraditórias, e por que não, excludentes. Jack Miles dizia que se os ministros religiosos dissessem publicamente tudo o que se atribui a Deus na Bíblia, eles seriam imediatamente demitidos de seus cargos. Eu concordo!

É por isso que nós precisamos de Teologia e de Hermenêutica. Porque ler a Bíblia não é simples. O fundamentalismo religioso e seu irmão siamês, o literalismo bíblico, só se sustentam à base de muita desonestidade intelectual. O fundamentalismo afirma que Deus inspirou cada letra do texto bíblico, e, portanto, o mesmo tem validade integral e atemporal. Onde está a desonestidade intelectual aí? Está no fato de que, na prática, o que o fundamentalista faz é selecionar passagens bíblicas que sirvam de pretexto para condenar os outros, enquanto faz vistas grossas a tantas outras passagens nas quais ele mesmo estaria implicado. Ele literaliza para os outros, e relativiza para si. Por exemplo, ele condena o homossexual ao inferno com base na interpretação literal de um texto bíblico, e faz vistas grossas para dez outros textos que condenam o julgamento precipitado, o acúmulo de riquezas, a omissão perante a miséria alheia, a prepotência, e por aí vai.

As pessoas de mentalidade mais secular, que por alguma razão se distanciaram da Religião, e hoje são marcadas por uma suposta cultura ilustrada, tendem a considerar a Bíblia um livro anacrônico e imprestável. Para algumas dessas pessoas, a Bíblia se reduz à narrativa religiosa que se tornou hegemônica na cultura Ocidental (porque sempre instrumentalizada pelo Poder). Esse modo de ver, no meu entendimento, está parcialmente correto. Mas a Bíblia pode ser mais que isso!

Há hermenêuticas subversivas. Há maneiras alternativas de ler o mesmo texto. A Bíblia é polifônica, como qualquer outra narrativa textual. Tudo depende do coração de quem a lê. Eu tenho a impressão de que o fundamentalismo bíblico consiste no seguinte: uma forma usada por uma pessoa que quer justificar seus preconceitos com o texto da Bíblia na mão. O sujeito já é homofóbico, classista, racista, misógino, angustiado, neurótico, antissocial, e outras coisas. Na Bíblia ele encontra uma forma de dar legitimidade a tudo isso. E nada mais eficaz para legitimar um comportamento que fundamentá-lo a partir da ideia do “sagrado”.

Mas como eu ia dizendo, há maneiras alternativas que buscam dar outra utilidade à Bíblia. Há leituras que partem do pressuposto de que o amor é a grande vocação a que todos os seres humanos foram chamados por Deus. Assim, o amor passa a ser um tipo de “óculos” ou de “filtro” a partir do qual lemos a Bíblia. Em Teologia chamaríamos a isso de “princípio hermenêutico”. O amor, portanto, seria o princípio hermenêutico pelo qual a Bíblia deveria ser lida e interpretada.

Nessa perspectiva a Bíblia não seria nem anacrônica nem imprestável. Pelo contrário, ela teria muita coisa a dizer à cultura contemporânea. Ainda que ela não servisse para explicar todos os aspectos e pormenores da vida (esse nunca foi mesmo o seu propósito!), ela serviria para criar relações humanas muito melhores e muito mais qualificadas que essas que temos. Para mim, a Bíblia não tem muita serventia se não for para isso: humanizar as relações entre as pessoas. E isso, penso eu, todos os Cristianismos devem ao mundo até agora.

Paulo Nascimento

Paulo Nascimento

Baiano de Muritiba, terra de Castro Alves, é bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Nordeste (Feira de Santana-BA) e mestrando em Psicologia Social pela Universidade Federal de Alagoas. Além disso, é professor substituto no curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas.
Paulo Nascimento