Pela assepsia da cruz e do crucificado

10 de julho de 2015

“Desde então, Jesus começou a mostrar a seus discípulos que era necessário ele ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e ao terceiro dia ressuscitar. Pedro levou-o para um lado e se pôs a repreendê-lo: “Deus não permita, Senhor, que isso aconteça.”

Esse texto do evangelho de Mateus mostra um dos primeiros escândalos que a cruz produziu e, depois desse vieram muitos outros. O que poderia ser comum entre tais escândalos provocados pela cruz e pelo crucificado? Os escandalizados são sempre os crentes. Foi Pedro no passado, são tantos outros no presente e, pelo jeito, ainda muitos virão no futuro.

Há uma mania de pureza nos crentes. Há um zelo asséptico que ronda os defensores de Mestre (na verdade menos do Mestre e mais de suas palavras cristalizadas em doutrina). Ele não pode ir para a cruz, lá não é lugar de gente direita; Ele não pode se assentar com tais homens, eles vão macular sua santidade; Ele não deve ficar na companhia dessa ou daquela mulher, elas vão corrompê-lo. Salvemos o Mestre de sua falta de bom senso, isso acabará levando-o ao descrédito.

A santidade asséptica – ou moral de gueto – continua nos dias atuais. Olha a cruz sendo vilipendiada pelo desfile de carnaval, vamos cobrir o Cristo exposto em festa tão carnal; uma transexual na cruz, que desrespeito a pureza e a memória casta do Mestre; e agora o último absurdo: colocaram o Mestre sobre o ícone da ideologia comunista sugerindo maculando-o com tão grande impureza ideológica. Salvemos a memória Mestre da impureza desses ímpios, isso acabará levando-nos ao descrédito.

Quanta assepsia. Quanta pureza. A cruz e o crucificado são de tal maneira preservados de toda a mácula que corremos o risco de nos esquecer do significado desse que é o símbolo central da fé cristã. A cruz (e o crucificado à medida que a assume) é um escândalo. Na cruz de Cristo estão contemplados todos os crucificados da terra: homens e mulheres, sistemas, ideologias, todos cabem na cruz, a cruz cabe em todos.

Entre os muitos textos que li sobre o escândalo da cruz, uma defensora da pureza do Cristo e de seu evangelho dizia da necessidade de despir a teologia de toda a ideologia, ela falava da necessidade de recuperar a pureza da cruz e de sua mensagem que encaminha as pessoas para o céu. Concordo, somente num céu asséptico cabe uma cruz onde os crucificados da terra não cabem. Será mesmo que a cruz e o crucificado precisam de tanta assepsia? Será que de fato a mensagem daquele que se fez mundo necessita de tamanha proteção que o coloca num gueto?

Após esterilizada e tornada pura de todas as máculas do mundo a cruz ainda teria sentido à luz do crucificado?

Alessandro Rodrigues Rocha

Alessandro Rodrigues Rocha

Alessandro Rodrigues Rocha é pastor batista, doutor em teologia sistemática pela PUC-Rio e escritor nas áreas de teologia e espiritualidade. É casado com Adriana e pai de Maria Eduarda.

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