Política: por onde andam nossas idéias?

27 de dezembro de 2009
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Há afirmações que se tornaram lugar comum e, assim, perderam sua capacidade de comunicar algo mais profundo. Uma delas é a de que “o homem é um ser/animal político”. Sem falar na já questionável marca sexista da afirmação – o que fazia sentido nos tempos em que somente homens eram considerados cidadãos (ou seja, pessoas com direito a participar das decisões públicas da comunidade), a afirmação poderia ser falsificada de muitas maneiras. Por exemplo, pela observação de que a grande maioria das pessoas não se interessa por assuntos políticos a não ser em momentos ritualizados como as eleições – e nem isso, onde estas não são obrigatórias.

Ou pela observação de que muita gente passa a maior parte de sua vida preocupada com assuntos aparentemente não políticos, como a luta pela sobrevivência, ou a busca da felicidade pessoal no amor, no trabalho, no cuidado de outros. Ou ainda pelas muitas expressões de manipulação, violência, busca do interesse próprio em detrimento do interesse coletivo, apropriação privada de recursos e oportunidades que deveriam estar ao dispor de todas as pessoas numa dada formação social, que alimentam o imaginário popular sobre a política como lugar de sujeira, indignidade e corrupção. Tudo isso junto parece sugerir uma de duas coisas, pelo menos: a) que a afirmação é falsa, pois nem todos os humanos são políticos; b) que a afirmação é falsa, pois a política na verdade tende a nos desviar do caminho da ética e do compromisso com o bem-estar do outro.

À vista dessas situações tão corriqueiras, que fazem os ativistas e militantes angustiarem-se, desesperarem-se ou, eventualmente, assumirem uma postura “vicária” em relação aos “despolitizados” (de substituí-los sem ouvi-los, ou de tratá-los com cinismo e menosprezo), é preciso mais do que declarações generalizantes sobre o ser humano e a política para nos ajudar a compreender o lugar desta última na produção e transformação da sociedade. É preciso atualizar nosso pensamento sobre a política e isto tem direta relação com duas outras coisas: a experiência histórica acumulada e objeto de persistente e meticuloso estudo desde pelo menos os tempos de Maquiavel, na Itália renascentista; e as mudanças introduzidas pela prática de movimentos sociais e políticos, especialmente desde fins dos anos de 1960. Esses dois parâmetros nos permitem lançar um conjunto de interrogações sobre o sentido e o lugar da política em nosso tempo e balizar nossa reflexão ética e teológica sobre nosso papel enquanto cristãos e cristãs.

Se tomarmos como ponto de referência o último século, a experiência histórica e as transformações da prática permitiram uma multiplicação de perspectivas sobre a política que acenam para todos os lados: desde as formulações mais preocupadas em mudar às mais preocupadas em manter o estado de coisas vigente. Três coisas, para início de conversa, vieram à tona com muita força, porém: a) “enxergamos” a política em muito mais lugares, linguagens e formas de ação do que antes; b) admitimos – ou nos resignamos – ao caráter conflitivo dos assuntos políticos; c) assistimos a uma pluralização tanto dos atores políticos legítimos quanto das formas de avaliar e agir politicamente.

Combinadas, essas três circunstâncias alteram profundamente o que entendemos por política, por quem a faz ou pode fazer e pelo que se pode alcançar por meio dela. Mais, testemunham da “invasão” da política (assim vista) em muitas esferas aparentemente refratárias à mesma – o que inclui a fé cristã e suas manifestações institucionalizadas ou individualizadas (em outras palavras, tanto as igrejas e organizações cristãs quanto as diversas formas de espiritualidade pessoal).

O que o leitor e a leitora encontrarão nas minhas reflexões aqui na Novos Diálogos será uma insistente busca de encontrar novas formas de articular cristianismo e política. Para tanto, estaremos revisitando alguns temas conhecidos, avaliando situações concretas e projetando mudanças ainda em curso ou apenas indicativas. Nossa preocupação será formativa, mais do que informativa – se é que tal distinção merece ser mantida –, o que quer dizer que não se tratará de “análise de conjuntura”, de “fofoca política”. Por isso, nossa linguagem procurará ser de fácil compreensão, embora nem sempre isso vá significar textos de imediata apreensão.

Há assuntos que são reconhecidamente complexos ou referentes a situações que ainda estão em processo e, portanto, não permitem apreciações diretas e livres de ambiguidades e incertezas. Ao leitor e à leitora ávidos por tomar posição rapidamente, por decidir entre opções claras e nítidas, por formar juízos definitivos sobre questões sociais e políticas, por derivar pautas de ação imperativas a partir de avaliações apressadas, uma advertência: não estaremos em sua companhia. Talvez frustrem-se ou insurjam-se contra a forma de raciocinar que estaremos utilizando aqui. Ficam advertidos(as).

Por fim, esta não será uma coluna neutra. Refletirá junto com e sobre posições que grosso modo poderíamos chamar de “radicais” (já que o termo “esquerda” parece criar mais problemas do que resolver, hoje em dia) no movimento cristão de nosso tempo. Será suprapartidária e ecumênica, desde uma dupla circunstância: a do evangelicalismo (radical) e a do campo historicamente marcado pelos adjetivos “liberal” e “socialista” no jargão político. Sobre tudo isso, falaremos no devido tempo. Mas insistimos em que a abertura que precisamos mostrar em nossas reflexões não pode abrir mão de tomar posição. E ao tomarmos posição, sempre o fazemos a partir de um determinado lugar (ou da conjunção de vários). Ficam indicados alguns de onde parto. Algum(a) companheiro(a) de viagem?

Joanildo Burity

Joanildo Burity

Joanildo Burity é doutor em Ciência Política pela University of Essex, Inglaterra, pesquisador titular da Fundação Joaquim Nabuco e professor colaborador dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política da UFPE. É membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
Joanildo Burity