Por um “devir minoritário” no “devir evangélico” do Brasil

29 de março de 2013
Rafael Braga_Hb 13

Muito tem se falado sobre os evangélicos no Brasil, sobre seu crescimento: em números por todo o território nacional, em presença nos espaços midiáticos e na política representativa. Em diferentes discursos sobre esse segmento da população brasileira, é frequente a vinculação entre o perfil do evangélico ao de uma pessoa reacionária, conservadora, preconceituosa, alienada, e portanto, racista, sexista e homofóbica.

Embora tal perfil exista (e isso não se pode negar), associar, de forma insistente, um ao outro soa como injusta redução, visto que a presença evangélica no Brasil, suas transformações, seu devir enfim, apontam para algo muito mais plural e diverso do que aquilo que se tenta delinear em pretensiosas formulações. Os próprios evangélicos, quando olham para si próprios, tem, pelo menos, duas opções: ou reforçam a fragmentação do mundo evangélico, lançando olhares desconfiados sobre seus pares; ou aproveitam a pluralidade dos grupos para experimentar, nos diferentes espaços que encontram, outras formas de relacionar-se consigo mesmos e com os outros. Neste segundo caso, eles mesmos reconhecem-se como parte de um grupo plural e diverso, impossível de ser representado univocamente. Não há, portanto, motivo para ignorar a heterogeneidade dos evangélicos, uma vez que eles mesmos afirmam diariamente esta impossibilidade de homogeneização.

Eu mesmo, como evangélico “por opção”, falo a partir desses diferentes atravessamentos vividos no âmbito do movimento evangélico. Estou longe de ver o fenômeno “evangélicos no Brasil” como algo fechado e amarrado. Prefiro pensar num “devir evangélico” do Brasil e naquilo que pode se constituir como um devir minoritário neste devir evangélico.

Não falo apenas de, mas por um devir minoritário no devir evangélico do Brasil. Este acontecimento bastante marginal, mas não sem importância, no “interior” do campo evangélico brasileiro, não está apenas diante de meus olhos, mas nele tomo parte cotidianamente. Falo em defesa de um devir minoritário no devir evangélico sem a pretensão de dizer que se trata de um devir minoritário dos evangélicos brasileiros em geral. Embora também não se possa negar que o devir minoritário esteja no próprio gérmen desse devir evangélico, sobretudo pela relação entre as “identidades” evangélico e pobre na história recente do país, seria muita pretensão dizer que haja de fato um movimento de grande alcance que tomaria de assalto todo o meio evangélico brasileiro. Há uma potência no movimento evangélico e nas formas de vida por ele, especificamente, mobilizadas, mas a direção dessa força não está dada. Portanto, cabe dizer que o devir minoritário e o devir evangélico são dois processos que se atravessam ou que podem se atravessar.

Para tornar mais nítido o que entendo por “devir minoritário”, a intervenção de Gilles Deleuze é bastante oportuna. Deleuze traça uma interessante distinção entre maiorias e minorias. Estas não diferem entre si pelo número, não se trata de uma questão quantitativa, isto é, uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. Enquanto a maioria se define por um modelo ao qual seria preciso estar conforme — e o exemplo dado por Deleuze é o do “europeu médio adulto macho habitante das cidades” —, a minoria configurar-se-ia como devir, como processo, não se referindo a modelo algum.

É neste sentido que Deleuze defende a ideia de um “devir minoritário”, que arrastaria por caminhos desconhecidos a todos aqueles que consentissem em segui-lo. Ele aponta que quando a minoria cria modelos é porque quer tornar-se majoritária, não sendo isto propriamente um problema, pois justamente do Estado, do ser reconhecido, do impor seus direitos dependem a sobrevivência e a salvação da minoria. No entanto, a potência da minoria está naquilo que ela cria e esta criação, mesmo passando para um modelo, permanece independente. “O povo é sempre uma minoria criadora, e que permanece tal, mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não são vividas no mesmo plano”, declara Deleuze.

“Evangélicos e católicos somos maioria absoluta no país. [Em] nenhum Estado democrático de direito, minoria vai cercear maioria”, declarava um influente e midiático líder evangélico em ato contra a PLC 122 (que criminaliza a homofobia) em junho de 2011. Este discurso inflamado de ódio e paixão é parte do avesso do que tratamos aqui, é parte de um devir majoritário, que, também não se pode negar, atravessa muitas mentes e corações evangélicas e não evangélicas no Brasil de hoje e de antigamente. Bastante conhecido de todos, é em geral sobre esse devir majoritário, sobre esse conservadorismo, que se insiste em falar. O discurso majoritário lança mão de um ecumenismo oportunista que une setores evangélicos e católicos para pautar os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres — especialmente no que diz respeito ao aborto —, e os direitos ligados à cidadania LGBT — sobretudo no que diz respeito à homofobia e ao casamento civil igualitário. Digo ecumenismo oportunista justamente porque os movimentos evangélico, ecumênico e de diálogo inter-religioso são, ao contrário, movimentos historicamente marcados por uma dimensão muito mais libertadora e emancipadora no que se refere à conquista de direitos e lutas sociais e políticas daqueles que são perseguidos por sistemas de poder hegemônicos. É no “lastro histórico” desses movimentos que se pode encontrar um devir minoritário no devir evangélico do Brasil. É sobre esse devir minoritário que se deveria falar quando se fala dos movimentos evangélicos no Brasil de hoje. Como criar algo novo e “lutar por uma justiça” para além da (e até mesmo contrária à) Justiça instituída, se só tratamos do oportunismo dos outros?

Há hoje diferentes movimentos dentro das próprias igrejas ou a elas atrelados que não somente reconhecem aquilo que já não se pode negar — a existência de discriminações insistentemente dirigidas a mulheres, pobres, negros e gays “dentro” e “fora” da vida da fé —, mas que também se empenham em enfrentar toda forma de dominação na sociedade e no interior da própria vida comunitária das igrejas. Não podemos mais negar a capacidade da religião, e aqui especialmente dos evangélicos, como força política criadora de outros modos de vida, de outras formas de subjetivação, que não se sujeitam e não aceitam tacitamente o poder das velhas práticas instituídas concernentes a todos os problemas da vida contemporânea (cultura, sexualidade, raça, gênero, drogas, classe, políticas etc.).

Basta circular um pouco pela região metropolitana do Rio de Janeiro para encontrar pessoas — de diferentes gerações, mas com número expressivo de jovens — e grupos no meio evangélico que questiona o racismo, o classismo, o machismo e a homofobia presentes não apenas nas igrejas, mas nas escolas, nas ruas da cidade, no campo, nas universidades, nos ambientes familiares e no trabalho. De forma organizada em movimentos ou em redes sem ponto central, é cada vez mais frequente encontrarmos isso que chamo de uma “nova subjetivação evangélica”. Essa nova subjetivação aponta para algo que ainda não sabemos bem o que é, mas que passa por um resgate histórico das próprias contribuições das lutas dos evangélicos por justiça, no sentido de quebrar com os sistemas de inclusão/exclusão que hoje se apresentam ainda como inescapáveis evidências.

Essa nova subjetivação evangélica é atravessada por um devir minoritário. Ela está, assim, em cada ação afirmativa local e global: quando o crente comum expressa sua identidade estratégica dentro de uma série de disputas e reivindicações que atravessam hoje a sociedade. Essa identidade estratégica não faz apenas menção ao ser cristão e ao ser bíblico como essência, mas insere essa dimensão de pertencimento numa agenda propositiva que se entrecruza com outras identificações: mulher, trabalhadora, estudante e negra, por exemplo. Não se trata de demarcar e fixar a própria identidade, mas perceber o quanto ela mesma é processo (não apenas individual) de subjetivação, processo de ir em direção ao outro, ao outro que há nos outros e ao outro que constitui a nós mesmos.

Esse devir minoritário no devir evangélico do Brasil, sendo um movimento essencialmente dos leigos e não dos pastores (mas sem excluí-los), não passa necessariamente por uma revisão da elaboração teológica ou da fé devocional de cada um. Trata-se antes de um movimento que começa por um questionamento cada vez mais abrangente das velhas práticas de demonizar o outro, e que aponta para novas formas de afirmar o direito que o outro tem de ser outro, e subsequentemente, o direito que nós temos de sermos outros. Esse devir minoritário, essa nova subjetivação evangélica não significa, necessariamente, a abertura de novas igrejas, com novas roupagens ou nova moral.

O que temos diante de nós é antes um movimento marginal, sutil e radical que atravessa as pessoas e instituições. É neste espaço do novo que a fé, a espiritualidade e também a religião têm chance de dizer não ao devir majoritário, que por detrás do discurso da família e dos bons costumes esconde, dentre outras coisas, a morte e o encarceramento de milhares de jovens pretos e pobres, filhos de um projeto religioso e social fundamentalmente excludente. Além do dizer não, tem-se a chance de construir outros modos de vida, que sejam radicalmente afirmativos das vidas e vozes que têm sido abafadas, dentro e fora do meio evangélico.

Pedro Grabois

Pedro Grabois

Tem mestrado e graduação em Filosofia pela UERJ. Atualmente, no doutorado, desenvolve tese sobre racismo e sociedades de segurança. Foi articulador da Rede Fale e Conselheiro Nacional de Juventude (CONJUVE), representando a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB). É professor de Filosofia do IFRJ, em Paracambi, e frequenta a Igreja Batista do Caminho.

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