Que Ele nasça em nós

4 de dezembro de 2015
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Estamos bem próximo do Natal. Época que me traz sentimentos diversos. Ora festejo, ao ver meus filhos e parte da família regozijando com a esperança de tempos melhores, e a adoração ao menino que nasceu para transformar o mundo. Ora entristeço, por lembrar de algumas situações experimentadas na vida e por saber que muitos não conseguem transcender suas realidades por viverem lutas e dores sem limites no momento. Uns sofrem as dores da pobreza, da escassez, da falta. Outros estão vivenciando a dor da saudade por perderem seus entes queridos.

Ao pensar no Natal, não consigo celebrar sem olhar além de mim. Mesmo que comigo nem sempre esteja tudo tão bem. Mas passo a ter um olhar distante de mim que me faz próximo. Penso na dor das famílias de pessoas negras que tiveram seus filhos roubados pela violência nas grandes cidades do Brasil.

Como pensar no Natal sem lembrar que o Amarildo ainda não foi encontrado? Como festejar o nascimento do menino Jesus sem relembrar do menino Eduardo, dos garotos da Chatuba? Como me alegrar com o Natal ao relembrar da Cláudia? Como fazer do Natal somente festa depois de saber que 111 tiros foram dados no carro que estavam os cinco jovens de Costa Barros?

Estamos no tempo do Advento. O menino Deus sendo anunciado. A estrela está sendo seguida por pastores. Os magos trazem presentes. Tudo é festa e alegria! Não há como deixar de sentir a mudança no ambiente. Mesmo que haja consumismo desenfreado, mesmo que haja manipulações comerciais, mesmo que sintamos certa angústia por perceber os ricos evidenciando as suas fraudulentas riquezas, mesmo que percebamos os pobres se endividando por desejarem riquezas ou a sensação dela, ainda assim, o clima está mudando. Podemos sentir que já existe uma expectativa.

O clima não nos deixa cego. Vivemos um período de crise. Crise? Talvez a maior seja a política. Vivemos também um tempo de insensibilidade. Nas redes sociais tem ódio para todos os lados e gostos. Há manifestações estranhas sendo ventiladas. Até contra leis de direitos adquiridos pelas minorias como aqueles que têm algum tipo de habilidades especiais devido a falta de mobilidade em alguma parte do corpo. Vemos o racismo das pessoas pontuando suas falas e escritos. Notamos um certo retrocesso na maneira de pensar de muita gente. Mas o anúncio do nascimento do menino se faz presente. Alguns, ou muitos, se esquecem disso e vivem como se nada mais importasse. Não importa. O menino foi anunciado e vai nascer. Não como nasceu a anos atrás, numa manjedoura, numa espécie de caverna, num andar de baixo de uma hospedaria. Mas vai nascer novamente em cada um com a esperança de dias melhores e de que cada um se torne melhor.

Quem sabe assim vamos festejar o Natal olhando para o outro. Quem sabe assim vamos celebrar o Natal incomodados com a dor do outro. Talvez até nos incomodemos de fato com a dor daqueles pais que perderam seus filhos brutalmente assassinados por policiais só porque eram pretos. Mesmo que talvez alguns deles nem se vissem pretos. Quem sabe vamos nos incomodar com as Cláudias arrastadas nas ruas diariamente, com os Eduardos, com os Amarildos que são esquecidos pela sociedade porque não são pessoas ricas que fazem parte de grupos selecionados!

Que ele nasça de novo em nós e nos faça mais gente.

Marco Davi de Oliveira

Marco Davi de Oliveira

Marco Davi de Oliveira é membro da ANNEB – Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, escritor, articulista e pastor batista. Publicou A Religião Mais Negra do Brasil (Editora Mundo Cristão) e foi co-autor dos livros O Melhor da Espiritualidade Brasileira (Editora Mundo Cristão) e Missão Integral (Editora Ultimato, no prelo).

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