Raízes inquisitoriais do pensamento calviniano-evangélico brasileiro

27 de fevereiro de 2016
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se a gloria é tão importante na teologia,

é porque permite manter juntas, na maquina governamental,

trindade imanente e trindade econômica,

o ser Deus e sua pratica, o Reino e seu Governo

~ Giorgio Agamben, O Reino e a Gloria, p.76.

 

Calvino, reformador da região franco-helvética, formado em direito (logo não tão versado nos originais dos textos sagrados), construiu um governo chamado de Consistório em Genebra, proferindo acusações/sentenças ligadas ao governo do Reino (1). Vale lembrar uma delas, que se destinou ao gênio humanista Miguel Serveto, condenado por dizer a verdade (sob sua consciência) na inquisição calviniana. A acusação/sentença tem o seguinte tom:

Tu, Miguel Serveto, não te envergonhas nem horrorizas-te de te colocares contra a majestade de Deus e contra a Santa Trindade, e assim tu tens obstinadamente tentado infeccionar com o teu veneno fétido e herético… Por essas e outras razões, desejamos purificar a Igreja de Deus de tal infecção e amputar o órgão podre. Falando em nome do Pai, Filho e Espírito Santo, nós escrevemos a sentença final e te condenamos, Miguel Serveto, a seres conduzido a Champel e lá seres amarrado num poste e seres queimado até às cinzas, com teus livros (2)

Tal prática incrustou tão fortemente em (certos) setores puritanos que, por exemplo, do navio Mayflower, em 1620, desembarcaram nas colônias da Nova Inglaterra trazendo rapidamente uma inquisição às terras (3). Talvez, por isso, faz-se tênue a pretensa liberdade baforada pelos setores piedosos. Demora até o contato com o diferente, mesmo que seja, um dito cristão – ou, um nem tão cristão.

Essa ação político-religiosa higienista tem repercussões no Brasil em 1870 quando o Estado brasileiro acolhe uma sistêmica chegada de religiosos batistas, presbiterianos e metodistas (chamados “protestantes de missão”), nos quais, em seu cerne, mobiliza-se a partir do pensamento cerceador calvinista (puritanismo inglês) incrementado com altas doses do racismo típico do ambiente sulista estadunidense. Ai está a origem da matriz histórica que leva o nome de evangélica do Brasil contemporâneo (4).

Assim, para voltar ao dito de Calvino no Consistório em Genebra lembra-se o verso do rapper Criolo: “Vamos às atividades do dia. Lavar os corpos, contar os corpos” – os não-eleitos. Assim, ainda hoje a partir da prática evangélica segue-se lavando o que sobrou dos corpos, bebidas e livros nos seiscentos mediante a simplificação política da fé reformada. Afinal, como a historiografia mostra, Calvino fora um reformador administrador de uma antirreforma de feixes anti-humanos.

Notas

(1) Carter Lindberg, Reformas na Europa, São Leopoldo: Sinodal, 2001, p.231-233.
(2) João Dias de Araujo, Inquisição sem fronteiras, São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p.35.
(3) Op. cit., p.36.
(4) Fábio Py, Lauro Bretones: um protestante heterodoxo no Brasil de 1948-1956, tese de doutorado em teologia, PUC-RIO, 2016, p.62-67.

Fabio Py

Fabio Py

Fábio Py é historiador e teólogo, doutor em Teologia pela PUC-Rio e mestre em Ciências da Religião pela UMESP. Niteroiense, professor na Universidade Cândido Mendes e articulista sobre fé e política no Portal da Revista Caros Amigos. É autor de Crítica à baixa ecologia (CEBI/Fonte Editorial, 2015).
Fabio Py