Seis realidades sobre a violência contra as mulheres

5 de abril de 2015
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É preciso deixar claro que escrevo este artigo a partir do trabalho pastoral e da atuação junto às comunidades de fé evangélicas em Pernambuco e noutros estados brasileiros há aproximadamente 15 anos. Da leitura de vasto material publicado no Brasil sobre gênero, violência contra mulher, justiça social, sexualidades, entre outros temas afins; além do acesso à pesquisas e artigos que abordam a complexidade de tais temáticas, formam os alicerces das afirmações que faço a seguir. Não pretendo ser dogmático, mas elaborar considerações sobre esta desafiadora realidade em nosso país. Creio ser importante destacar que:

1. A violência contra as mulheres e suas consequências não é um assunto somente para mulheres. Ao contrário do que muitos possam imaginar e afirmar, quando abordamos esta devastadora realidade – somente no Estado de Pernambuco, a cada dois dias uma mulher é assassinada – homens e mulheres devem estar comprometidos na busca de relações que se estabeleçam pelo reconhecimento de deveres e direitos da pessoa humana, pois é comum ouvirmos que este é um assunto para mulheres e, como tal, deve ser resolvido entre elas. Vale ressaltar que os homens são os principais agressores em casos de violência contra as mulheres; e como tais assumem papel importante na compreensão, prevenção e combate nas causas e consequências que formam esta realidade. A mudança dos impressionantes números de mulheres assassinadas no Brasil – somente nas três últimas décadas, cerca de 90 mil – passa, obrigatoriamente, pela participação dos homens (Pesquisa Fundação Perseu Abramo e SESC 2010).

2. A violência contra as mulheres é uma realidade que vai muito além do ambiente particular ou familiar. A compreensão generalizada de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” deve ser superada por todos nós. As mais distintas expressões de violência contra as mulheres solicitam amplo apoio de setores sociais. A atuação em rede, desde a denúncia de tal condição por parte de amigos, parentes ou vizinhos, até a participação de profissionais de saúde, agentes policiais, religiosos, entre outros, é fundamental para prevenção ou combate à violência. Enquanto trancafiada em quatro paredes, a violência de gênero conta com um forte aliado para sua perpetuação: o silêncio.

3. A violência de gênero é um grave problema de saúde pública, direitos humanos e justiça social (Vilhena, 2011). Basta que reconheçamos os alertas emitidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre as consequências da violência contra as mulheres manifestadas em seus próprios corpos e mentes. Síndrome do pânico, insônia, ansiedade, depressão, dentre outras patologias consomem vidas e recursos imensos. Ainda se faz necessário perceber que as transformações esperadas neste cenário não surgirão de boas intenções e cordialidades de homens educados e atenciosos. Por mais que tais qualidades relacionais sejam importantes, a violência contra as mulheres só será superada quando se concretizar a compreensão de que justiça e paz se encontrarão (Salmo 85.10), como fruto do direito de ser mulher.

4. A violência contra as mulheres está presente em toda sociedade e, portanto, nas comunidades de fé. É comum encontrarmos igrejas que negam a presença de situações de violência contra as mulheres em suas realidades locais. Porém, tal realidade desconhece fonteiras econômicas, sociais e religiosas. A verdade é que mulheres evangélicas vivenciam situações intensas de violência praticadas por parceiros íntimos (Carroll, Andrade, 2010), muitos dos quais são líderes denominacionais e pastores reconhecidos nestes cenários. O primeiro passo para que possamos enfrentar tal realidade se dá quando assumimos a presença da violência entre nós. Quanto mais abordarmos este tema em nossas práticas pastorais, maior será a possibilidade de mulheres revelarem situações de opressão e medo.

5. Diante da violência de gênero, mulheres desejam mais que esperança para sobreviver. Elas anseiam por dignidade e respeito para viver. Muitas vezes, imenso é o fardo lançado sobre as mulheres em nossas igrejas. Além da violência que experimentam, são vistas ou denunciadas como culpadas pela situação e responsabilizadas para que sustentem seus realcionamentos até o fim. Tal postura pode se revelar maldosa, constrangedora e irresposável diante dos riscos de vida a que são submetidas estas mulheres e seus filhos.

6. Finalmente, devemos dizer que diante da violência de gênero, é urgente que repensemos nossas práticas pastorais, mensagens e relações comunitárias. É inaceitável que igrejas sejam legitimadoras da violência contra as mulheres ao perpetuarem em suas mensagens e práticas o patriarcalismo e o machismo. Novas leituras bíblicas, alicercadas no Evangelho da graça, da fraternidade, do respeito, do diálogo e da celebração das diferenças, que não nos fazem superiores ou inferiores enquanto seres humanos, são necessárias para que sigamos a construir o Reino de Deus entre nós. Investir na educação de nossos filhos e filhas, formar novas lideranças, pastores e pastoras comprometidas com a equidade de gênero é, certamente, um dos maiores desafios para igrejas que desejam seguir de perto a proposta de Jesus.

Referências Bibliográficas
CARROLL, A.S.; ANDRADE, S. Até quando? O cuidado pastoral em contexto de violência contra a mulher praticada por parceiro íntimo. Viçosa: Ed. Ultimato, 2010.
VILHENA, V.C. Uma igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas. São Paulo: Fonte Editorial, 2011.

Sérgio Andrade

Sérgio Andrade

Deão da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, em Recife, e membro do Conselho Diretor da ong Diaconia.

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