Sobre a nova legislação israelense

4 de maio de 2014
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Esse artigo não é sobre religião, tampouco sobre a legislação israelense; é sobre “dividir e conquistar”. Tal como o artigo aponta, há um plano para tentar dividir o povo palestino com base na religião. Os palestinos inteligentes, independentemente de sua fé, reconhecem esse plano e trabalha para manter a unidade em meio à luta contra o opressor que têm em comum.

Na segunda-feira do dia 3 de abril deste ano, o parlamento israelense (o Knesset) aprovou uma lei que reconhece as comunidades árabes cristã e muçulmana como identidades distintas, desta forma, cada um deste grupo tem agora seus representantes na Comissão de Emprego. A lei foi aprovada por 31 a 6.

A nova lei aprovada pelo Knesset, que favorece os cristãos é, no mínimo, um truque político leviano elaborado pelos membros da Aliança Eleitoral de Israel (o Likud-Beiteinu) com o objetivo de semear a divisão entre os cristãos e entre cristãos e muçulmanos.

O governo israelense não demonstrou favoritismo pela comunidade cristã nos últimos 65 anos; então, por que agora?
Durante o Nakba, o êxodo árabe-palestino de 1948, os cristãos, tal como os muçulmanos, foram desapropriados e expulsos de sua terra natal pelos sionistas. Os cristãos também não foram favorecidos durante o regime militar imposto sobre os palestinos que permaneceram dentro do Estado de Israel (1948-1966). Tanto cristãos quanto muçulmanos foram discriminados e ambos foram tratados como estrangeiros indesejados em sua própria terra.Uma documentação abundante ajuda a contar a história daquele período. A questão de Israel naquele momento não era a afiliação religiosa palestina, mas a identidade nacional palestina.

Acredito que essa nova lei reflete a falência moral do governo de Israel. De fato, o governo deve estar em apuros para se permitir descer tanto a ponto de descaradamente usar essa tática para conseguir o apoio internacional de alguns cristãos e, ao mesmo tempo, plantar dissidência entre cristãos e muçulmanos. Tal como o velho ditado, é “dividir para controlar”. Essa lei é ardilosa porque explora as delicadas tensões que existem entre as comunidades religiosas do Oriente Médio, especialmente à luz do que vem acontecendo no Egito e que acontece agora na Síria.

Estou certo de que a comunidade palestina é madura o suficiente para não cair nesta desprezível armadilha religiosa.
Há ainda outro ângulo oculto e desonesto desta lei. A tradição religiosa judaica sempre considerou a Cristandade, e não o Islã, inimigos mortais dos judeus e do Judaísmo. Isso acontece porque a fé cristã surge da mesma base que a fé judaica, a saber, as escrituras hebraicas, que é o Velho Testamento cristão. Ainda me lembro da comunidade religiosa israelense desencorajando os estudantes israelenses a visitarem as igrejas cristãs e os encorajando a visitarem as mesquitas muçulmanas. O argumento era de que havia uma grande afinidade entre o judaísmo e o islã, enquanto que o abismo que separava os judaísmo e o cristianismo era gigantesco.

O que causou essa paixão repentina pelos cristãos palestinos a ponto de gerar uma nova lei? Ou será ela apenas um grande golpe político? Que vantagens o governo israelense, de inclinação direitista, pode oferecer aos cristãos árabes-palestinos que são cidadãos israelenses? Será que as terras confiscadas serão restauradas? Serão garantidos os mesmos direitos de seus compatriotas judeus? Ou será que testemunharemos uma manobra israelense parecida com aquela que separou os drusos de sua base árabe?

É importante mencionar que há sessenta anos, o governo de Israel conseguiu que os drusos se tornassem uma entidade étnica distinta, se apartando assim de suas raízes árabes. Israel pretende fazer o mesmo com os cristãos; defini-los como uma identidade étnica distinta para separá-los de suas raízes árabe-palestinaS. Entretanto, a despeito do que Israel fez com os drusos, um número cada vez maior de jovens drusos vêm resistiNdo o serviço militar obrigatório israelense.

Israel tem sido bastante astuto em tramar maneiras tortuosas para conseguir impor sua vontade sobre os palestinos e torná-los fracos e divididos. O governo continua conspirando para limitar, e mesmo negar, seu direito à terra de maneira que eles desistam e deixem o país.

Estou certo de que a comunidade cristã em Israel verá para além desta nova legislação israelense, exporá sua natureza sinistra e a rejeitará. Também é minha esperança de que a resiliência e maturidade de nosso povo frustre os objetivos traiçoeiros do governo israelense. Podemos conseguir isso através da unidade e da solidariedade, e também através de nossa determinação em continuarmos a trabalhar por uma paz justa, uma democracia inclusiva e uma dignidade humana para todas as pessoas de nossa terra.

Naim Ateek

Naim Ateek

Naim Ateek é pastor anglicano e cidadão árabe de Israel. É o presidente e diretor de Sabeel, um centro teológico ecumênico em Jerusalém. É doutor em Teologia pelo Seminário Teológico de São Francisco e autor de Justice and Only Justice: a Palestinian Theology of Liberation (Orbis, 1989) e A Palestinian Christian Cry for Reconciliation (Orbis, 2008).

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