Tropa de elite Universal

6 de março de 2015
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Cada vez mais se incrementa a complexidade ‘monoteísta’ da Igreja Universal do Reino de Deus. Dado que não pode se desvencilhar da diminuição do número de seus fiéis no mercado religioso pela emergência de agremiações como a Igreja Mundial do Poder de Deus e da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra. Aos poucos as respostas vêm sendo dadas pela cúpula da IURD, como a promoção em 2014 da cosmogonia do Templo de Salomão. A última ação da hábil liderança iurdiana foi a criação de um grupo chamado “Gladiadores do Altar” (com a sigla G.A.). Um agrupamento no qual se farda como uma tropa de elite do aparato da segurança dos estados brasileiros. Eles se apresentam nas celebrações no formato de um segmento militar expondo em filas indianas, em coro, orações e cantos.

As aparições litúrgicas do G.A. ocorreram (e ocorrem) em diversos estados da federação – Piauí, Rondônia, São Paulo Paraíba, Ceará, Goiás, Bahia; e no exterior, como Argentina e Colômbia. Seus membros são formados por jovens, homens, com idade mais ou menos de 18 até 40 anos, que têm um “chamado” à liderança religiosa. A razão do grupo é de “ganhar almas” e “pregar a salvação” – tudo embutido na desculpa bélica de que estão “prontos para a batalha”. Por eles, lembra-se que algumas formas protestantes, como os batistas, têm segmento (internos) que se baseiam na vida militar. Semelhante ao G.A. da IURD, promovem a disciplina, honra e o serviço religioso nos seus quadros. Contudo, entre os batistas, a instância se encontra mais na adolescência sendo chamados de “Embaixadores do Rei”. Assim, pergunta-se frente aos vídeos do G.A.: o que os difere dos Embaixadores do Rei? – por exemplo.

Evangelização bélica

Primeiro, que há descontinuidades claras entre essas duas igrejas. Os batistas fazem parte do chamado protestantismo de missão do Brasil, tendo chegado nas terras brasileiras a partir da segunda metade dos oitocentos. Já a IURD faz parte das igrejas neopentecostais – desdobramentos dos protestantismos de missão e do pentecostalismo que cresceu por meio das campanhas de Cura Divina da década de 1950-1960 e da Teologia da Prosperidade (a partir da década de 1980). Segundo, o G.A. seria um segmento da IURD que além de participar de ações litúrgicas pretende formar novos líderes religiosos. Portanto, faz parte de uma nova agenda de preparo de vocacionados iurdianos que almejam futuramente ingressar no ministério pastoral Universal. Por isso, uma questão vem à mente: que tipo de formação é essa que forma pastores e religiosos levando-os a agir como uma tropa de elite? Essa é a preocupação de vários comentaristas, afirmando que seria um novo canal de intolerância religiosa.

Particularmente não acho que seja apenas isso, porque ao ligar à formação (intelectual) religiosa às máscaras das disciplinas militares pode-se ampliar mais do que uma estrutura formadora da intolerância religiosa. Com essa formação desses intelectuais/líderes religiosos pode-se formar uma legião crescente e cada vez mais especializada na “violência religiosa” (Zizek). A IURD conduziria estruturalmente um nível de evangelização bélica no qual utiliza-se práticas militares especializadas típicas do “estado de exceção”, que, para Giorgio Agamben, seria uma forma política típica das guerras civis e das insurreições populares levadas pelo fogo da violência.

Nesse sentido, o treinamento de quadros das futuras lideranças religiosas (eles não seriam educados, mas treinados mesmo!) pela IURD sob o brasão de uma “tropa de elite” pode ser mais que um perigo. Sim, o medo é de que se incremente ainda mais as outras esferas da vida social no formato do sítio policial, principalmente nas cidades brasileiras, com o argumento da “luta contra o inimigo”. O perigo se volta principalmente aos ‘não-convertidos’. Assim sendo, a impressão é de que a IURD está fomentando mais do que um simples ato militar-litúrgico nas suas celebrações. Percebe-se que suas lideranças, aos poucos, vêm instaurando um leque de práticas eclesiásticas policiais formadoras de soldados religiosos especializados na intervenção bélica evangelizadora. Obriga-nos a lembrar da expressão de Walter Benjamin diante do crescimento fascista na Europa ao dizer da “violência como meio expresso para atingir seus fins”; isto é, por ela se passaria a justificar uma sistemática de atentados e mortes de quaisquer religiões e diferentes sujeitos sobre a desculpa do zelo conversionista purista cristão.

Publicado anteriormente em http://www.carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates-2/4878-tropa-de-elite-universal

Bibliografia:

Giorgio Agamben. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, p.12-17.
Walter Benjamin. “Sobre a crítica do poder como violência”. In: Walter Benjamin. O Anjo da história. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

Fabio Py

Fabio Py

Fábio Py é historiador e teólogo, doutor em Teologia pela PUC-Rio e mestre em Ciências da Religião pela UMESP. Niteroiense, professor na Universidade Cândido Mendes e articulista sobre fé e política no Portal da Revista Caros Amigos. É autor de Crítica à baixa ecologia (CEBI/Fonte Editorial, 2015).
Fabio Py