Uma coisa nos falta. Exigências do Evangelho contra a riqueza e a propriedade

27 de maio de 2016
Hoffman-ChristAndTheRichYoungRuler

E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. (Mateus 19, 22)

Mas, ouvindo ele isto, ficou muito triste, porque era muito rico. (Lucas18, 23)

Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades. (Marcos 10,22)

 

A história do “jovem rico” é muito conhecida. Um encontro que não deu certo. Havia muita simpatia entre Jesus e o rapaz, a conversa foi conduzida de modo polido e os temas eram profundos e bem enunciados. Se para o “jovem” a conversa era sobre “herdar a vida eterna” para Jesus a conversa era sobre confrontar as formas de acumulação e riqueza. Os itens de vida familiar e comunitária citados por Jesus – Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não defraudarás alguém; honra a teu pai e a tua mãe (Marcos 10, 19) – configuram uma vida marcada pela ética no stricto sensu. Em outros termos, trata-se de relações fundamentais cujo objetivo é construir uma vida digna balizada e sustentada por uma avaliação mais ampla sobre os modos sociais de distribuição e consumo das riquezas socialmente produzidas. Porém, este direcionamento por si só não é suficiente. Não é o bastante! O registro da vida familiar e comunitária é diariamente confrontado pelo desafio maior que nos é apresentado por Jesus: uma coisa te falta!

Quando Jesus aponta para o desafio de vender tudo que tem e dar aos pobres como condição de seguimento, a conversa se amplia para as formas sociais de organização da vida em sociedade, de modo especial, trata-se dos registros das formas de acumulação e de apropriação de propriedade. Mateus e Marcos vão registrar o fracasso da conversa e do encontro apontando a razão básica: porque ele possuía muitas propriedades! Lucas vai preferir o registro: porque era muito rico.

Jesus vai deslocar todo o seguimento do evangelho na direção dos/as pobres; supera o registro das boas relações pessoais e radicaliza na direção da contradição básica da sociedade com a exigência de se desfazer de tudo que tem… de vender tudo, de dar aos pobres como condições para o seguimento. Esta radicalidade do seguimento de Jesus vai ser retomada a seguir na fala contundente: Então Jesus, olhando em redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! (Marcos 10, 23).

Quatro questões precisam ser enunciadas aqui e resumidamente respondidas:

  1. Na conjuntura da Palestina ocupada pelo Império Romano quem e como alguém ficava rico?

  2. Na conjuntura da Palestina ocupada pelo Império Romano quem e como alguém acumulava muitas propriedades?

  3. Que mecanismo social é este apontado por Jesus de “vender tudo e dar aos pobres”? Qual o impacto social?

  4. Quem são os/as pobres? Qual o lugar e a voz deles no texto?

A Palestina ocupada pelos romanos no século I da era comum era considerada periferia do Império, sem grande importância econômica ou política, mas, importante ponto geopolítico de passagem de tropas e mercadorias. De modo geral as pesquisas sobre este período apontam para um processo sistêmico de empobrecimento das populações locais, em especial do campesinato, de comunidades artesãs e de empregados/as e servos/ as: A sociedade era desigual e combinava às formas locais de opressão, mecanismos de exploração do Império; a classe alta era formada por funcionários estrangeiros ligados à administração romana e às lideranças do culto local em Jerusalém que detiam relativa autonomia política e econômica; um segundo grupo desta classe era constituído pelos proprietários de terra que representavam grupos familiares bem estabelecidos tradicionalmente e que historicamente dependeram de acordos com os impérios para a garantia da posse extensiva da terra nas formas de tributos e taxas que pesavam especialmente nos ombros do campesinato organizado na forma do trabalho servil; e havia, ainda, comerciantes que ocupavam funções no mercado importador-exportador e eram responsáveis pelo abastecimento de Roma e Jerusalém.

“Durante o governo de Antipas cresceu o latifúndio em prejuízo das pequenas propriedades comunitárias que eram a característica do sistema tradicional dos judeus. A produção agrícola da Galiléia começou a orientar-se não mais a partir das necessidades das famílias como antes, mas sim, a partir das exigências do mercado. A arqueologia provou a existência de grandes propriedades que visavam a um maior excedente de produção para poder exportar. Os muitos impostos faziam diminuir a rentabilidade das pequenas propriedades”. (MESTERS, 2005. p. 5).

Um complexo sistema de cobranças, endividamento e execuções colocavam a engrenagem social para funcionar. O Império cobrava e as lideranças locais cobravam duplicando as formas de exploração. De modo resumido se poderia apontar para os seguintes mecanismos:

“Os impostos devidos ao Império dividiam- se em diretos, cobrados dos produtos da terra (entre 20 a 25%), os de capitalização ou pessoal, que era o denário, e indiretos, que compreendiam os direitos de alfândega, de barreira (na entrada das cidades) e pedágio (pontes, atravessadouros de rios e encruzilhadas). Os impostos locais eram os do templo, destinados à manutenção do santuário e dos sacerdotes; o primeiro dízimo, a décima parte do primeiro produto da terra (ou primícias) e da agropecuária; o segundo dízimo, que deveria ser gasto em festa e beneficência, a ser pago no primeiro, segundo, quarto, quinto anos numa série de sete anos e cobrado do produto da terra e do gado; o terceiro dízimo ou dízimo dos pobres, a ser pago no terceiro e sexto anos, destinado aos órfãos, viúvas e prosélitos; as rendas do quarto ano, que prescrevia que o produtor, ao colher o produto da terra nos três primeiros anos, gastaria o resultado dessa primeira colheita em Jerusalém”. (AZEVEDO, 2001)

Parte das elites locais alugava o direito de participar dos modos de cobrança garantindo o cumprimento das exigências do Império e consolidando um estrato social colaboracionista com acesso às formas de acumulação de riqueza o que inviabilizava qualquer coesão social de resistência e autonomia. Este acesso à riqueza estava proporcionalmente relacionado ao dramático endividamento rural, por exemplo, no período herodiano, como atestam fontes rabínicas do período e a documentação sobre a execução de dívidas:

“… lavradores desesperados pedindo empréstimos aos funcionários da administração herodiana e à aristocracia sacerdotal (hipotecas sobre as terras). Em muitos casos, essa ação legal transformava aldeãos outrora livres, que cultivavam a terra dos antepassados, em meeiros permanentemente empobrecidos, que ganhavam a vida com dificuldade em vastas propriedades aristocráticas (as quais aumentavam rapidamente)” (HORSLEY, 2000).

O endividamento sistêmico do campesinato fortalecia os grandes proprietários que arruinavam as propriedades comunitárias tradicionais. Os muitos impostos faziam diminuir a rentabilidade das pequenas propriedades (MESTERS, 2005. p. 5). Além disso, a produção agrícola forçosamente se dirigia aos interesses de abastecimento do Império o que gerava crise do abastecimento local e ampliava as formas de pobreza e endividamento, doença e loucura, como bem aparece retratado nos Evangelhos.

Concluindo… o que nos falta!

Assim, ser rico e/ou enriquecer na Palestina ocupada no tempo de Jesus significava participar ativamente dos mecanismos sociais de opressão e exploração e, também, contribuir de modo significativo para a manutenção e fortalecimento da ocupação imperial na região. A riqueza do “moço rico” nos textos citados tinha sua origem no roubo, na corrupção e no tráfico de influência; era sinal direto de colaboracionismo com a ocupação romana e de espoliação e expropriação das maiorias trabalhadoras e pobres.

Do mesmo modo, ter grandes propriedades na Palestina ocupada no tempo de Jesus significava destruir as formas comunitárias de vida na terra, comprometer a produção agrícola local priorizando os interesses do abastecimento do Império e expulsar as pessoas de suas aldeias formando as multidões famintas, doentes e desesperadas que vão ao encontro de Jesus. As muitas propriedades do “moço rico” tinham sua origem no roubo, na corrupção e no tráfico de influência.

Por essas e por outras as riquezas e/ou propriedades do “moço” vão ser desafiadas diretamente por Jesus: uma coisa te falta! Para além do cumprimento da lei em seu registro formal, Jesus exigia o enfrentamento direto com a ocupação romana e seus mecanismos de opressão, exigia o reconhecimento dos modos ilícitos de acumulação de riquezas e propriedades como essencial, fundamental, inadiável e incontornável para o seguimento do Evangelho.

Vender tudo e dar aos pobres enuncia estas exigências. Inviabiliza qualquer cumplicidade com a lógica da expropriação e endividamento e desafia para ir ao encontro dos pobres – homens e mulheres.

Somente a ruptura com estes modos de opressão e a entrega em direção aos pobres crias estas condições de seguimento. O “moço” não é chamado a ajudar os/as pobres, nem mesmo a compartir seus bens com os/as pobres! Jesus não pede impostos e taxas mais justos… mas anuncia o fim de toda dívida! a ruptura com a lógica do Império e das elites. Por isso Jesus pede ao “moço” que venda tudo, ainda na lógica econômica existente, como um “programa de transição” para uma outra ordem possível… mas esta nova ordenação é tarefa e protagonismo dos/das pobres mesmos! dos/as pequeninos/as, cansados/as, endividados/as, enlouquecidos/as. São elas e eles que dão a medida do Reino.

Esta exigência de Jesus é parte essencial de nossa fé no Evangelho e deve participar de nossas críticas e buscas pela justiça, da criação de mecanismo de igualdade: romper com as formas de acumulação de riqueza e propriedade e caminhar com os/as pobres em suas lutas de libertação Qualquer outro atalho ou proposta reformista só se torna aceitável se fizer parte de um “programa de transição” que aponte para o pão nosso de cada dia, o perdão das dívidas e a superação do mal. Deus conosco!

Bibliografia:

AZEVEDO, Gilson Xavier de. A Judéia no Tempo de Jesus e Jesus na Judéia de seu Tempo. TCC (Graduação em Teologia) – UNILOGOS, São Paulo: 2001. Disponível em: http://www.paideia.ubbi.com.br/tccteologia.pdf

BOFF, Clodovis. Fé e compromisso político: pastoral operária de S. Bernardo do Campo. São Paulo: Paulinas, 1982. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/ fe/igreja/clodovisboff.html . Acesso em: 19 maio 2015.

CROSSAN, Jean Dominic. O Jesus Histórico. Rio de Janeiro: Imago, 1994. ______. Jesus: uma biografia revolucionária. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

FERREIRA. Reuberson Rodrigues; CELESTE. Rodrigo Fávero. Aspectos físicos e econômicos da Palestina no tempo de Jesus. 2006. Disponível em: http://www.abiblia.org/doc/53.pdf Acessado em: 19 maio 2015

HORSLEY, Richard A. Jesus e o Império: o reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004. 156 pp.

______. Arqueologia, história e sociedade na Galiléia: o contexto social de Jesus e dos Rabis. São Paulo: Paulus, 2000.

HORSLEY, Richard A.; SILBERMAN, Neil Asher. A mensagem e o Reino: como Jesus e Paulo deram início a uma revolução e transformaram o Mundo Antigo. São Paulo: Loyola, 2000. v. 1.

MEIER, J. P. Um judeu marginal: repensando o Jesus histórico. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

MESTERS, Frei Carlos. Prática libertadora de Jesus. Lanza, n. 1, fev. 2005. Disponível em: http:// www.ocarm.org/justice&peace/A%20Pratica%20Libertadora%20de%20 Jesus.doc Acesso em: 25 maio 2015.

ROCHA, Ivan Esperança. Dominadores e dominados na Palestina do I século. História, São Paulo, v. 23, n. 1-2, p. 239-258, 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/his/v23n1-2/ a12v2312.pdf Acesso em: 25 maio 2015.

Nancy Cardoso Pereira

Nancy Cardoso Pereira

Pastora metodista, graduada em Teologia e Filosofia, mestra e doutora em Ciências da Religião, com pós-doutorado em História Antiga. É membro do conselho editorial da Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana (RIBLA) e agente da Comissão Pastoral da Terra. É mãe de Clarissa e Daniel.

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