Uma opinião provisória sobre os gays e o cristianismo

28 de março de 2015
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Notícia no site oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB): “Agora gays podem casar na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUSA) (1)

Esta notícia é antiga. Data de junho de 2014.

Fiz questão de mostrar essa notícia pelo site oficial da Igreja Presbiteriana no Brasil (IPB), porque, a despeito de qualquer discordância teológica em um ponto ou outro, tenho bons e queridos amigos presbiterianos espalhados por todo esse Brasil, e sei que isso não é um tema fácil.

Um dos temas que mais me faz estudar hoje sobre a minha fé é a “questão gay”. Primeiro porque tenho inúmeros amigos e amigas gays que, sim, querem e desejam ter uma conexão genuína com sua espiritualidade e, por conta de sua orientação sexual, foram rejeitados por igrejas, digamos, convencionais. E acreditem, são muitos! Amigos das igrejas chamadas “inclusivas” devem ter centenas de histórias de casos dessa natureza para contar.

Suponhamos (eu disse “suponhamos”) que realmente o caminho para se chegar a Deus seja de fato a leitura “literalista” da bíblia. Será que um sujeito pode estar doutrinariamente correto, com conceitos bíblicos bem enxutos e amarrados, e mesmo assim estar equivocado em sua postura para com o pecador? E principalmente, com aqueles pecadores que eles julgam terem pecados mais graves e que merecem mais evidência que outros? Pois é… É com isso que eu fico indignado! Me causa muita revolta e repulsa quando vejo a igreja tratando o tema da homossexualidade de maneira literalista e fundamentalista, mas tratando a heterossexualidade de maneira flexível, fazendo leituras históricas e tal. Não à toa temos o Silas Malafaia (Pastor da Assembléia de Deus e, segundo a revista Forbes, milionário) celebrando o terceiro (eu disse terceiro!) casamento do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). E o deputado Magno Malta (PR-ES), também ardoroso militante antigay, no seu segundo casamento, com uma jovem cantora gospel, que deixou seu marido para ficar com ele.

Tanto Malafaia quanto Bolsonaro e Magno Malta fazem parte da linha de frente desse “cinturão bíblico fundamentalista” que declara guerra aos direitos de casamento civil (eu disse civil, que dirá religioso) dos gays, não economizando expressões de fúria em suas falas e gestos.

Pergunto de novo: Alguém pode estar “em tese” teologicamente correto e, ainda assim, sua postura bizarramente equivocada?

Ou seja, mesmo que esses caras estivessem corretos teologicamente, a postura dos mesmos para com esse “público” em especial é um espetáculo midiático de ódio e intolerância. E passam uma falsa imagem de que representam a comunidade evangélica no Brasil, que pode até teologicamente pensar a mesma coisa, mas que na postura certamente vão ter mais piedade, compaixão, paciência, misericórdia, mansidão, frutos do Espírito que, ao que parece, faltam a esses senhores (2).

Não estou falando isso por ser contra o divórcio. Como se eu quisesse justificar um pecado, citando outro. Muito pelo contrário.

– “Poxa, está infeliz no casamento, tentou todas as formas de conciliação e não deu certo? Vai ficar a vida toda com alguém por quem não tem mais atração nem afinidade? Então o caminho é o divórcio”.

– “Pera lá, mas a bíblia é absolutamente contra o divórcio e, principalmente, que o divorciado se case de novo”.

– “Ah, gente, não podemos ser tão literais assim, vamos aqui analisar o contexto…”.

E aí temos dois fundamentalistas (um celebrando o casamento e o outro se casando) apelando para o “liberalismo”, ou “relativismo bíblico”, para defender algo de seu próprio interesse, que é ser realizado humana e sexualmente com uma parceira que lhe faz feliz e ainda assim sem perder a conexão com Deus.

E por que com os gays tem que ser diferente? Se formos literalistas, um gay não é tão pecador quando um divorciado, e principalmente, do divorciado que se casa de novo? Pode ser que sim ou pode ser que não. Depende da lente com a qual você lê o texto sagrado.

Eu posso até concordar com você mais conservador (e digo isso a duras penas, confesso!) que a bíblia é a Palavra de Deus. Inerrante! Intocável! E que deve ser lida letra por letra sem questionar nada! Ainda assim, digo para você que “pode até ser”. Porém, o olhar humano sobre ela no decorrer da história não é… Definitivamente!

Então se você tem dificuldade de relativizar o que está escrito na letra (que mata! 2 Co 3.6), relativize pelo menos o olhar humano no decorrer do tempo. Porque o que você interpreta hoje como verdade bíblica inabalável é nada mais nada menos que a soma (e evolução nessa leitura) de inúmeros pensadores bíblicos até chegar nesse olhar que você tem hoje. A verdade bíblica não foi passada como telefone sem fio (até porque se fosse assim, a bíblia chegaria a nós com uma visão muito mais deformada dela do que há hoje). Mas sim através de incontáveis exercícios de reflexão. Uns aceitos, outros rechaçados. E ainda outros queimados em praça pública.

Por mais conservador que você seja, comparado a um fundamentalista do início do século passado, ou da Idade Média, certamente seria rotulado de liberal e apóstata. Como foram condenados como liberais e destruidores da família e dos bons costumes os cristãos do norte dos Estados Unidos pelos cristãos do sul porque os primeiros achavam uma aberração anticristã o cidadão possuir escravos. Mesmo Paulo, tendo uma versão claramente moderada sobre isso, trata a escravidão em suas epístolas como uma questão cultural, apenas aconselhando os senhores de escravos a terem um olhar mais humano sobre eles, dizendo que estes também (e apesar de escravos) são irmãos em Cristo.

Peraí, Paulo era a favor da escravidão?

No contexto de Paulo a escravidão era socialmente aceitável. Apesar de ser bem diferente do contexto da escravidão africana, não deixava de ser escravidão. E Paulo foi um cara que, dentro daquele contexto, foi muito iluminado, humanizando e elevando o escravo à condição de filho de Deus, tal qual seu dono. Na dúvida, leia a carta que Paulo manda a Filemon, intercedendo de forma tocante em favor do escravo Onésimo.

Gostou da contextualização histórico-cultural? Acabei de livrar a cara de Paulo: passou de um “conivente com a escravidão” para um cara com uma mente a frente de seu tempo. No primeiro caso, Paulo serviu como referência aos cristãos escravocratas do sul dos Estados Unidos para se agarraram com unhas e dentes; e no segundo, foi a bandeira dos cristãos do norte dos Estados Unidos.

Podemos dizer então que o que gerou comoção nos Estados Unidos para entrarem em uma guerra civil foi um lado acreditar que o outro estava completamente equivocado em seu fundamento bíblico para manter o regime desumano da escravidão. E lutaram não só por um tratamento humano aos escravos, mas por uma libertação total dos escravos. Neste quesito eles conseguiram ir além do próprio Paulo, mesmo da bíblia, de forma geral, que considerava a escravidão algo socialmente aceitável.

Tá vendo como nem tudo é preto no branco?

Não podemos ler a bíblia como se lê um código civil-penal. Atendo-se às palavras como um conjunto de regras do que pode ou não se pode fazer (como os fariseus faziam). Devemos olhar a bíblia analisando textos e contextos, e principalmente, o princípio que está por trás das palavras. Saindo das amarras de uma leitura de olhar frio e pretensamente preciso, para esquentar nosso coração, sabendo que o que está em jogo é outro ser humano, com seu contexto, vida, sentimentos etc., tal qual Jesus fazia.

“A lei foi dada por meio de Moisés, mas o amor e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.” (João 1. 17)

Aliás, não é preciso ser um gênio em teologia para perceber que Jesus pegava muito mais pesado com os estudiosos da Lei, que colocavam a letra que mata acima da dignidade humana das pessoas. Jesus ousou trazer um novo olhar sobre a letra que mata, lendo ela sob a lente do Espírito que vivifica. De fato, a letra matou-o, crucificado. Porém, o Espírito o vivificou.

Tudo textos e contextos!

Então, por que no que diz respeito à questão gay a gente sequer pode dar uma chance de ponderar alguns argumentos? Como se Deus, o Todo Poderoso, pudesse ser domesticado dentro de nossa limitada grade de doutrinas e convicções.

Uma querida amiga de confissão presbiteriana tempos atrás me adivertiu privadamente no Facebook:

“Eu sei que você lê a bíblia e tem suas convicções. Mas realmente tenho me sentido incomodada com umas postagens suas sobre o homossexualismo e Deus não ser tão conservador quanto parece ser. Rapaz, assim como qualquer outro pecado, se você acha que o homossexualismo é certo e correto, repense bem antes de passar para as pessoas como se você fosse cristão e seguisse a bíblia.”

E deixou claro na mensagem que não estava sequer interessada no que eu tinha a dizer sobre isso:

“Você vai me contra-argumentar com mil palavras porque você é uma pessoa que sabe usá-las muito bem… (…) Como disse (…) não tô a fim de discutir sobre isso… Apenas te fazer pensar, mas isso cabe a ti.”

Por um lado, eu entendo perfeitamente a preocupação da minha amiga. Contextualizei suas palavras e sei que não é uma manifestação contra mim. O princípio é uma genuína preocupação comigo, com as pessoas que me leem, e principalmente, com sua própria cosmovisão, herdada de uma longa tradição de bons e piedosos presbiterianos em sua família.

Só digo que é sim possível uma pessoa repensar esse contexto e, ainda assim, se considerar cristã e seguidora da bíblia. Claro que, de um lado e de outro, qualquer questão fechada ainda é uma atitude equivocada e prematura. O universo teológico ainda tem muito o que debater e dialogar sobre esse tema. O Papa Francisco já está dando sensíveis passos na direção de pelo menos demonstrar amor, tolerância e compaixão pelo pecador em detrimento do pecado, recebendo grupos LGBTs no Vaticano para dialogar. A igreja brasileira conservadora não tem sido muito cirúrgica em saber separar essas duas dimensões. Que dirá dialogar sobre outras possibilidades de leitura e interpretação bíblica.

A não ser que me provem que minha esposa é na verdade um travesti que fez mudança de sexo e mudou o nome da identidade, eu não sou gay. Portanto não advogo em causa própria. Faço apenas o exercício de amar o próximo como a mim mesmo, fazendo assim um exercício sincero de me colocar no lugar do outro, e sendo sensível às questões afetivas de amigos que amam a Deus sinceramente, têm uma relação com um companheiro ou companheira baseada em princípios de amor, fidelidade, lealdade, mais até que muitos casais heterossexuais que eu conheço, e que desejam profundamente serem aceitos e ativos participantes nas comunidades de fé de confissões protestante-evangélicas e católicas.

Confesso que essa questão para mim ainda não está fechada. Tenho muito que ler e estudar ainda antes de fechar essa questão em minha mente. Mas não estou sozinho, pois vejo claramente que não é unanimidade na igreja cristã no mundo. Então não podemos simplesmente bater o pé de forma infantil e dizer “não e não” sem antes nem considerar outras leituras e argumentos. Eu só formo uma opinião quando de fato observo todos os argumentos possíveis e, diante disso, deixo minha sensibilidade escolher a opinião que a meu ver é a mais sensata.

Não tenho problema nenhum em ter um olhar crítico sobre a bíblia. O próprio Lutero também teve, quando esbravejava raiva sem fim sobre a Carta de Tiago, chamando-a de “Epístola de palha”. Ele a considerava uma afronta à ideia defendida por ele da salvação pela graça, perspectiva que ia contra a meritocracia defendida pela igreja católica medieval.

Gostaria de lembrá-los que esse fundamentalismo bíblico nasceu nos Estados Unidos, na primeira década do século passado (portanto, uma postura bem nova), por conta de um julgamento conhecido como caso John Scopes (consultem o São Google) que tratava da questão de abolir ou não o ensino do criacionismo nas escolas. Só depois da comoção midiática gerada por conta desse julgamento que surgiu o chamado “Cinturão Bíblico Americano” (Bible Belt), onde, em contraponto às ideias liberais, os cristãos sulistas (sempre eles!) se fecharam num literalismo e conservadorismo baseado muito mais no medo e na raiva que propriamente numa reflexão equilibrada. George W. Bush é um filho direto dessa geração de cristãos.

Na notícia que postei do site da Igreja Presbiteriana do Brasil (que repudia totalmente a igreja presbiteriana americana) me preocupa o fato do autor conclamar a Igreja a ir contra o diálogo, tratando a iniciativa da presbiteriana americana como apostasia, fruto de seminários que se deixaram infiltrar (contaminar) por professores de pensamentos “liberais”.

O mesmo artigo termina dizendo:

“Acredito que a única medida preventiva é não abrirmos mão da legitimidade e aplicabilidade dos valores e dos ensinamentos bíblicos para todas as épocas e culturas. Isto nos permitirá sempre fazer uma crítica da cultura a partir do referencial da Palavra inspirada e infalível de Deus. Foi quando a PCUSA subjugou a Bíblia à cultura que a lata de minhocas foi aberta. A Bíblia passou a ser julgada pela cultura. Vai ser difícil para liberais, neo-ortodoxos, libertinos e outros grupos no Brasil, que de maneiras diferentes colocam a cultura à frente da Bíblia, resistir à pressão.”

Finalizando com a sentença: “Quem viver, verá.”

Pelo visto, muitos bons e piedosos professores de seminário, que estudaram anos a fio pra dar um conteúdo de qualidade aos alunos para além da doutrinação eclesiástica seja lá de qual denominação for estão com suas carreiras acadêmicas ameaçadas. Jogaremos anos e anos de reflexão teológica na lata do lixo. Domesticaremos monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado teológicos à grade de doutrinas e confissões de fé das denominações. E certamente isso será um grande retrocesso na nossa jornada em direção a uma maturidade equilibrada, baseado na troca de ideias e não na de ofensas e ameaças.

Então meus amigos, abramos os olhos e o coração. O debate e diálogo sobre a questão gay está para além do que estes fazem ou deixam de fazer com suas genitálias. Está em jogo uma clara ameaça ao maravilhoso e fascinante exercício do livre pensar construído através do penoso sacrifício de inúmeros pensadores cristãos que ousaram sair da normalidade de leitura sugerindo outras opções. E por conta disso foram queimados, perseguidos, exilados, e, a exemplo de Rubem Alves e Leonardo Boff, casos mais recentes, expulsos de suas denominações.

Enquanto isso eu sigo nesta situação incômoda: taxado como “liberalzinho-progressista” pela igreja e “conservador e retrógrado” por quem não é religioso. Sinto uma clara sensação de inadequação dos dois lados.

Fazer o que, né?

Para ambos os lados, acho que o caminho mais sensato é um diálogo maduro. Sem levar as diferenças para o lado pessoal como se fosse questão de matar ou morrer.

A teologia brasileira tem uma longa e árdua jornada pela frente…

“É bom não radicalizar e ter equilíbrio. Quem teme a Deus evita extremos, porque vê os dois lados da moeda”  (Eclesiastes 7. 18).

Notas

(1) Ver http://ipb.org.br/informativo/agora-gays-podem-casar-na-igreja-presbiteriana-dos-estados-unidos-pcusa-3972
(2) É bom deixar claro claro que nenhum dos acima citados são presbiterianos.

George Facundo

George Facundo

George Facundo é blogueiro, educador social e Bacharel em Teologia pela Faculdade Católica de Fortaleza. É membro da Igreja de Cristo da Aldeota, em Fortaleza, e é facilitador do Grupo de Estudo Bíblico para Não-Religiosos.

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