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Carta de amor ao meu inimigo 6

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Carta de amor ao meu inimigo 6

Em nome de todos os bigodudos e bigodudas

Meu querido inimigo,

A minha carta de hoje é dolorosa e precisa partir dessa entrevista publicada em junho de 2011 na revista “Playboy”:

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo.”

Você disse isso mas não é homofóbico, até aparece em fotos com gays e nem vale a pena repetir outras frases, terríveis como essa. Fico apenas pensando em você, presidente, conseguindo liberar armas para a humanidade.  O que seria dos gays que você aceita, contanto que não seja seu filho?  Pode ser que eu não tenha entendido direito e seu preconceito seja apenas contra bigode. Mas essa é outra piadinha minha fora de hora e lugar.

Eu lembro mesmo é de Beto me procurando e pedindo socorro que seu pai comprara um revólver porque não suportava ter um filho gay e ele tinha apenas vinte anos de idade.  Levamos ele às pressas para Salvador, enquanto começávamos um acompanhamento e uma conversa com a família, inclusive com o pai. Estava lembrando aqui que o Brasil não é mais o campeão mundial de futebol, mas continua sendo o campeão mundial de assassinato de gays. Em uma sociedade fortemente armada, os caçadores de humanos exóticos vão matar ainda mais facilmente mendigos, bandidos, índios e gays, esporte perigoso que não quero acreditar que você apoie.

Essa é uma das maiores dificuldades que enfrento para conseguir amar você, como Jesus me desafia, meu querido inimigo. Como pastor evangélico, tenho muitos amigos e amigas, bigodudos e bigodudas, e é em nome de todas e todos que escrevo essa carta.

Por que insisto tanto em me descrever como pastor evangélico? Quem me conhece sabe que não costumo fazer isso. Mas, em um momento em que a imensa maioria da igreja evangélica apoia você, preciso me identificar. Veja bem, a igreja que lhe apoia é igualmente homofóbica e responsável por um discurso que autoriza o preconceito, e pior, considera o seu discurso sagrado, inquestionável. Para ela, Deus detesta gays. Engraçado, muitos gays que conheço se sentem amados e amadas por Deus, como são e como estão, mas se sentem rejeitadas pela igreja.

E agora, quero fazer uma confissão pessoal. Eu sou hétero e já fui tão preconceituoso quanto qualquer pastor e, com toda a dedicação, tentei curar gays. E aconteceu um milagre. Fui curado! Não sou mais homofóbico! Tenho muitos amigos e amigas gays e é uma das experiências mais libertadoras ser acolhido por elas. Elas não têm preconceito, não são heterofóbicas.

Fui curado pelo abraço de Dinho, quando acompanhávamos pastoralmente um rapaz com câncer terminal e eu estava em choro descontrolado. Fui curado quando uma amiga amada tentou se suicidar sete vezes, até assumir o seu amor diferente por outra mulher. E não conheço uma pessoa tão humana quanto ela. Fui curado por um homem transexual, grande amigo muito amado, por uma amiga que descobriu que sua filha era apaixonada por mulheres e a aceitou e se envolveu na luta das mães pela diversidade, e por muitas e muitos. Bigodudas e bigodudos.

Sinto muito, meu querido inimigo, esse meu texto sangra e esse sangue tem sido derramado com a autorização do seu discurso irresponsável e da pregação irresponsável da igreja. Qualquer coisa que cheire a homossexualidade causa um frenesi desproporcional, mas o assassinato sistemático de gays nunca é denunciado nem pela igreja e nem por você. É muito comum nos púlpitos os testemunhos de ex-gays e não quero entrar em polêmica, mas o testemunho da felicidade de gays cristãos assumidos não interessa a ninguém, e eu conheço muitos e muitas.

Bem, essa carta é muito importante, porque em nome de todas as bigodudas e todos os bigodudos cristãos ou não cristãos, e tenho de lembrar que já existem bastante igrejas inclusivas no Brasil. O assunto poderia render ainda mais, mas quero voltar ao meu apelo insistente.

Para facilitar o meu amor, procure se curar do preconceito, e desista dessa nova mania de querer ser presidente. Não vai dar certo. Nem para você, nem para o Brasil e nem para homossexuais, bigodudas e bigodudos.

No aprendizado do amor,

Marcos Monteiro, pastor batista.

Assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão (CEPESC). Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana (BA) e e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda (PE). É membro da Fraternidade Teológica Latino-americana do Brasil e da Aliança de Batistas do Brasil. Escritor, editor e articulador na Editora e Rede Curviana.

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