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Carta de amor ao meu inimigo 5

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Carta de amor ao meu inimigo 5

Lembrando Martin Luther King Jr e Marielle Franco

Meu querido inimigo,

Escrevendo essa carta, lembrei de Martin Luther King, Jr. e de Marielle, e me perguntei: você é racista? É uma pergunta perigosa, eu sei, até porque racismo é crime inafiançável e você precisa ser um candidato ficha-limpa.

Mariele era linda, de bem com a vida, lutadora por direitos humanos, inclusive para os policiais. Você conhece a trajetória. Mas era negra, lésbica, feminista, e de esquerda. Tudo aquilo que seu discurso ataca com muita veemência. Mas você não se considera racista, até tem amigos negros e seu filho posou com um “negão”.

Entretanto, você nunca vai poder entender o que é ser negra, e não é por questão de cérebro, o qual tem a mesma cor, mas de pele e aparência.

Você é contra cotas, mas não é racista. Os afrodescendentes são pesados por você em arrouba e você não é racista, os quilombos são lugares para negros gordos e preguiçosos atrapalharem o progresso. Animais que não servem nem para procriar, mas foi somente uma brincadeira.

Em tempo, você conhece piadas de negros, provérbios populares, músicas racistas? Conheço muitas, mas não conheço nenhum preconceituoso contra branco, hétero, cristão. Eu sou branco, hétero e cristão, igual a você nesses privilégios. Mas amigas negras e amigos cresceram ouvindo essas piadinhas e essas charadinhas, e às vezes, aprenderam a rir de si mesmas, nesse cruel cotidiano. Isso se chama racismo cultural e você sabe.

Meu querido inimigo, você é contra cota para negros, deveriam ser para pobres. Isso já foi tão debatido na nossa sociedade e você continua com essa visão simplista.

Para não repetir as mesmas coisas, vamos somente lembrar de dois conceitos, racismo epistemológico e racismo geográfico, com o esquecimento da inteligência acadêmica de negros e negras pesquisadoras e com a transferência compulsória de negros pobres para as periferias. Cotas são políticas reparadoras existentes em países que você admira. Admitem que a história da escravidão submeteu a população negra a cotidianos aterrorizantes, danificando sua autoestima e dificultando a sua inclusão cultural.

Morei quatorze anos na Bahia e fiquei impressionado com a existência de uma população predominante negra. Depois descobri que são poucos negros e negras na universidade e muitos na cadeia. Então, a política pública reparadora no estado da Bahia deveria ser aumentar a cota de negros na universidade e criar uma cota maior para brancos nas cadeias. Mas isso é uma piada boba e preconceituosa que inventei. Talvez a primeira contra os brancos. Entretanto, você sabe que em uma batida policial entre universitários que consomem maconha, e são muitos, com a maioria branca se dá um jeito, mas negras e negros são presos e humilhados, sem exceção.

Mas voltemos à mesma pergunta. Você é racista? E outra, você nunca se posicionou publicamente sobre Marielle? Por que? Seus assessores dizem que sua opinião é polêmica demais. Então, suas posições contra direitos humanos lhe atrapalham? Marielle defendia os direitos de vítimas e familiares, incluindo os policiais. Lembrei novamente, houve um pastor norte-americano que foi morto por defender direitos humanos e políticas reparadoras para negros, Martin Luther King, Jr. Ele se posicionava em nome de Jesus Cristo. Então, vocês seriam inimigos? O seu evangelho é diferente do dele? Fico impressionado com o número de evangélicos que estão ostensivamente lhe apoiando.

Então, meu querido inimigo, deixe eu insistir nessa tecla. Estou tentando amar você, porque Jesus disse que precisamos amar os inimigos, mas continua sendo difícil.

Então, nos ajude, por favor, e estou falando sério e com toda a gentileza de que sou capaz. Converta-se, mude esse seu racismo existencial. E desista de ser presidente. Será muito melhor para o Brasil, e para você, e para a população negra.

No aprendizado do amor,

Marcos Monteiro, pastor batista.

Assessor de pesquisa do Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão (CEPESC). Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana (BA) e e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda (PE). É membro da Fraternidade Teológica Latino-americana do Brasil e da Aliança de Batistas do Brasil. Escritor, editor e articulador na Editora e Rede Curviana.

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