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Direitos Humanos 70 Anos – Artigo 2 – Respeito e diversidade sem distinção de qualquer espécie

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Direitos Humanos 70 Anos – Artigo 2 – Respeito e diversidade sem distinção de qualquer espécie

Alexandre Brasil Fonseca*

“Não mais nem judeu nem grego; já não há mais nem escravo nem livre, já não há mais o homem e a mulher; pois todos vós sois um só em Jesus Cristo.” (Gl 3,28)

O conceito da dignidade é um dos elementos que fundamentam os Direitos Humanos. No Brasil e na América Latina têm se dado menos importância a este tema do que ele merece e considero que aí está a origem de boa parte das limitações que temos visto para se viver e pensar algumas questões contemporâneas ligadas à diversidade, aos direitos e às relações humanas. Nosso continente tem convivido com histórias de negação da diversidade, sendo assumidos processos de uniformização e/ou subalternização das culturas presentes e originárias de nossos países.

Essas diferenças também se manifestam em realidades que foram salientadas desde tempos ancestrais, como no caso do gênero. Este tema tem movimentado fóruns diversos, trazendo questões novas para as discussões em um contexto em que as desigualdades salariais ainda persistem de forma inexplicável entre mulheres e homens. Situações de conflito são recorrentes e como resposta uns pedem acolhimento, com a adoção de uma adequada e não preconceituosa abordagem pastoral para pessoas LGBTI, por exemplo. Enquanto isto, outros assumem uma pretensa isenção e continuam ignorando esta temática pensando que assim ficam de fora destes conflitos. O problema é que este silêncio pode ser tão agressivo quanto as agressões desferidas por alguns, pois esta postura acaba por colaborar para que muitos vivam uma realidade de profunda e dolorosa discriminação.

Hoje, no Brasil, é cada vez mais comum que nossos mapas cognitivos expurguem determinadas pessoas por seu comportamento e opções, pelo simples postar nas redes sociais ou por conta de opiniões que possuem. Somos rápidos em definir e etiquetar pessoas, porém um dos principais desafios de se viver em uma democracia é o respeito e o diálogo diante das diferenças, buscando uma vida que não alimente distinções e preconceitos.

A diversidade é salutar para a democracia e é bom que mais pessoas venham à público expressar suas opiniões. A questão aqui é que estas não se dão num vazio de biografias e nem são imunes às trocas e interações que esta exposição oferece. O cristianismo surgiu em meio a uma sociedade “pagã” e uma das tentações que Jesus não corroborou foi a do estabelecimento de um Estado Teocrático. O desafio é para se fazer discípulos e amar ao próximo, e não para “converter almas” para constantinizar o país. Além disso, no texto de Paulo aos Gálatas, no capítulo 3, há uma boa indicação da necessidade de ampliarmos nossa compreensão. Enquanto em Gênesis 1 afirma-se não haver diferenças entre homem e mulher, criados à imagem e semelhança de Deus. Muito tempo depois Paulo vai além e afirma este respeito à diversidade em relação à etnia (judeu e grego); classe social (livre e escravo); e gênero novamente (homem e mulher). Nos anos que separam estes dois textos bíblicos, a sociedade criou novas diferenças. Quais outras situações de respeito diante das diferenças somos chamadas e chamados a afirmar no tempo atual? Em quais novas situações devemos afirmar que não há diferenças?

Nos dias atuais penso que entre os grupos excluídos, as/os transexuais estão entre uns dos que mais sofrem. A negação da identidade desses sujeitos é algo extremamente triste e que representa uma séria violação dos Direitos Humanos. Outra situação grave se dá em relação aos fiéis de religiões de matriz africana. Ter seu espaço sagrado vilipendiado, não poder assumir livremente sua fé e vivê-la com limitações e medo é uma realidade presente no cotidiano de muitos que professam o Candomblé e a Umbanda, ente outras expressões religiosas afro-brasileiras.

Neste caso, configura-se uma situação em que há uma grave e inaceitável violação dos direitos humanos. Também cabe salientar uma realidade muito presente no Brasil e na América Latina relacionada às questões raciais, dos negros e negras, mas também de indígenas e outros grupos que têm sofrido preconceitos e convivem com a negação de seu passado, suas histórias, memórias e identidade; diante de uma religiosidade que se estrutura a partir de uma lógica eurocêntrica e que ao assumir postura colonial uniformiza as pessoas, nega identidades e não é capaz de reconhecer o valor e a importância das diferentes histórias e da diversidade constituinte da cultura, elemento fundamental tanto para os nossos hábitos, como também para nossas relações e estruturas.

Oremos para que cristãos e cristãs não compactuem com ações que defendam a violência, a anulação e a negação de pessoas. Oremos para que a concepção da dignidade humana e do valor da vida humana estejam presentes de forma abundante e que a vivência do Evangelho nas comunidades de fé se dê de forma plena ao incluir, acolher e abraçar todas as pessoas, sem distinções. Que ao fazer isso, a Igreja Evangélica Brasileira possa aprender a realidade de que todos pecaram e que, portanto, todos não passamos de seres humanos miseráveis. Que as misericórdias de Deus sejam abundantes sobre nossas vidas e que a compreensão desta mensagem não seja algo sem consequências concretas; afirmações como estas não podem ser meramente retóricas.

* Sociólogo e membro da Diretoria do Paz e Esperança Brasil

A Série Direitos Humanos em Devocionais é uma iniciativa de Paz e Esperança Brasil, composta de devocionais com sugestões de leitura bíblica e de orações em diálogo com os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos que completam 70 anos em 2018. Para mais informaçoes sobre Paz e Esperança Brasil, acesse http://www.pazesperanca.org

Paz e Esperança tem como foco oferecer atenção integral às pessoas e comunidades que têm sofrido violações diretas a seus direitos. Por meio da educação, materiais educativos, pesquisas, monitoramento, comunicação e redes Paz e Esperança Brasil promove a cultura de paz e a justiça numa realidade marcada por insegurança e violência. Inicia suas atividades na cidade do Rio de Janeiro, a partir de 2018, em meio a uma situação de intervenção federal na área de Segurança Pública, num contexto de um Estado falido que não tem conseguido atender minimamente a população em seus direitos básicos. Estes são os desafios que nos movimentam e ao quais esperamos cooperar em suas respostas.

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