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Sobre atualizar a Bíblia: Uma perspectiva histórico-teológica

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Sobre atualizar a Bíblia: Uma perspectiva histórico-teológica

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Nos últimos dias muito se tem discutido sobre o sermão pregado por Ed René Kivitz, no qual ele fala sobre a necessidade de “atualizar a Bíblia.” Kivitz esclareceu que sua linguagem — apesar de ter sido interpretada dessa maneira — não se referia a questões textuais, mas exclusivamente a questões hermenêuticas. Ou seja, em sua linguagem não houve intenção de desafiar a forma do texto, mas sim a interpretação do mesmo. Sua preocupação foi, acima de tudo, uma confissão da condição humana com todas suas complexidades e limitações.

Para os que, como eu, estudam a história do cristianismo com seriedade e autocrítica, não houve nada polêmico ou original no que Kivitz falou. Na verdade, o conservadorismo de sua abordagem me pareceu aparente em seu sermão e gritante em sua explicação na última quinta-feira, dia 29 de Outubro. Eu imagino que compartilho com ele o sentimento de quem se vê como um moderado em algumas posturas: para alguns, indo longe demais; para outros, não indo longe o suficiente. Os que sugerem que Kivitz é um liberal, não prestaram atenção em sua linguagem.

A polêmica criada a partir do sermão de Kivitz, no entanto, proporciona uma abertura importante para falar sobre disposições hermenêuticas. E apesar de que muitos o criticaram como sendo alguém que tem se aproximado de uma contemporização inadequada quanto à interpretação da Bíblia — e a linguagem dele sugere que ele próprio argumentaria que tal “atualização” é quase que exclusivamente um tipo de contemporização — gostaria de abordar essa questão por um prisma talvez incomum.

O que foi ignorado por muitos é o fato de que ler a Bíblia considerando suas “entrelinhas,” como disse Kivitz, é uma prática patrística. Ao tentar olhar pra frente, Kivitz, na verdade, estava também se situando dentro de uma tradição interpretativa profundamente antiga. Em termos de questões socioculturais específicas, obviamente que tal atualização olha “para frente.” Em termos de uma ênfase em ler “as entrelinhas” da Bíblia, é para trás que essa disposição olha. Se os Pais da Igreja estivessem sentados nos bancos da IBAB no domingo passado, eles reagiriam à afirmação de que devemos ler “as entrelinhas” da Bíblia não chamando o Kivitz de herege, mas olhando uns pros outros e dizendo: “Tá, a gente já faz isso, vida que segue…”. Ironicamente, Ed René Kivitz falou dentro de uma Igreja Batista — uma denominação que historicamente se diz ser nada mais do que uma manifestação contemporânea da igreja antiga. Batistas às vezes se esquecem de quão modernos eles e elas realmente são.

O modo como os pais da igreja liam a Bíblia não era determinada por uma obsessão com a literalidade. Como escreveram John O’Keefe e R.R. Reno (1), “a tradição interpretativa patrística é melhor compreendida como um esforço contínuo de entender como a fé em Jesus Cristo traz ordem e coerência aos dados díspares das escrituras.” Foi parcialmente essa disposição a responsável pela capacidade criativa de articular doutrinas centrais do cristianismo e resistir tentações que mudariam o curso da história do pensamento cristão. Até a habilidade de cristãos antigos de manterem o Velho Testamento como parte fundamental das escrituras cristãs e de resistir a “ameaças” como o Marcionismo dependeu da capacidade dos Pais da Igreja em ler “as entrelinhas” das escrituras.

Para Ignácio de Antioquia, bispo e mártir do Primeiro Século que foi discípulo do apóstolo João, não é o texto que carrega a carga mais importante de seu significado, mas um significado apropriado do texto depende de seus intérpretes conhecerem a identidade de Jesus Cristo. Ao contrário de fundamentalismos literais, a mística patrística afirma que não se conhece Cristo através do texto, se conhece o texto através de Cristo.

Irineu de Lyon, bispo e mártir que nasceu em 130 e morreu por volta de 202 e lutou veementemente contra o que ele chamou de heresias, também ilumina as limitações de hermenêuticas que dependem do projeto iluminista. Pra ele, é impossível ler a Bíblia corretamente sem saber o plano geral das escrituras. O texto, pra ser bem interpretado a partir desse prisma, não pode ser lido em suas linhas, mas precisa considerar o arco da mensagem de Deus como horizonte interpretativo. Para Irineu, a exegese é um exercício espiritual de discernimento contextual, não uma interpretação mecânica e atemporal.

Orígenes também é uma voz importante nessa questão. Para ele, um texto poderia ter vários significados, e a solução interpretativa de textos bíblicos não estavam no texto, mas em Deus. Além disso, as muitas tipologias e alegorias usadas por Justino Mártir, Atanásio, Cyril de Alexandria, Agostinho e outros, nos dão base plena pra dizer que doutrinas fundamentais da nossa fé cristã foram formuladas por pessoas que liam não somente as linhas, mas principalmente as entrelinhas das escrituras — tendo como horizonte interpretativo a pessoa de Jesus Cristo e o arco da ação de Deus na terra.

Vale lembrar aos literalistas, que a própria Trindade — Deus Pai, Filho, Espírito Santo sendo três em pessoa e um em essência — não está nas linhas da Escritura, mas em suas entrelinhas. A forma de batismo que deve ser exercido — lembrando que os próprios batistas não batizaram por imersão em suas primeiras décadas — também não estão prescritas nas linhas da Bíblia, mas nas entrelinhas. A doutrina da união hipostática — afirmação de que Cristo é simultaneamente divino e humano — também não está nas linhas da Bíblia, outra vez entrelinhas. Se oferecêssemos uma lista completa das doutrinas defendidas pelos fundamentalistas e que foram fruto de leituras das entrelinhas da Bíblia, essa reflexão seria menor apenas do que a falta de conhecimento que habita a ironia de suas críticas.

Então, irmãos e irmãs, sejamos consistentes em nossas condenações. Para sermos honestos com a história da igreja, com nós mesmos, e com o Ed René Kivitz, precisamos: ou condenar essa ideia de ler a Bíblia em suas entrelinhas com o objetivo de discernir como Deus quer usar as Escrituras hoje, ou aceitar que essa prática não é recente nem sem valor. O problema em condenar é que teríamos que revisitar o valor de doutrinas e pessoas que consideramos centrais para o desenvolvimento do cristianismo. A dificuldade de aceitar é que precisaríamos revisitar o valor de um comprometimento com uma leitura literal que já há muito tempo muitos sabem que só funciona na fantasia dos que querem manter o controle das comunidades religiosas.

Nota

(1) John O’Keefe and R.R. Reno. “Sanctified Vision: An Introduction to Early Christian Interpretation of the Bible”. Baltimore: John Hopkins University Press, 2005: 22.

Mestre em Teologia Histórica pelo George W. Truett Seminary e em Religião pela Baylor University, onde também concluiu seu doutorado em História do Cristianismo em 2017. É autor de "O Racismo na História Batista Brasileira: Uma memória inconveniente do legado missionário", e diversos artigos em inglês. Ele ensinou na Baptist University of the Américas em San Antonio, Texas, e foi Fellow da Hispanic Theological Initiative no Princeton Seminary, onde é atualmente seu Diretor Assistente. Também é editor associado do periódico Perspectivas e coordenador do GT Religiões Latinx da Academia Americana de Religião — Região Sudoeste.

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