Conecte-se com a gente

Novos Diálogos

Sexualidade e Escrituras: Resposta a Matthew Tuininga

Artigos

Sexualidade e Escrituras: Resposta a Matthew Tuininga

Sexualidade e Escrituras: Resposta a Matthew Tuininga

Por Nicholas Wolterstorff*

Começo agradecendo afetuosamente a Matthew Tuininga, que tem sido um grande amigo, pelo espírito generoso da resposta à minha fala acerca do casamento homoafetivo na Igreja Cristã Reformada da Neland Avenue, em Grand Rapids, Michigan, no dia 13 de outubro do ano passado [2016]. Gostaria que todas as discussões sobre esse assunto intensamente controverso respirassem esse espírito de respeito e amizade!

O leitor entenderá melhor minha resposta a Tuininga se eu realizar uma breve síntese acerca do que explanei em meu discurso: iniciei declarando que não falaria como uma autoridade no que abrange a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas falaria de forma autobiográfica, narrando o que me levou, gradualmente, de um ponto de vista tradicional nessas questões à minha defesa do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Embora tenha me debruçado sobre uma grande quantidade de estudos de gênero e sexualidade, e consultado muitos comentários bíblicos, não sou uma autoridade.

A principal questão que abordei foi se a justiça requer a aceitação do casamento entre pessoas do mesmo sexo pelo estado e pela igreja. Durante a década passada, publiquei muitos livros sobre justiça. Amigos e conhecidos começaram a me estimular a explorar mais sobre como a justiça se relaciona com esse tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Minha fala foi uma resposta a essa provocação. Ao compor a palestra, descobri que eu tinha muito mais a dizer acerca da legitimidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo do que havia previsto, tendo que condensar drasticamente o que tinha a dizer acerca da conduta da justiça nessa questão.

Um relato autobiográfico

Foram, principalmente, dois acontecimentos que me levaram a reconsiderar minha visão tradicionalista acerca do assunto. Primeiramente, eu aprendi com parentes, amigos, estudantes e ex-estudantes que eram homossexuais, e assim me tomei mais próximo de alguns que era casados. Ouvi sobre suas crenças, suas agonias, suas esperanças e suas afeições. Em segundo lugar, eu li a literatura dos últimos 50 anos, mais ou menos, sobre gênero e sexualidade. O que eu aprendi dessa literatura, entre outras coisas, foi que há um espectro de orientação sexual, dos heterossexuais aos homossexuais, e essa localização no espectro não é uma questão de escolha. Embora há quem discorde dessas posições, tenho a impressão de que elas são dominantes agora, seja entre cristãos ou entre não cristãos.

Então me questionei se a orientação homossexual é um desvio, ama marca da queda da criação, ou, ao contrário, o que um estudo sobre essas questões para um encontro do Classis Grand Rapids East (1) da Igreja Cristã Reformada denominou de “variação criacional”. Cleptomania é um transtorno; aqueles que a possuem devem tentar restringir seus impulsos ao roubo. A homossexualidade poderia ser vista desse mesmo modo?

Cleptomania é um transtorno porque é uma violação ao princípio do amor. No entanto, seria a conduta homossexual também inerentemente uma violação ao mandamento do amor? E, mesmo os que possuem uma relação amorosa homossexual com compromisso estão violando esse mandamento? Parece-me que não. Todavia, talvez eu estivesse ignorando algo. Talvez as Escrituras ensinem que isso é, de fato, uma violação ao mandamento do amor de uma maneira que tenha escapado à minha atenção. Ou talvez as Escrituras ensinam que Deus proíbe a homossexualidade, ainda que ela não viole o mandamento do amor. Então, voltei às Escrituras para buscar as sete famosas passagens que condenam a conduta homossexual – quatro no Antigo Testamento e três no Novo Testamento. Antes, porém, afirmei a insistência da tradição reformada de rejeitar o uso de textos como prova e interpretar as passagens em seus contextos.

As passagens do Antigo Testamento às quais os tradicionalistas dão mais peso são Levítico 18:22 e Levítico 20:13, sendo a conduta homossexual masculina condenada em ambas. O contexto é a entrega de um código de santidade de Moisés a Israel em nome de Deus. Dois temas se destacam nas normas do código. O primeiro é que Israel deve seguir as regras de Deus para limpeza e purificação ritual; os membros de Israel, por exemplo, não devem comer carne de porco. O outro tema que se sobressai é que o estilo de vida de Israel deve ser claramente distinto das práticas dos egípcios e cananeus. Eles não devem, por exemplo, usar vestimentas feitas de dois tipos de material, nem podem tatuar seus corpos. É nesse contexto de ordens para evitar essas e outras práticas dos povos egípcios e cananeus, que as passagens proibindo a homossexualidade masculina aparecem.

Podemos concluir que essas passagens ensinam ou querem dizer que a homossexualidade é sempre e em todo lugar errada? Eu penso que não. Você e eu não universalizamos as outras prescrições no código de santidade; sem dúvida muitos leitores desse texto comem carne de porco e alguns possuem tatuagem. Sem considerações adicionais, universalizar a prescrição da conduta homossexual e não outras proibições seria participar numa seleção tendenciosa.

Quando surgiu na igreja primitiva a questão dos gentios convertidos terem que manter a lei de Moisés e ser circuncidados, o Concílio de Jerusalém decidiu que tudo o que era necessário era que eles se abstivessem “das contaminações dos ídolos, da fornicação, do que é sufocado e do sangue” (Atos 15:20).

Quanto ao Novo Testamento, a passagem que a maioria dos defensores de uma interpretação tradicionalista dão mais ênfase está em Romanos 1:26-28. Minha conclusão, após analisar atentamente esses versos em seu contexto, é de que se trata de um caso em que nós também não podemos concluir que o que é ensinado ou insinuado é a proibição da homossexualidade em qualquer tempo ou lugar. Posteriormente, neste texto, eu vou explicar por que cheguei a esta conclusão.

Os benefícios do casamento

Após concluir que, até onde pude ver, as Escrituras não ensinam ou insinuam que a conduta homossexual é sempre e em todo lugar errada, me voltei à “Fórmula de celebração de casamento” da Igreja Cristã Reformada e notei que todos os benefícios do casamento mencionados podem ser vistos em um casamento entre pessoas do mesmo sexo baseado no amor e compromisso, com exceção do benefício de proporcionar “um ambiente seguro no qual os filhos possam nascer”. Contudo, a Igreja Cristã Reformada não considera a capacidade e intenção de procriar como uma condição para o casamento. Concluí que seria injustiça do estado ou da igreja, incluindo a Igreja Cristã Reformada, em privar os casais homossexuais dos grandes benefícios do casamento.

Finalizei dizendo que havia chegado a essa conclusão com relutância. Eu honro a tradição da igreja. Mas, nesse caso, como alguns anos atrás no caso da ordenação de mulheres, fui levado a divergir. O que eu não disse, mas gostaria de ter dito, é que minha sincera esperança e oração é que isso não destrua minha denominação. A denominação, atualmente, possui um novo comitê designado a estudar o que as Escrituras têm a dizer sobre gênero e sexualidade, com a instrução de que sua interpretação seja consistente como a declaração de 1973 da denominação, que condena a conduta homossexual. Espero que o comitê ouça respeitosamente as diferentes vozes na denominação e tente encontrar o maior consenso possível. Espero concordar com uma boa parte, mas não com tudo que eles concluírem e recomendarem. Viverei com isso, assim como vivi esses muitos anos com a declaração de 1973.

O maior incômodo na resposta de Tuininga é que minha consideração acerca do contexto bíblico deveria ser mais expansiva. Ele está correto sobre isso. A minha fala foi uma palestra pública relativamente breve, de 45 minutos; eu talvez não conseguiria, neste tempo, considerar todo o contexto bíblico. Mas deixe-me considerar as passagens adicionais a que Tuininga aponta. Agradeço a ele por me desafiar a trazer essas passagens à discussão.

As passagens podem ser divididas em dois grupos: as que eu chamarei de “passagens de uma só carne” em Gênesis e no Novo Testamento, e o contexto mais amplo em Romanos 1 do entendimento de Paulo sobre a conduta homossexual nos versos 26-27. Vou considerá-los nessa ordem. Todas essas passagens se tornaram o tema de uma quantidade enorme de comentários e controvérsias.

As “passagens de uma só carne” são Gênesis 2:24, Mateus 19:6, Marcos 10:8, 1 Coríntios 6:16, e Efésios 5:31, juntamente com o contexto de cada uma. A passagem de Gênesis, especialmente, é enigmática em diversos pontos, dando espaço a diferentes interpretações possíveis. Apresentarei a interpretação que considero a mais plausível.

À imagem de Deus

Antes de nos voltarmos a Gênesis 2, recordemos de Gênesis 1. Deus, diz o escritor, criou os seres humanos à imagem de Deus. Então, para que não haja dúvidas sobre o assunto, o escritor acrescenta de forma imediata que Deus criou homem e mulher à sua imagem. Mulheres são iguais aos homens num aspecto mais fundamental possível: elas são criadas à imagem de Deus. Após a criação de homens e mulheres à sua imagem, Deus os abençoou, dizendo: que sejam frutíferos e se multipliquem, e que exerçam domínio.

Na narrativa da criação em Gênesis 2, Deus formou primeiramente o homem “do pó da terra”. Posteriormente, Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”. Então Deus criou os animais e os trouxe ao homem. O homem deu nome a eles, mas não encontrou “alguém que o auxilie e lhe corresponda”. Deus, então, tirou-lhe uma das costelas enquanto dormia e formou a mulher. Após acordar, o homem exclamou: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada”. E as palavras que seguem no texto são estas: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”. Isto, obviamente, é uma declaração da natureza ou significado do casamento.

O principal desafio à interpretação aqui parece ser explicar a expressão “por essa razão”. Por que a narrativa da exclamação do homem realizada pelo escritor o leva a concluir que “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe…”? Muitas das interpretações tradicionalistas que consultei veem essa história como se o homem tivesse dito: “Agora, sim, eu tenho um gênero oposto”. Isso não é o que o texto diz. James Brownson, em Bible, Gender and Sexuality (2)¸ interpreta a narrativa como se homem dissesse: “Agora, sim, há alguém similar a mim como ser humano, que pode me auxiliar e me corresponder”. Também não o que o homem diz, embora o período que antecede a exclamação do homem leve a esperar que ele diga algo assim. O que ele diz é: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne”.

O que isso significa? Dada a natureza da criação da mulher, o homem estava falando de forma literal. A mulher foi formada de seus ossos e carne. Entretanto, quando a locução é usada em outras passagens do Antigo Testamento, é usada metaforicamente para declarar a existência de relações de parentesco, como quando Labão diz a seu sobrinho Jacó: “De fato, você é meu osso e minha carne” (Gênesis 29:14).

Mas por que a exclamação do homem de que a mulher é seu osso e sua carne leva o escritor a dizer: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”? O que a exclamação do homem de que a mulher é sua descendente de sangue tem a ver com a natureza e o significado do casamento?

Tornando-se uma só carne

É bastante claro aqui de que há um jogo com a palavra “carne”. Todas as sociedades têm dois tipos de relações de parentesco: biológico e conjugal. No casamento, duas pessoas deixam seus pais, com quem eles têm um parentesco biológico, e se juntam para formar um parentesco conjugal. O termo “parentesco conjugal”, embora preciso, é muito abstrato. Os dois formam uma união física. Eles deixam aqueles dos quais são carne e se juntam para formar uma (nova) carne.

Tenho a impressão de que muitas pessoas entendem “tornar-se uma só carne” como um significado, principalmente, de “tornar-se parceiros sexuais”. A conotação não é ausente. (Veja I Coríntios 6:16, onde Paulo diz: “vocês não sabem que aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está escrito: ‘os dois serão uma só carne’ [“sarx”]”). No entanto, temo de entender “tornar-se uma só carne” num sentido além de “tornar-se parceiros sexuais”. No casamento, duas pessoas são interligadas fisicamente de inúmeros modos – como não são, por exemplo, quando têm uma só mente. Em Efésios 5, Paulo alude a algumas ligações físicas que vão além da união sexual: “da mesma forma, os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo, antes o alimenta e dele cuida”. “Uma só carne” é um ato metafórico para a espécie única de unidade social que é o casamento.

Antes de deixarmos essas “passagens de uma só carne”, é importante perceber o contexto amplo em Efésios 5 da referência paulina à “carne” no versículo 31. Efésios 5:22-28 é uma das muitas passagens das cartas de Paulo em que ele dá instruções aos membros da igreja sobre como se conduzir dentro das estruturas sociais greco-romanas. A questão em Efésios 5 é como viver dentro da estrutura do casamento. Paulo usa a relação entre Cristo e a igreja para dar uma estrutura “assim como… também” ao seu conselho. Assim como Cristo é a cabeça da igreja, também o marido deve ser a cabeça de sua esposa. Assim como a igreja é submissa a Cristo, também as esposas devem ser aos seus maridos. Assim como Cristo ama a igreja, também os maridos devem amar suas esposas.

Depois Paulo surpreendentemente reverte a direção. Em vez de usar a relação entre Cristo e a igreja para iluminar a relação entre marido e mulher, ele agora faz o oposto. Assim como maridos e esposas se amam como amam a seus próprios corpos, Cristo ama a igreja como “membros do corpo de Cristo”. Tornar-se uma só carne no casamento é um “mistério profundo”, diz Paulo, “refiro-me, porém, a Cristo e à igreja”.

Sobre esses versículos, Tuininga afirma que Paulo “explicitamente declara que o significado do casamento, estabelecido na criação, não é encontrado no casamento em si, mas na união entre Cristo e seu corpo, a igreja”. Dessa forma que, precipuamente, interpretei os versículos; e a ideia é, sem dúvida, teologicamente correta. No entanto, agora vejo, para minha surpresa, que o argumento de Paulo nesses versículos não é o significado do casamento, mas o significado da igreja – ou, para ser mais preciso, a natureza da relação entre Cristo e a igreja. Assim como maridos e esposas constituem uma só carne no casamento, também Cristo está vinculado à igreja.

Vamos fazer um balanço. Tuininga questiona por que não “me voltei às passagens como Gênesis 1-2 ou Efésios 5 ou à infinidade de outros textos que falam sobre o significado da sexualidade”. Eu não tive tempo para isso em minha conferência. Agora, após esse desafio apropriado de trazer as “passagens de uma só carne” à cena, devo dizer que não vejo que elas falam sobre o significado da sexualidade. Com exceção da passagem em Coríntios, elas falam sobre o significado do casamento (e do divórcio). E quanto à passagem de Coríntios, o argumento trazido por Paulo é que a fornicação é incompatível com estar “unido ao Senhor”.

Tuininga pergunta: Não é significativo “que em Gênesis 2, o homem seja considerado sozinho, de uma maneira que não é boa, até que a ele seja apresentada uma mulher”? Mas, como vimos, quando o homem vê a mulher, ele não se alegra com fato de que ela é uma mulher, e, assim, com a contrapartida de seu gênero, mas no fato de que ela é osso de seus ossos e carne de sua carne.

Tuininga pergunta: Não é “significativo que o texto (de Gênesis 2) nos diga que somente quando o homem e a mulher se conhecem um ao outro – em seus corpos nus, com toda a reciprocidade patentemente óbvia, objetiva e sexual, e seu potencial para um relacionamento sexual íntimo e a procriação de filhos – que exultam a bondade do que significa ser humano”?. Mas o que o escritor diz, após fazer sua declaração concernente à natureza do casamento é: “O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha”. Sem exultação, apenas ausência de vergonha. A questão da vergonha é trazida à tona, é claro, no capítulo seguinte de Gênesis.

Uma questão aberta

Agora, para a temática de toda essa exegese: as “passagens de uma só carne” ensinam ou insinuam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é sempre errado? Não vejo que elas o fazem. Elas deixam a questão aberta; não a resolvem nem de um modo nem de outro. A espécie de casamento que as passagens têm em vista é, obviamente, é do casamento entre um homem e uma mulher. Todas implicitamente consideram tais casamentos como paradigmáticos. Contudo, ante ao fato de que esses casamentos são paradigmáticos, não quer dizer que todos os outros estão incorretos. Não recordo de nenhuma condenação à poligamia no Antigo Testamento.

É hora de voltar ao que Tuininga diz sobre minha interpretação de Romanos 1. Em minha fala, disse que deveríamos localizar o que Paulo diz sobre a conduta homossexual, nos versículos 26 e 27, no contexto dos versículos 24-32. E disse que quando fazemos isto, vemos que as pessoas que Paulo tinha em mente são as idólatras, a quem Deus entregou ao que pode ser chamado de “depravação total”. Entre essas pessoas depravadas estão aquelas que, possuídas por “paixões degradantes”, praticam atividades homossexuais. A questão é se podemos inferir disso que qualquer conduta homossexual é depravada, ainda que dentro de uma relação amorosa e comprometida, e, portanto, semelhante a outras práticas ruins que Paulo menciona: inveja, assassinato, calúnia etc. Eu disse que pensava que não poderíamos deduzir isto. Embora a inferência seja compatível com o que a passagem diz, ela não é compelida por ela.

Tuininga corretamente observa que este contexto, na verdade, começa com o verso 18, onde Paulo fala sobre o que pode ser conhecido da criação. O que se sabe da criação, diz ele, é o poder eterno de Deus e a natureza divina. O que também pode ser conhecido desde a criação (“decreto de Deus”) é que a inveja, o assassinato, a contenda e coisas do gênero, estão erradas. Tuininga sustenta que quando levamos em conta a referência de Paulo à criação, concluímos que Paulo está afirmando que toda conduta homossexual é uma violação ao decreto criacional de Deus. Embora ele não diga exatamente isto, me parece que ele pense que Paulo não se refere somente à criação, mas alude, mais especificamente, ao texto de Gênesis 1 e 2, em que ele, Tuininga, interpreta como um ensinamento ou insinuação de que a conduta homossexual está sempre errada.

Visão pessoal de Paulo?

Creio que não está totalmente claro que Paulo alude a Gênesis 1 e 2. Contudo, seja como for, Tuininga interpreta Paulo dizendo que a conduta do povo que ele tem em vista “está tão obviamente contrária aos propósitos de Deus na criação, que mostra que eles foram entregues ao mesmo autoengano intencional, que é a raiz da idolatria”. Entre outras formas de mau comportamento, as pessoas a que Paulo tem em vista cedem a suas “paixões degradantes” e se envolvem em condutas homossexuais. Certamente, tal conduta é “contrária aos propósitos de Deus na criação”. Mas e quanto àquelas que se encontram juntas numa relação baseada no amor e no compromisso? Estas pessoas não estão sob a perspectiva de Paulo. Ele está, entretanto, condenando-as implicitamente? Ele está não só condenando a homossexualidade degradada, mas a conduta homossexual em si? Até onde vejo, a passagem é ambígua no assunto. Ambas interpretações são compatíveis com o texto.

Tuininga diz: “no contexto, … Paulo vê a prática homossexual como sendo, objetivamente considerada por qualquer observador imparcial, uma inversão do que é natural, relações criadas entre os sexos, assim como a idolatria, objetivamente considerada por qualquer observador imparcial, é uma inversão do princípio de que devemos adorar o Criador ao invés das criaturas”. Esta é uma possível interpretação da fala de Paulo. Mas não vejo que esta interpretação seja necessária, mesmo quando trazemos para o quadro a referência de Paulo à criação e também inferida sua alusão a Gênesis 1-2, ela seja requerida.

Quase com certeza a visão pessoal de Paulo era a de que toda conduta homossexual estaria errada; o judaísmo da época considerava sua proscrição da conduta homossexual uma das marcas que o diferenciava da cultura greco-romana circundante. Mas a igreja não considerada as visões morais pessoais de Paulo como definitivas. Paulo não condenou o sistema de escravidão; não concluímos que a escravidão seja, portanto, aceitável.

Nessa discussão, Tuininga apresenta muitas questões importantes: “Por que Deus criou seres humanos para ter sua imagem como homem e mulher?” “O que Deus está tentando ensinar os seres humanos através da nossa sexualidade?”, por exemplo. Estas são questões teológicas. Respondê-las requer a consideração de um bom número de passagens bíblicas do que eu considerei, e requer que se vá além da exegese bíblica para levar em conta o que podemos aprender com a revelação geral. Assim como quase todas as questões teológicas, as Escrituras subdeterminam a teologia. Nos últimos 20 anos mais ou menos, uma literatura considerável tem emergido sobre a teologia de sexo e gênero. Aguardo com expectativa as contribuições de Tuininga, um teólogo da nova cepa, e de outros à essa literatura.

Finalizo como comecei. Agradeço a Matt Tuininga pelo espírito gracioso de sua resposta à minha fala. Espero que, malgrado nossos contínuos desacordos, o mesmo espírito ressoe em minha resposta a ele.

Nicholas Wolterstorff ensina filosofia no Calvin College, em Grand Rapids, Michigan; e na Universidade de Yale, em New Haven, Connecticut.

Notas
* Publicado originalmente em: https://reformedjournal.com/response-matthew-tuininga-sexuality-scripture-2/ 

* Tradução de Petrus Carvalho

(1) Nota do Tradutor: Classis Grand Rapids East consiste em um grupo de congregações da Igreja Cristã Reformada localizada no sudoeste da cidade de Grand Rapids, Michigan, nos Estados Unidos.
(2) Nota do Tradutor: Brownson, James V. Bible, Gender, Sexuality: Reframing the Church’s Debate on Same-Sex Relationships. Grand Rapids, MI; Cambridge, England: Eerdmans, 2013. 312 pages.

Clique para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais em Artigos

Subir