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Pelo que e como a igreja deve se arrepender?

Pelo que e como a igreja deve se arrepender?

E Deus prosseguiu: “Este é o sinal da aliança que estou fazendo entre mim e vocês e com todos os seres vivos que estão com vocês, para todas as gerações futuras: o meu arco que coloquei nas nuvens. Será o sinal da minha aliança com a terra. (Gn 9.12-13, NVI)

E Deus amou de tal maneira aquela terra, esta terra, que Deus assumiu a carne humana, com todas as suas alegrias, tristezas, júbilos e dores.

 Inspire comigo.

 Expire. E nessa expiração, diga o nome das dores e pecados que testemunhamos este último ano.

Violência racial sancionada pelo Estado contra nossos irmãos e irmãs negras e indígenas.

Golpes e assaltos ao sistema de proteções democráticas básicas.

Atos de ódio perpetrados contra nossos irmãos e irmãs asiáticas, culpabilizados em bloco por um vírus causado pela demanda capital.

Negros e indígenas que contraíram e morreram de COVID em altas taxas, mas recebem vacinas em baixas.

Inspire comigo.

Expire. E nessa expiração – nesta época de nos lembrarmos porque Deus amou tanto esta terra – nomeie o luto e a perda de vidas causadas por nossos sistemas alimentares industrializados e colonizados.

Trabalhadores em matadouros, fábricas de alimentos, fazendas e serviços de alimentação em todo o mundo foram forçados a trabalhar em condições inseguras durante uma pandemia global e condenados à morte por causa disso.

Povos indígenas assassinados, as terras que administravam roubadas para dar lugar à produção de carne animal a ser exportada e consumida por ricos em outros países.

Longas filas em bancos de alimentos. Barrigas vazias para muitos enquanto alguns poucos selecionados e privilegiados colhem recompensas financeiras insondáveis. Dinheiro ganho nas costas de corpos enfermados e muitas vezes de corpos com deficiência.

Animais – coadoradores do Deus encarnado – levados à extinção pela atividade humana, ou criados, confinados, estuprados e mutilados em fazendas industriais.

Pequenos agricultores e fazendeiros tirando suas vidas em números recordes depois de serem expulsos de um sistema dominado por poucas corporações poderosas que dominam o mercado.

Parece que quebramos a aliança de Gênesis com o nosso Criador, uma aliança de cuidar uns dos outros, da terra e das criaturas não humanas. Portanto, devemos nos perguntar: onde e com quem a aliança de Deus precisa ser restaurada? Esta é uma tarefa que devemos realizar individualmente e coletivamente, para examinar nossa cumplicidade pessoal e comunitária com sistemas e hábitos rotos que causam tanto sofrimento à comunidade amada de Deus.

Parece que nos permitimos, como humanos, ocupar um lugar iníquo no cosmos, considerando-nos um pouco menos que os anjos. Conquistando e colonizando o mundo, extraindo e maximizando seus “recursos” para o grande desserviço de toda a criação. O que devemos mudar para garantir que a aliança, a salvação e a libertação de Deus sejam acessíveis ao mundo inteiro, das galinhas às estrelas?

Família, inspire comigo. Inspire a aliança, a salvação e a libertação que o Deus que ama o mundo tem para todos nós.

Agora expire o medo, a vergonha e a culpa. Porque o Deus encarnado é também nosso protetor, libertador e co-Criador neste mundo amado. 

Em seguida, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, onde ele foi tentado por Satanás durante quarenta dias. Estava entre animais selvagens, e anjos o serviam. (Mc 1.12, 13 – NVI)

Como podemos seguir a Deus – Libertador, Protetor, Criador – no deserto? Será que podemos nos humilhar o suficiente para aprender não apenas com a terra, mas com os próprios animais, como Adão no Jardim ou Jesus no deserto?

Para muitos de nós, entrar no deserto ou numa floresta, encontrar e aprender com os animais é uma impossibilidade física. Séculos de colonização e conquista causaram o desmatamento, o deslocamento dos Povos Indígenas e a profanação desta terra. O apetite euro-americano por alimentos e carnes baratas, produzidos em grandes quantidades a um custo muito baixo, criou uma crise de refugiados climáticos, apartheid alimentar e disparidades na saúde em todo o mundo.

Portanto, para seguir a Deus no deserto, devemos nos arrepender da agricultura industrial e de seus métodos mortíferos.

Confessamos que:

– Temos perpetuado 500 anos de apartheid alimentar.

– Forçamos os povos escravizados a deslocar os Povos Indígenas de seus territórios para cultivar alimentos para um punhado de ricos.

– Temos causado pandemias globais e mortes incontáveis, começando com a primeira pandemia de uma dieta colonial e o modelo de consumismo e demanda capitalista.

–  Temos subsidiado agronegócios multibilionários enquanto deixamos os pequenos e éticos agricultores sofrerem. Temos contribuído com sua depressão e suicídio.

– Temos negado sistematicamente aos agricultores quilombolas e indígenas o acesso à terra.

– Temos falhado em proteger e caminhar com os animais. Nós os criamos e os massacramos aos bilhões, esquecendo que cada uma de suas vidas é preciosa para Deus.

– Colocamos fazendas industriais e matadouros em comunidades pobres, poluindo sistematicamente seu ar, sua água e criando gerações de crises de saúde e ambientais.

– Nossas práticas de pesca industrial têm extraído a vida dos oceanos.

Nós confessamos e nos arrependemos de nossas ações.

Nos arrependemos e nos juntamos a Jesus no deserto do desconhecido, deixando que o próprio deserto nos guie, e nos comprometemos a ouvir e aprender com os povos indígenas, cujo relacionamento com a terra e os não humanos tem sido fundamental para preservar sua integridade e diversidade.

Nos arrependemos e nos colocamos à disposição e abertos para aprender com outros animais não humanos. Nos comprometemos a lembrar que os humanos não são o ápice da criação e que nossa interconexão é a chave de nossa própria existência.

Nos arrependemos e nos comprometemos a sermos consumidores cuidadosos da abundância da terra. Nos comprometemos a conhecer aqueles e aquelas que produzem nossos alimentos; a escolher comer mais plantas que animais sempre que pudermos; a lembrar que todo ser criado é amado por Deus e a tratar esses seres de acordo com essa verdade; a incidir por políticas e práticas que promovam o florescimento, a equidade e a libertação para todes.

Família, nesta Quaresma, podemos nos juntar a Cristo ao considerar esta aliança e vida abundante?

Que assim seja!

Nota: Esse texto foi escrito originalmente para o Blog da Quaresma da Escola Luterana de Chicago, 15 a 19 de fevereiro, 2021.

Rev. Aline Silva é codiretora de CreatureKind, uma organização internacional que lidera pessoas cristãs em novas formas de pensar a fé e o bem-estar dos animais. Ela serviu por mais de uma década como pastora local de populações rurais no Missouri e no Colorado. Aline se identifica como uma imigrante queer, negra e indígena do Brasil nos Estados Unidos. Ela opta por não comer animais não humanos. Você pode acompanhá-la seguindo CreatureKind no Twitter, Facebook e Instagram. Ela vive nas terras não cedidas dos povos Tequesta, Taino e Seminole, denominado Sul da Flórida, EUA.

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