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Uma reflexão sobre a Carta Aberta aos Pastores da CBB

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Uma reflexão sobre a Carta Aberta aos Pastores da CBB

Uma reflexão sobre a Carta Aberta aos Pastores da CBB

Recebi nessa semana de um pastor a quem eu respeito profundamente uma cópia de um manifesto fundamentalista que já conta com a assinatura de centenas de pastores, diáconos e membros de igrejas batistas ao redor do país. Escrevo essa reflexão porque parte do documento parece ser uma resposta direta ao meu livro “O Racismo na História Batista Brasileira: Uma memória inconveniente do legado missionário.”

O título do documento é “Carta Aberta aos Pastores e Igrejas da Convenção Batista Brasileira,” e tem como objetivo principal resistir ao que os autores e signatários veem como uma ameaça ao evangelho que eles seguem. Em resumo, o espírito do documento, apesar de sua linguagem doutrinária, pode ser resumido em disposições de cunho mais cultural do que propriamente teológico: mulheres não são iguais; pessoas LGBTI+ não são iguais; o racismo, apesar de inegável, não é algo que deva ser combatido.

A linguagem do documento tenta esconder essas disposições com frases do tipo “cremos na igualdade dos homens diante de Deus” ou “cremos na igualdade dos homens e mulheres diante de Deus” etc…. Os autores parecem não saber que quando se fala de racismo, sexismo e LGBTfobia, não se está falando apenas do que Deus pensa sobre pessoas, mas principalmente do que pessoas fazem com outras pessoas. Deus é perfeito, eu não; Deus é justo, eu não; Deus é imaculado, eu não; existe igualdade dos homens diante de Deus, não existe igualdade dos homens (ou dos homens e mulheres) entre nós. Nossas igrejas refletem essas desigualdades não por que desigualdades existem em Deus, mas porque elas existem em nossas relações.

Apesar de achar o documento extremamente problemático do começo ao fim, vou resumir meus breves comentários a questões de relações raciais. Mas quero deixar claro aqui, leitor, que meu objetivo não é responder diretamente aos autores e signatários dessa carta. Semelhantemente a Saulo a caminho de Damasco, pessoas que escrevem e assinam documentos dessa natureza raramente querem diálogo porque estão certas de que elas e Deus estão em pleno acordo. Somente uma intervenção divina ou uma crise existencial tem o poder de mudar a mentalidade dos fundamentalismos diversos (de direita e de esquerda) que estão em nosso derredor, buscando a quem possa tragar. Eu apenas quero esclarecer — pra pessoas que já tem a tendência de compartilhar comigo uma série de pressuposições — uma das maneiras através da qual esse documento resiste ao que pretende fazer com sinceridade: refletir o caráter do Deus de Israel.

Minha atenção se volta principalmente para dois pontos, que estão relacionados no próprio documento: “1- Cremos na igualdade dos homens diante de Deus e repudiamos qualquer tipo de discriminação, preconceito e racismo”; e “2- Considerando isto, lamentamos a presença no meio batista daqueles que proferem discursos ideológicos contra o que chamam de ‘racismo’, mas valorizam certas vidas em detrimento de outras; negam o valor da história dos batistas brasileiros e desprezam aqueles que deram a vida pela denominação, em especial missionários e pioneiros a quem acusam de racismo e em virtude de que advogam a ‘descolonização cultural’ da CBB; ensinam outras teologias — negra/feminista/inclusiva etc — em nossas igrejas, seminários e eventos, bem como tratam destes temas em postagens nas redes sociais.”

Primeiramente, quero apontar, amiga leitora, que repudiar o racismo e o sexismo e ao mesmo tempo lamentar o reconhecimento de que questões de injustiça social relacionadas a dinâmicas de raça e gênero inspiram reflexões teológicas feitas a partir da experiência de pessoas negras e de mulheres é de uma contradição fundamental. A Teologia Negra como modo de fazer teologia nada mais é do que uma reflexão sobre Deus a partir da experiência de pessoas de pele preta, mas sem excluir a centralidade da bíblia e da tradição cristã dessa reflexão. Experiência como fonte de reflexão teológica é uma prática milenar dentro do cristianismo. O que seria da doutrina da expiação substitutiva, que os autores e signatários da carta parecem defender mesmo que não saibam o que significa, sem a cosmovisão feudalista de Santo Anselmo de Canterbury? Ou da doutrina da inerrância sem a reação de B.B. Warfield contra o modernismo de sua época? Ou do desenvolvimento da doutrina do pecado original de Santo Agostinho sem a sua “luta” contra Pelágio? Desenvolvimentos teológicos — mesmo para aqueles que insistem que esses nada mais são do que esclarecimentos leves do que “sempre foi defendido” — dependeram historicamente da experiência de uma série de indivíduos.

Se a resistência contra a Teologia Negra ou Feminista for uma resistência contra o uso da experiência individual ou comunitária como fonte teológica, doutrinas centrais defendidas no próprio documento devem ser questionadas, já que tais doutrinas foram desenvolvidas e articuladas a partir de lentes de indivíduos que foram inegavelmente influenciados por experiências que informaram suas articulações teológicas. Se no documento não existe resistência contra o uso de experiências como fonte de desenvolvimento teológico, o que é esse lamento em relação a existência de teologias negras e feministas senão uma negação do fato de que negros e mulheres são dignos de fazer teologia?

Em segundo lugar, é importante mencionar uma seção extremamente curiosa do documento — o lamento da presença de pessoas que “proferem discursos ideológicos contra o que chamam de ‘racismo’, mas valorizam certas vidas em detrimento de outras” no meio batista. Aqui se revela um tipo particular de malícia: a afirmação implícita de que pessoas como eu distorcem o que “racismo” significa e de que tais pessoas mostram um tipo de contradição ao dizer que “vidas negras importam.” Aqui basta afirmar que o racismo no qual meu trabalho foca é uma estrutura construída no mundo moderno por pessoas brancas e que historicamente tem favorecido uma parte da população e desfavorecido outras. E que, parafraseando Ibram Kendi, racista é qualquer pessoa que apoie um comportamento ou uma política racista através de suas ações, inações ou formas de expressar ideias.

Ainda nesse ponto, me parece absurdo ter que afirmar o óbvio: “Vidas negras importam”! O que Robin Diangelo chamou de “fragilidade branca” é algo que me espanta, principalmente quando formas de tal disposição são internalizadas por pessoas não brancas.

Diante da malícia manifestada nesse documento, é preciso afirmar uma série de convicções centrais. Focar em ações de justiça social, principalmente em relação a populações historicamente marginalizadas, é evangelho. Tentar se convencer que igrejas transcendem as desigualdades flagrantes em nossa sociedade é ilusão. Afirmar que todos são iguais perante Deus e repudiar as manifestações sociais e eclesiológicas dessa afirmação é hipocrisia. Na conjuntura atual, ou você é antirracista, ou você é racista, não existe meio termo. Não fazer nada diante das desigualdades sociais em nosso contexto é pecado de omissão na melhor das hipóteses. Políticas são projetos que se aproximam primeiramente do amor ou do ódio. Deus é amor.

Em terceiro lugar, preciso falar sobre algo que é ainda mais diretamente relacionado à minha pesquisa sobre missionários. Uma versão dessa pesquisa foi publicada no livro que mencionei acima, “O Racismo na História Batista Brasileira: Uma memória inconveniente do legado missionário”. Nesse livro, eu de fato mostro que os missionários eram racistas. Seria interessante para mim ver um argumento sistemático que tente demonstrar a não veracidade da minha tese, ao invés de uma negação reacionária e abstrata de sua veracidade. Dito isso, também deixo claro no livro que meu objetivo não é negar a parte louvável do legado missionário, mas desenvolver uma visão honesta da história batista que nos permita olhar nosso presente com franqueza e eficácia. Pessoas de diferentes vertentes do meio batista leram o livro e o elogiaram publicamente. Entre os que louvaram o trabalho estavam pastores, acadêmicos e ativistas. Dos pastores batistas que louvaram o trabalho, cito aqui o pastor Ed René Kivitz (Igreja Batista da Água Branca), pastor Tércio Ribeiro de Souza (Primeira Igreja Batista de Maceió), pastor Edvar Gimenez (Igreja Batista em Casa Forte e secretário geral Interino da Convenção Batista de Pernambuco), e pastor Marco Davi (Nossa Igreja Brasileira). Seria uma honra enriquecedora pra mim se os autores dessa carta articulassem de maneria sistemática uma tese contrária à minha, talvez em um trabalho intitulado: “Provando que os missionários batistas do Sul não eram e nunca foram racistas”. Todo povo batista brasileiro e a historiografia do protestantismo latino-americano seriam enriquecidos se tal abordagem for bem-sucedida.

Por último, quero apontar que os articuladores dessa carta estão certos em supor que estão em plena continuidade com a tradição que eles herdaram. Ser antirracista, pró-igualdade de gênero e aberto às diferenças contextuais em nosso meio não são marcas identitárias dos batistas do Sul — de quem a CBB historicamente copiou seu DNA. Mas atentem para algo importante: o que os autores articulam como “práticas e ideologias estranhas aos batistas”, que se apropriadas prosperarão na “desconstrução de nossa identidade”, são precisamente as disposições que permitirão um futuro no qual o amor e a justiça prosperarão no meio batista.

Tradições são importantes, história é algo complexo, e continuidades com nosso passado tem seu lugar apropriado. Quando tradições e crenças manchadas por erros são postas acima de tudo e de todos, no entanto, nos tornamos idólatras. Essa carta é um manifesto idólatra de um grupo que fez um bezerro de ouro de uma articulação peculiar de “identidade batista”, forjada no fogo da escravatura, segregação e injustiça americana. Essa idolatria, paradoxalmente, contrapõe-se a um princípio defendido por reformadores considerados hereges em seu tempo exatamente por contradizer uma tradição que, apesar de importante, estava sempre em perigo de se tornar um ídolo: Ecclesia Semper Reformanda Est – Igreja Reformada, Sempre se Reformando. Essa convicção, manifestada nos trabalhos de muitos dos heróis dos autores da carta, revela mais uma das várias contradições maliciosas do documento: se a igreja não se reexaminar continuamente, diante da convicção de que nossas limitações nos impedem de termos um entendimento perfeito do evangelho, não poderemos manter crenças que reflitam as boas novas para os dias de hoje. Tradições são importantes, reformas também. Ecclesia Semper Reformanda Est.

Mestre em Teologia Histórica pelo George W. Truett Seminary e em Religião pela Baylor University, onde também concluiu seu doutorado em História do Cristianismo em 2017. É autor de "O Racismo na História Batista Brasileira: Uma memória inconveniente do legado missionário", e diversos artigos em inglês. Ele ensinou na Baptist University of the Américas em San Antonio, Texas, e foi Fellow da Hispanic Theological Initiative no Princeton Seminary, onde é atualmente seu Diretor Assistente. Também é editor associado do periódico Perspectivas e coordenador do GT Religiões Latinx da Academia Americana de Religião — Região Sudoeste.

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