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O movimento de iniciativas evangélicas supostamente não convencionais

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O movimento de iniciativas evangélicas supostamente não convencionais

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Bush, Luis; Wiley, Darcy. O efeito do sim: aceite o convite de Deus para transformar o mundo ao seu redor. São Paulo: Vida, 2018, 220pp.

Luis Bush é um teólogo e missionário norte-americano que estudou teologia e missiologia no Dallas Theological Seminary e no Fuller Theological Seminary. Ele atua como missionário da Partners International (1), foi um dos idealizadores do movimento AD2000 (2), um dos criadores do conceito Janela 10/40 (3), e também é um dos líderes do Transform World Connections (4). No livro não há informações sobre a co-autora, a Darcy Wiley. Ao que tudo indica, sua contribuição se dá através das entrevistas que foram realizadas juntamente com seu marido, Craig Wiley, que foram utilizadas e citadas por Luis Bush ao longo do livro.

O livro O efeito do sim foi publicado originalmente em inglês, em 2017, nos Estados Unidos (5). A editora Vida publicou esta edição em português, mas não informou quem traduziu o livro nem quem revisou a tradução. Por quê? Os profissionais envolvidos precisam ser valorizados. De qualquer forma, trata-se de uma boa tradução.

Luis Bush elaborou o livro como uma ferramenta de divulgação de algumas iniciativas ligadas ao movimento Transform World para inspirar crentes que buscam propagar a mensagem cristã através de iniciativas compassivas, para inspirar aqueles que aceitam o convite de Deus. No primeiro capítulo, intitulado Siga os seus líderes (pp. 15-38), ele enuncia suas concepções de convite e de revelação de Deus, e defende que as histórias dos missionários devem ser utilizadas para inspirar os crentes.

No capítulo intitulado Abra o seu coração (pp. 39-57), Luis Bush defende a aproximação em relação às pessoas mais vulneráveis como uma forma de despertar a sensibilidade e a compaixão nos crentes. Chama-se a atenção, no capítulo Fixe os seus olhos (pp. 59-84), para a importância das análises dos contextos em questão, análises que devem se valer de diversos recursos tecnológicos. Depois, no capítulo Mova os seus pés (pp. 85-109), enfatiza-se novamente a importância da compaixão. Luis Bush cita a definição de compaixão de Henri Nouwen:

Não é uma inclinação para os desfavorecidos de uma posição favorecida; não é estender a mão de cima para os que estão abaixo; não é um gesto de simpatia ou pena por aqueles que falham na difícil jornada. Pelo contrário, compaixão significa ir diretamente àquelas pessoas e lugares em que o sofrimento é mais agudo e construir um lar ali. (apud Bush e Wiley, 2018, p. 89) (6)

Segundo Bush, qualquer crente cheio de compaixão pode desenvolver um ministério do tipo não convencional que supostamente transpõe barreiras culturais, sociais, econômicas e políticas (p. 93).

Na segunda parte do livro, do quinto capítulo em diante, a ênfase volta-se especificamente para as iniciativas ligadas ao Transform World. Por um lado, destaca-se a defesa da união de esforços com pessoas não cristãs ou “pessoas de paz” (pp. 114, 117), não somente a união com outros crentes locais, e a defesa da utilização dos recursos e das potencialidades locais (p. 132) sem seguir “programas pré-embalados” (p. 116). Estes aspectos indicam que Luis Bush defende um tipo de iniciativa com alguma flexibilidade, que leva em conta os contextos locais e, por conta desta flexibilidade, ele afirma que o Transform World optou por manter-se como um movimento (p. 178).

Por outro lado, Luis Bush propõe uma agenda que pretende de alguma forma guiar todas as iniciativas, como o próprio título do oitavo capítulo sugere: Guie os seus seguidores (pp. 181-208). Ele parece se comportar como um estrategista de missões; ainda parece guiado pelo conceito Janela 10/40, pois enfatizou algumas iniciativas realizadas em países desta área geográfica (Egito, Etiópia, Somália, Síria, China, Índia, Indonésia, entre outros); defendeu o conceito Janela 4/14 que prioriza as iniciativas voltadas prioritariamente às crianças (p. 192) (7), defendeu a utilização da tecnologia para atingir as crianças (pp. 83-84, 198), e defendeu a ideia das próprias crianças como agentes de missões (p. 200).

Será que Luis Bush está encabeçando um movimento de ministérios, missões ou iniciativas evangélicas efetivamente não convencionais? Esta questão se impõe de forma incontornável, principalmente porque Bush coloca o movimento Transform World como herdeiro das missões modernas sem nenhuma ressalva ou crítica à perspectiva colonial e paternalista (pp. 28-38, 217-219).

Ele associa desenvolvimento econômico à presença missionária (pp. 32, 172), algo extremamente discutível. Mesmo que seja considerada uma hipótese com algum fundamento, será que é adequado avaliar as missões cristãs em termos estritamente financeiros?(8) Além disso, o desenvolvimento econômico não significa necessariamente maior bem-estar social, menor desigualdade social, mais liberdade etc. Por conta da falta de crítica à perspectiva colonial e paternalista, Bush chega a falar das missões cristãs em termos de “ajuda”, “ajuda empresarial”, “empreendedorismo” e “missões empresariais” (pp. 83, 114-116, 120-122, 199). Quando ousa identificar algumas potencialidades em comunidades pobres, as potencialidades são identificadas apenas em comunidades predominantemente cristãs (pp. 47-48, 74-75, 129, 151, 172-174). Por que não identificou-se potencialidades entre pessoas pobres não cristãs?

Algumas estratégias defendidas por Luis Bush aparentemente não deixam de ser positivas, principalmente aquelas que vão no sentido de despertar a sensibilidade e a compaixão, de fugir dos “programas pré-embalados” e de identificar potencialidades em comunidades pobres. Contudo, as estratégias partem de noções e perfis produzidos de forma ideológica e preconceituosa, tais como: “sociedade insensível” (p. 42), “conflitos étnicos” (p. 67), “tensões religiosas” (p. 70), “grupos não alcançados” (p. 79), “perspectiva muçulmana” (p. 71), “budismo enganador” (p. 164), “refugiados perigosos” (p. 104), “povo perdido” (p. 143), “os que se opõem ao evangelho” (pp. 153-154), “país comunista” (p. 170), “agricultores preguiçosos” (p. 173), “africanos infelizes” (p. 183), “crianças negligenciadas” (p. 189) etc.

Será que isto é ético? Será que o Luis Bush nunca ouviu falar nos textos do Edward W. Said?(9) E o que pensam as pessoas e os grupos envolvidos? Para além destas noções e perfis, há pessoas e grupos que devem ser ouvidos, há pessoas e grupos com os quais os missionários devem efetivamente estabelecer relações mútuas que incluem muito respeito, diálogo e aprendizado.

Notas

(1) Ver: <https://www.partnersintl.org/>.

(2) Ver: <http://www.ad2000.org>.

(3) O conceito Janela 10/40 foi criado, em 1990, para indicar uma grande área geográfica que supostamente teria o menor acesso à mensagem cristã e, por isso, merecia a prioridade dos esforços missionários. Ver: <https://joshuaproject.net/resources/articles/10_40_window>.

(4) O Transform World é um movimento missionário evangélico que segue a mesma abordagem presente neste livro de Luis Bush, oferece respostas a alguns desafios do mundo contemporâneo voltando suas ações a determinados domínios de influência cultural, a determinadas áreas geográficas e a determinados grupos etários. Ver: <https://www.transform-world.net>.

(5) Bush, Luis; Wiley, Darcy. The Yes Effect: Accepting God’s Invitation to Transform the World Around You. Chicago: Moody Publishers, 2017.

(6) Nouwen, H. J. M.; McNeill, D. P.; Morrison, D. A. Compassion: A Reflection on the Christian Life. New York: Doubleday, 1982. [Edição brasileira: Editora Paulus, 1998.]

(7) O conceito Janela 4/14 não enfatiza uma área geográfica como o conceito Janela 10/40, mas sim um grupo etário, de 4 a 14 anos, que merece a prioridade dos esforços missionários. Ver: Bush, Luis. The 4/14 Window: Raising Up a New Generation to Transform the World. Colorado Springs: Compassion International, 2009.

(8) Fiorotti, Silas. Onde está a herança missionária de resistência anticolonial?: um diálogo entre Woodberry e Rieger. In: Práxis Evangélica, Londrina, n. 25, jul. 2015, pp. 45-60.

(9) Said, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 [1978].

Bacharel em Ciências Sociais, mestre em Ciências da Religião e doutor em Antropologia Social, é professor colaborador do CPPG-FMU, pesquisador colaborador do CERU-USP e do CERNe-USP. Realizou pesquisa de doutorado sobre o pentecostalismo em Moçambique. Coordena o projeto Diversidade Religiosa em Sala de Aula.

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