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O debate em curso na Igreja Católica e Evangélica alemã sobre a bênção aos casais homossexuais

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O debate em curso na Igreja Católica e Evangélica alemã sobre a bênção aos casais homossexuais

O debate em curso na Igreja Católica e Evangélica alemã sobre a bênção aos casais homossexuais

[IHU online]

Não é por acaso que, para muitos, se trata do “dia mais feliz da vida”: duas pessoas se declaram publicamente, uma à outra, prometem amor e fidelidade, a partir de tal momento são oficialmente ligadas e conjugadas entre si. Quem for crente, faz essa promessa inclusive diante de Deus. No entanto, dependendo do tipo de casal, esse ponto pode se tornar difícil. Desde 2017, os casais homossexuais na Alemanha podem se casar civilmente e, portanto, são equiparados aos casais heterossexuais. Mas que os cônjuges possam levar sua união para a igreja, depende muito do local e da confissão.

Dentro da Igreja Evangélica na Alemanha, cada Igreja Regional tem suas próprias regras sobre como tratar casais homossexuais. Quem olhar o mapa da Alemanha, verá isso imediatamente: das 20 Igrejas Regionais autônomas, em 11 o casamento é possível para todos; em 7, há celebrações públicas de bênção, que em uma delas são equiparadas ao casamento. Apenas em duas igrejas regionais existem apenas bênçãos privadas.

Ao primeiro grupo pertence, entre outras, à Igreja Regional de Baden. Lá, o Sínodo Regional enfrentou a questão em 2016 e sua primeira atitude foi consultar a Bíblia. As afirmações bíblicas sobre a homossexualidade são realmente raras e frequentemente vinculadas a outros aspectos, como a violência ou a separação das religiões estrangeiras. Onde realmente se fala apenas de relações homossexuais, os comentários são muito rigorosos. Um clássico é o livro de Levítico: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é” (Lv 18.22). Mas a Bíblia não fornece nenhuma motivação para aquele versículo.

“O que naquele versículo é condenado, não tem nada a ver com as atuais situações de vida”: é assim que Matthias Kreplin, Conselheiro Superior da Igreja, resume o resultado da discussão sinodal. Na época do Antigo e do Novo Testamento, de fato, não existiam relações homossexuais nas quais os parceiros fossem do mesmo nível e se considerassem responsáveis um pelo outro. Normalmente eles eram, mais do que qualquer outra coisa, expressões de inferioridade, submissão e exploração – por exemplo, quando na Grécia antiga, homens mais velhos mantinham relações com adolescentes claramente mais jovens. Além disso, as relações homossexuais faziam parte dos cultos pagãos, dos quais o judaísmo queria se distanciar. Essas formas de homossexualidade são o objetivo das afirmações bíblicas – esta é a posição teológica hoje geral.

Levar a Bíblia a sério

Kreplin também observa: “queremos levar a Bíblia a sério – e, por isso, argumentar com base no espírito de toda a Bíblia”. Nesse ponto, os participantes do sínodo destacaram duas diretrizes que atravessam a Bíblia inteira: por um lado, na Bíblia, os seres humanos são quase sempre integrados e não marginalizados; pelo outro lado, toda a Sagrada Escritura é marcada pelo pressuposto “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” – o que também deriva de Levítico (19:18). Além disso, existem também outras normas na Bíblia que hoje não são mais consideradas válidas, continua Kreplin. “Basta pensar na escravidão, que na Bíblia nunca é questionada. No entanto, hoje notamos que não é compatível com a fé cristã”. A Igreja de Baden então se expressou de forma direta em favor do casamento para todos, rejeitando a discriminação. “No plano litúrgico, não está claro para nós qual deveria ser a diferença”.

A decisão de uma Igreja muito próxima foi diferente: a Igreja Regional da Baviera. Lá também as possíveis bênçãos para casais homossexuais foram incluídas na agenda do sínodo: as passagens bíblicas foram consultadas e foi dada uma olhada nas motivações de outras Igrejas. No final, chegou a decisão: as bênçãos devem ser dadas. “Teologicamente, a bênção aos casais homossexuais é a mesma do casamento heterossexual, é apenas um outro conceito”, observa Michael Martin, Conselheiro Superior da Igreja. O fato de ser outro conceito é considerado uma concessão aos fiéis conservadores, que não conseguem aceitar completamente a ideia do casamento para todos.

No plano litúrgico, os ministros e as ministras do culto evangélico desfrutam de grande liberdade. Entre eles, não existe uma forma obrigatória, como no mundo católico, para as celebrações de eventos particulares da vida. Na Baviera, as propostas para os elementos constitutivos das bênçãos baseiam-se nas utilizadas para os casamentos mistos, ou seja, aquelas em que os cônjuges pertencem a religiões diferentes. Mas é importante notar que na Igreja Evangélica não existe casamento no sentido estrito. Nas palavras de Lutero, “o casamento é um assunto terreno”, todos os casamentos evangélicos são apenas bênçãos que ocorrem após a celebração do casamento civil. Os casamentos evangélicos não têm caráter sacramental.

(Quase) os mesmos pressupostos para todos

Para todos os casais valem, porém, determinados pressupostos para as celebrações do casamento: eles devem ser casados no civil, como prova de que, nas intenções, a relação deve ser duradoura. Além disso, um dos cônjuges deve ser membro dessa Igreja. Para os casais homossexuais, uma regra adicional se aplica: os ministros e as ministras de culto podem negar a celebração por razões de consciência. Nesse caso, é necessário recorrer a outro ou outra ministra que dê a bênção.

Pelo contrário, a situação na Igreja Católica é, ao contrário, completamente diferente. O Catecismo, é claro, afirma que os homossexuais “dever ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza” (CCC 2358). Mas o tom muda em relação ao exercício da sexualidade, que na concepção católica é reservada apenas ao casamento: na Declaração Persona Humana publicada em 1975, a Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé definiu os atos homossexuais como “intrinsecamente desordenados”, que “em nenhum caso, podem receber alguma aprovação”. Uma formulação semelhante é encontrada até agora no Catecismo. A origem dessa atitude deriva da história da criação no livro do Gênesis: nos personagens de Adão e Eva se mostra a originária ordem da criação, ou seja, a diferença sexual dos seres humanos. Consequentemente, para a união de dois seres humanos é vital a complementaridade dos dois sexos, que inclui necessariamente a reprodução. A argumentação da Igreja Católica, portanto, refere-se à ideia de uma espécie de lei natural: em tal visão, para os homossexuais não parece haver lugar.

E, no entanto, mesmo na Igreja Católica, percebe-se um repensamento parcial. Cada vez mais teólogos católicos na Alemanha argumentam como o Conselheiro Superior Kreplin. O Comitê Central de Católicos Alemães há tempo vem se pronunciando a favor de cerimônias de bênção. E algo também se move entre os bispos. Como primeiro bispo da AlemanhaFranz-Josef Bode (Osnabrück) afirmou que queria refletir sobre a possibilidade de uma bênção para os homossexuais. “O silêncio e os tabus não fazem avançar e geram insegurança”, disse ele no início do ano passado. Ao mesmo tempo, para ele é importante traçar uma clara diferença do sacramento do casamento.

O cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Mônaco e presidente da Conferência Episcopal Alemã, também considera possíveis as bênçãos. Os padres deveriam levar a sério a situação dos indivíduos e acompanhá-los espiritualmente. “Também devemos incentivar os sacerdotes e os diretores espirituais a apoiar pessoas em situações concretas”. Nesse campo, ele não veria “realmente nenhum problema”, afirmou em fevereiro de 2018. Mas há também o aspecto oposto: o jesuíta Ansgar Wucherpfennig, devido às suas afirmações positivas sobre a bênção para casais homossexuais, despertou irritação no Vaticano.

Recentemente, em meados de agosto, Dieter Geerlings, ex-bispo auxiliar de Münster, tomou a palavra e expressou a opinião de “que a Igreja pode abençoar as uniões homossexuais”. Ao contrário, Georg Bätzing, bispo de Limburgo, disse, uma semana depois, que essas bênçãos não seriam possíveis no momento, pois seriam contrárias à atitude da Igreja e, por isso, temeria um cisma. Somente na terça-feira, 27 de agosto, os bispos Bode e Stefan Heße (Hamburgo) pediram uma abordagem mais aberta da Igreja em relação aos homossexuais.

Stephan Loos e Georg Trettin há muito refletem sobre esse tema. Um, diretor da Academia Católica de Hamburgo, o outro teólogo oficial e pró-reitor, organizaram, com a Academia Episcopal de Osnabrück e outras, uma conferência sobre a abordagem da Igreja aos casais homossexuais e, recentemente, produziram uma publicação com os anais da conferência, sobre as possibilidades de bênção para tais casais. Nesse aspecto, eles são a favor de uma mudança na firmeza pastoral: os progressos científicos, de fato, colocam em questão completamente a ideia de que a Igreja tem de “lei de natureza”. “Nesse ponto, a doutrina católica sobre a sexualidade apresenta uma plausibilidade altamente questionável”, diz Loos. Sua intenção é elaborar novas perspectivas por meio do diálogo entre membros da Igreja, lésbicas e homossexuais. Tudo ainda é muito pouco concreto: algumas indicações já surgiram durante a conferência e no livro.

A chave: um parágrafo no texto oficial das bênçãos

Quem quiser saber mais sobre as bênçãos, deveria folhar Ritual de Bênçãos, que apresenta todos os tipos de bênçãos e sua estrutura litúrgica: da bênção ao vinho de São João à dos turistas que tiram férias nas montanhas, até aquela para as estações de tratamento de água, aqui se encontra realmente muita coisa. Existem também indicações de bênçãos para as mais diversas situações da vida. Mas nem todas elas podem ser atendidas: é por isso que no ponto 36 da introdução está escrito, “Se for solicitada uma bênção que não está contida no presente Ritual, pode-se escolher uma similar e adaptá-la à situação ou preparar uma bênção seguindo os elementos fundamentais aqui fornecidos”.

Aqui, os dois teólogos veem uma “área cinzenta”, na qual, em casos particulares, um concreto operador pastoral pode realizar uma celebração para um casal concreta, que lhe peça uma bênção. Pode ter formas muito diferentes: do contexto privado à liturgia celebrada publicamente em uma igreja, nas últimas décadas já ocorreu de tudo. O problema: a escolha depende dos operadores pastorais individuais. “Pode-se ter sorte, mas também azar. É uma situação arbitrária”, lastima-se Trettin. Mas também enfatiza a centralidade da bênção como um dom de Deus para os homens. “Como pode um pároco arrogar-se o direito de negar as bênçãos a um casal? Não seria um pecado contra o Espírito Santo?”

Para sair dessa situação arbitrária, segundo Loos, existem muitas possibilidades no campo do direito canônico vigente. “O bispo local pode, sob certas condições, emitir normas para o âmbito litúrgico, nas quais as bênçãos também possam ser incluídas.” Em tal caso, não seria necessário alterar o direito canônico. O presbítero em questão poderia então ter certeza de que a celebração não teria para ele consequências disciplinares – muitas bênçãos já desapareceram devido a essa preocupação de muitos presbíteros ou de ameaças por parte dos bispos. O comportamento dos bispos em relação aos sacerdotes que desejam abençoar os casais homossexuais é, de fato, absolutamente discricional: da remoção à suspensão e ao consentimento tácito, tudo é possível.

Loos e Trettin esperam no “caminho do Sínodo” promovido pela Conferência Episcopal Alemã. “O Papa Francisco já encaminhou certas questões e controvérsias para suas regiões de origem – inteiramente de acordo com sua atitude pastoral básica” diz Trettin, que, portanto, pode imaginar que nesse quadro pastoral possam ser encontradas algumas soluções. Mas ele se recusa a pensar em termos estritamente dogmáticos e querer formular de imediato novas regras universais: em sua opinião, “trata-se principalmente das pessoas, não de doutrina”.

Dica de leituraMit dem Segen der Kirche? Gleichgeschlechtliche Partnerschaft im Fokus der Pastoral (Com a bênção da Igreja? As uniões homossexuais na perspectiva da pastoral, em tradução livre), editora Herder 2019, 208 páginas.

* Artigo de Von Christoph Paul Hartmann publicado por Katholisch.de e reproduzido por Gionata, 04-09-2019. A tradução para o italiano é de Antonio De Caro. A tradução para o português é de Luisa Rabolini.

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