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Reconhecidas por Jesus, desacreditadas pelos machistas

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Reconhecidas por Jesus, desacreditadas pelos machistas

Vamos começar pelo final da história. No registro do capítulo 4 do evangelista João, diz o seguinte:
41. E muitos mais creram nele, por causa da sua palavra. 42. E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.
 Machismo é uma idiotice tão forte que esses indivíduos não disfarçam. Admitem que a mulher acertou, falou a verdade, teve a capacidade de discernir, e, ainda mais altruísta, compartilhou com eles. “Não é por que você falou, mas por que nós – os machos – temos ouvido e sabemos”. Convertidos e convencidos da verdade de Jesus, mas ainda machistas imbecis.
Apesar de terem “ouvido” e “saber que este é verdadeiramente o Cristo”, por que os samaritanos não aceitam a fala de sua conterrânea? Por ser uma mulher!
Mudou muita coisa depois de vinte séculos? Mudou. Mas muita coisa continua igual. Mulheres são a priori desqualificadas profissionalmente, suspeitas em seus sentimentos, frágeis em sua condução dos projetos e passivas em suas sexualidades. Há séculos é assim, e, ainda hoje, temos “samaritanos” repetindo as mesmas asneiras.
Mulheres líderes na saúde, na política, nas empresas, nas igrejas? Minoria. Afinal, elas servem apenas para averiguar os preços nos supermercados, não para dirigir os mesmos; são ótimas servindo água e café nos voos, mas não como comandantes dos aviões; razoáveis na locução de programas ou escrevendo textos, mas não como donas das TVs ou das empresas de mídia; até servem como militares, mas não no comando. Por uma simples razão: porque são mulheres.
Então, por que Jesus, conhecendo o ethos e contexto machista da época, “arrisca” a credibilidade de sua mensagem na boca de uma mulher? Por que Jesus não vai direto aos samaritanos e fala com eles sem essa “mediação” feminina? Dá para ficar mais grave a questão? Jesus não teve nenhum problema em entregar sua mensagem a uma mulher em uma condição social questionável: já tivera cinco maridos e o sexto era não oficial. Portanto, além de ser uma mulher, era…
Lugar comum ouvirmos isso: além de ser mulher, é negra; além de ser mulher, é mãe solteira; além de ser mulher, é analfabeta; além de ser mulher, é divorciada; além de ser mulher é lésbica. E se uma mulher conjugar todas essas qualificações, alcança a mais profunda exclusão social. Quem vai acreditar numa pessoa com esses “qualificativos”? Numa samaritana que carregava em sua história de vida todos os preconceitos de raça, sexualidade e condição social?
A Igreja Católica e uma grande maioria das igrejas evangélicas não aceitam o exercício do ministério pastoral feminino, como os samaritanos, pela mesma razão: porque mulheres são dignas. Elas são ótimas nos campos missionários arriscando suas vidas, mas não podem ter títulos sacerdotais; fazem um trabalho heroico com mendigos, presidiários, migrantes, podem pregar para esses, mas não podem pregar nos templos; podem falar da verdade sobre Jesus nas ruas, nos desertos, nas periferias, mas não podem pregar nas paróquias, bispados, presbitérios, ministérios.
Nossos púlpitos, congressos, simpósios, são covis de machos!
É como ouço em sala de aula: “Mas não temos pastoras na Bíblia”. De fato, não temos na Bíblia. E homens de paletó e gravata, com microfones, salários altos, chamados de “reverendos”, com títulos e cargos? Não temos títulos de bacharel em teologia, dicastérios, sínodos, e toda essa insana luta falocêntrica pelo poder. Anacronismo imbecil de quem quer dar legitimidade a uma exclusão imoral das mulheres, mas não tem nenhum argumento razoável para esconder sua “conduta samaritana”.
Resta-nos saber se iremos seguir o exemplo de Jesus que não exclui, mas dignifica as pessoas, independentemente de sua condição social, racial, de gênero ou sexualidade. Jesus dignifica as mulheres, mas os samaritanos, mesmo convertidos, continuam machistas.

Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2000) e doutor em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2012). Atualmente é professor da Faculdade Teologica Batista de São Paulo e pesquisa as relações entre cultura brasileira e o pentecostalismo, mais particularmente sobre as Igrejas Assembleias de Deus. Membro da Igreja Betesda, em São Paulo.

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