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E viva Babel!

Texto-reação-recreação à publicação do Me. Ageu Heringer Lisboa: “Sexualidades, política e famílias: o mal-estar no campo cristão”

Antes de correr os olhos por essas mal traçadas linhas, já aviso, “contém conteúdo queer”[1]! É bom avisar assim, de cara, porque dialogar em tempos de extremismos não tem sido fácil! Quando falo com a boca de cima e com a de baixo então…

Geral já deve estar pensando… a evangélica lésbica babadeira vai surrar o macho – branco – classe média – heterossexual (tô supondo!) – cisgênero – mackenziano. Erraram! Vem cá, Ageu! Deixa eu te abraçar!

O texto de Ageu chega a lugares que minha língua não chega (e olha que ela é grande!), instigando reflexões, lançando a sementinha da reforma, tão cara a nós Reformandxs! Sim, sou filha da Reforma também! Alguns clamam por uma Reforma da Igreja, outros por uma Reforma do Espírito, nós por uma Reforma dos nossos Corpos – Templo do Deus Vivo!

Reformo aqui, tiro ali, escondo acolá, me deformo, não me conformo, mas informo: existimos! E resistimos!

Nessa reforma agrária dos nossos corpos (porque Nancy, a Cardoso, não podia ficar de fora) escolhemos uma Ecclesia por excelência, Babel! “Venham, desçamos e confundamos a língua que falam, para que não entendam mais uns aos outros” (Gênesis 11, 7 NVI). No texto que me motiva a pensar hoje, o autor afirmou: “Vivemos uma Babel linguística, filosófica, política e religiosa nos assuntos relativos à sexualidade humana e modelos familiares. São muitas falas, ruídos, achismos, teses, perspectivas teóricas e ideologias”. Caro Ageu, que delícia! Que lugar diverso, plural, complexo!

Foi na narrativa de Babel, em Gênesis, que quando impedidos de se compreenderem linguisticamente, os povos começaram a se multiplicar! Eles começaram a GERAR! Mais de 20 vezes nesse mesmo capítulo! É muita sarração! E aí eu extravaso! Quando não temos um signo comunicante em comum, usamos nossos corpos. E vamos nos comunicando com aquele que é o maior órgão que temos: nossa pele. Pele, corpo, o grande mistério da Encarnação!

Em algum momento, nessa grande Babel moderna, precisamos nos abrir ao Outro, à Outra. Minha caminhada como sapatão cristã tem me mostrado que, nesse exercício da abertura, mais do que uma leitura coerente, mais do que uma escuta atenta, é necessário que estejamos abertas ao toque! É quando nos percebemos em Babel, sem nada em comum, que nos jogamos nos braços uns dos outros, em busca de conhecer Deus ali, na riqueza da diferença!

Ageu, termino como comecei, com um convite: deixa eu te abraçar! E que nesse abraço eu conheça uma nova face da Santa Ruah, e que você conheça em mim um Deus que também é sexo, pulsão e tesão! Amemo-nos uns aos outros!

[1] Em homenagem às performáticas Ana Luisa Santos e Fernanda Branco Pulse.

Jornalista e teóloga. Doutora em Ciências da Religião (PUC-MG). Pesquisa Religião e Política na perspectiva do ativismo queer. É clériga teóloga das Igrejas da Comunidade Metropolitana (ICM), em Belo Horizonte.

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