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Quando Ustra realmente vive…

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Quando Ustra realmente vive…

Uma das situações mais tristes, indignas e ultrajantes deste processo eleitoral é sermos forçados a explicar que tortura é uma ação atroz, inumana e degradante.

Soa inacreditável que exista quem não apenas apoie políticos declaradamente favoráveis à prática da tortura, mas celebre a abominável memória de torturadores como o coronel Carlos Brilhante Ustra.

Muito antes do relatório da Comissão Nacional da Verdade, o importantíssimo projeto Brasil: Nunca Mais, articulado nos anos 1970 por advogados e jornalistas, com o apoio do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, do pastor presbiteriano James Wright e do Conselho Mundial de Igrejas, expunha tudo com muita nitidez.

O livro publicado pela Editora Vozes, em 1985, sintetiza 900 mil cópias em papel e 543 rolos de microfilmes, de seis anos de trabalho, com documentos de 707 processos da Justiça Militar. Neles eram detalhadas as práticas de violação física e moral de presos nos cárceres das Forças Armadas e da Polícia Política.

Essa, aliás, foi uma das ideias geniais do “Brasil: Nunca Mais”, o uso de documentos oficiais do próprio Estado para comprovar a prática reiterada e institucionalizada da tortura como ferramenta de investigação, repressão e punição durante a ditadura. Sem chance de se usar a palavra da moda e dizer que são Fake News.

Os acervos do “Brasil: Nunca Mais” listam 30 práticas degradantes contra opositores do regime. Havia torturas psicológicas como coações e ameaças de morte aos presos, às esposas, filhos e demais parentes, fuzilamentos simulados, uso de esposas e filhos como audiência das torturas. E mais: os choques elétricos, espancamentos, geladeira, pau de arara e pau louco (roda palmatória), queimaduras de cigarros, sufocamento, afogamento, sevícias, “telefone”, estupros coletivos, introdução de objetos e animais em vaginas e ânus, pendura pelos testículos, pênis pregados em mesas.

A selvageria foi praticada direta ou indiretamente por 377 integrantes das Forças Armadas, policiais federais, civis e militares, delegados e médicos, todos identificados nos processos. Militares britânicos e estadunidenses ofereceram treinamento. Presos comuns e moradores de rua eram usados como cobaias.

É digno de lamento e preocupação que haja cristãos que apoiem quem exalta ainda hoje estas práticas. De fato, nos últimos 25 anos, celebridades midiáticas e o mercado gospel têm incentivado, subliminar ou indiretamente, esta noção.

O ensino é que inimigos da fé, encarnações das potestades do mal, devem ser constantemente combatidos, e eles têm identidades bem concretas relacionadas a indivíduos, instituições e grupos. Se antes eram a Igreja Católica e as religiões de matriz afro-brasileira, depois o comunismo soviético e mais recentemente o Islã, no momento em que vivemos os inimigos da fé são militantes e movimentos por justiça de gênero e partidos de esquerda que os apoiam, especialmente o PT.

Canções como “Pisa na Cabeça do Inimigo/com espada de fogo bota ele pra correr/Pisa, pisa na cabeça do inimigo/que o Espirito Santo vai mostrando o seu poder…” têm sido frequente e repetidamente cantadas, numa educação não-cristã para a eliminação dos diferentes e dos discordantes.

É uma pregação religiosa que despreza a mensagem da cruz, de doação, humilhação, zombaria e martírio, e que se ajusta a uma sociedade marcada pela banalização da violência e por intensas expressões de deterioração das relações humanas.

É preciso permanentemente recordar aqueles cristãos que são fiéis ao Jesus que foi torturado e enfrentou a pena de morte na cruz. Na ditadura foram 28 evangélicos presos por resistirem ao regime de repressão e morte em nome da fé no Deus de amor, misericórdia, paz e justiça.

Destes, 18 foram torturados como restos humanos: um missionário metodista, quatro metalúrgicos metodistas, dois professores (uma metodista e um presbiteriano), um operário deputado estadual presbiteriano, sete estudantes (seis metodistas e um presbiteriano), um sociólogo presbiteriano, um seminarista presbiteriano, um trabalhador rural pentecostal.

São sete os mortos e desaparecidos forçados. Vários foram delatados por irmãos das igrejas e até por seus pastores.

O desafio de hoje é reconhecer que a ditadura e suas degradações não são coisa do passado, ainda existem nas instituições e suas práticas. Por isso, é possível afirmar, sim, que o coronel Ustra vive, mas não como “mito” e sim como um aterrorizante fantasma.

O autoritarismo e o aviltamento ainda são realidade. Permanecem as intrigas e delações, a tortura continua a ser uma ferramenta de investigação e punição, e ainda precisamos perguntar: “Onde está o Amarildo?”, “Quem matou Marielle e Anderson?”

Não podemos cansar de lembrar e trazer a memória à vida, para que haja verdade em busca da justiça.

Esta é a vontade de Deus. Como diz o Evangelho, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8.14). E como insistiam o pastor Jaime Wright e o cardeal D. Paulo Arns: “Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça”.

Fonte: Carta Capital/Diálogos da Fé/24/10/2018

Jornalista, educadora, membro da Igreja Metodista. É doutora em Ciências da Comunicação, mestre em Memória Social e graduada em Comunicação Social (Jornalismo). É autora de "Explosão Gospel. Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico contemporâneo", pela Editora Mauad. É integrante do Grupo de Referência da Peregrinação de Justiça e Paz do Conselho Mundial de Igrejas. É colunista da Carta Capital.

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