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Sobre a arte de permanecer oliveira

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Sobre a arte de permanecer oliveira

Mas eu sou como uma oliveira
que floresce na casa de Deus;
confio no amor de Deus
para todo o sempre.

Salmo 52.8

“Ocupar” é um verbo que tem sido utilizado diferentemente nas relações sociais. “Ocupar” tem sido uma estratégia que visa dar visibilidade a alguém ou a alguma causa. Dependendo do contexto social em que se fala, ocupar pode ter uma conotação positiva ou negativa. Mais recentemente, houve um amplo movimento de ocupação em diversos lugares do mundo. “Occupy Wall Street”, ocupação de espaços públicos na Europa e no Brasil, recentemente, jovens e ativistas têm ocupado escolas, repartições públicas e as ruas, como uma maneira de fazer pressão sobre o poder público e agindo contra iniciativas que contrariam o interesse de parte da população. Este tipo de estratégia não é desconhecida no contexto das lutas sociais. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por exemplo, utiliza a ocupação de terras que não são usadas para a produção como meio político para pressionar pela reforma agrária. Esta prática e estratégia política de “ocupar” se caracteriza, nesta perspectiva, como um ato participativo no espaço público com vistas a transformar a realidade. É democracia participativa, atuação da sociedade civil organizada e de movimentos sociais que procuram interagir com a democracia representativa, políticos e representantes que dentro da ordem democrática contemporânea estão em espaços de poder e de implementação de mudanças.

“Ocupar”, portanto, é — nesta leitura positiva — exercício de cidadania e da responsabilidade diante da sociedade, visando exercer pressão para que demandas populares e coletivas criem impacto e acabem por influenciar as decisões no âmbito da democracia representativa. Sem esta atuação no espaço público, ocupando e apresentando as demandas por mudanças, a ordem política estabelecida tenderá a reproduzir exclusivamente as demandas daqueles interesses privados que financiam campanhas políticas e oferecem benefícios imediatos aos agentes públicos. Em tempos de retrocesso das conquistas sociais e de atropelo dos interesses privados no exercício das funções públicas, “ocupar” é uma das últimas opções que restam à sociedade civil organizada e aos movimentos sociais para se fazerem responsáveis e participativos nos embates públicos e na luta por direitos.

Por outro lado, o verbo “ocupar” ou a ideia de ocupação, sob outras perspectivas, pode ter uma conotação negativa. Enrique Dussel já havia compreendido como a modernidade, e seu modo de produção capitalista, não visam apenas à globalização, mas “Ocupar” a totalidade da existência, do ser. A modernidade enquanto projeto político e civilizacional europeu e o capitalismo, enquanto modo de produção moderno, querem “ocupar” todas as brechas onde ainda não estejam presentes. E não fazem isso por persuasão, mas através de diversos tipos de violências, seja militar, seja cultural, econômica, política, epistemológica e tantas outras. O capitalismo quer ocupar nosso corpo, nossa mente, nossa subjetividade, nossos sonhos, nossa compreensão da realidade. Assim como pretendeu estabelecer o filósofo e economista Francis Fukuyama, o capitalismo é o “fim da história”. Deste modo, o capitalismo ocupa inclusive a totalidade do tempo. Reescreve o passado, como lembra Mia Couto ao constatar a invizibilização da história de outros povos que não sejam europeus, e o futuro, uma vez que não existe — de acordo com os ideólogos do capitalismo — alternativa a esta proposta de civilização.

Desta maneira, a ocupação adquire um caráter negativo, violento e ameaçador. Um exemplo bem claro disso é a ocupação militar que o Estado de Israel promove nos territórios palestinos (Cisjordânia e Gaza) e nas colinas de Golan. Trata-se do único Estado que — após a Segunda Guerra Mundial — continua impondo uma invasão colonial desde 1967 — construindo assentamentos fora de seu território e com ocupação militar — o que já vem sendo reiteradamente condenado pela ONU e por diversos países. A Palestina tem sido considerada um “microcosmo” que demonstra com clareza como o projeto colonial moderno, capitalista, ocidental e eurocêntrico, racista e sexista, se impõe com violência militar, utilizando a mídia como meio de fazer prevalecer sua narrativa e, por fim, valendo-se das instituições políticas internacionais como arena para perpetuação de sua ocupação e domínio — o que corrobora com o atual descrédito das instituições políticas e democráticas contemporâneas e a sua falaciosidade.

A ocupação da Palestina é uma prova do triunfo deste projeto de civilização ocidental capitalista neoliberal e da falência da ordem política internacional e sua proposta de vivência de valores como “democracia” e “liberdade”. No entanto, o povo palestino resiste e permanece em suas terras, resilientemente suportando 50 anos de ocupação militar e os constrangimentos dela decorrentes. Como afirma o teólogo palestino Mitri Raheb, enquanto diversos impérios ocuparam a região histórica da Palestina impondo condições de vida adversas ao povo nativo daquela região, a história nos relega e demonstra que a resistência do povo palestino sempre prevaleceu. O povo palestino, gente nativa daquela terra, continua ocupando aquele espaço, teimando contra aqueles que sempre tentam convencer o mundo de que são os legítimos proprietários daquela terra. Esta experiência de resiliência e resistência do povo palestino nos surge como um exemplo, uma lição, um aprendizado. Trata-se da cultura do cultivo das oliveiras.

Resistir como as oliveiras

As oliveiras são pequenas árvores com galhos retorcidos que geram as azeitonas como fruto. Seu formato e desenho estão relacionados às condições de escassez de água e de calor em excesso em que as oliveiras encontram seu habitat natural. Os galhos das oliveiras são o símbolo da paz, pois representam o fim do dilúvio e a nova experiência de convívio reconciliado entre Deus e sua criação (Gn 8). Por outro lado, as oliveiras resistem em situações climáticas extremas por muitos tempo e geram seu fruto que dá sustentabilidade para muitas pessoas. Existem oliveiras que vivem há mais de 2.000 anos e ainda permanecem dando frutos. Jó via nas árvores um grande exemplo de razão para a esperança: “Para a árvore pelo menos há esperança: se é cortada, torna a brotar, e os seus renovos vingam.” (Jó 14.7) Assim, a oliveira constituiu fortemente a identidade do povo hebreu, da população nativa palestina há milênios, e faz parte do imaginário que está presente na ideia de esperança que veio até a tradição cristã. A oliveira enquanto símbolo que forma a identidade cultural do povo palestino há milênios permitiu a este suportar resiliente o jugo de diversos impérios que se constituíram e foram derrotados, enquanto que as oliveiras, assim como o povo que com ela aprende, resistem e permanecem ocupando a terra.

Ocupação e permanência são, portanto, duas noções que se imbricam. Quando que a ocupação, enquanto noção positiva, é de fato permanência? E quando que a ocupação, enquanto noção negativa, é uma violência externa que requer a capacidade de resistir e ser resiliente? A oliveira é uma boa metáfora para pensarmos biblicamente nas estratégias de luta por justiça e igualdade no contexto do capitalismo contemporâneo. As oliveiras palestinas permaneceram firmes, ocupando as colinas quando os babilônios levaram a elite do povo hebreu ao exílio. As oliveiras palestinas permaneceram dando seus frutos quando a esperança triunfou através do imperador Ciro, que trouxe liberdade religiosa ao povo hebreu. As oliveiras palestinas permaneceram no monte em que Jesus orou e foi preso para sofrer seu julgamento e morte. As oliveiras palestinas permaneceram quando os discípulos foram inspirados pelo Espírito a levar o evangelho ao mundo. As oliveiras palestinas observaram o ocaso do Império Romano e a ascensão do império muçulmano. As oliveiras palestinas viram os Turco-Otomanos perderem o domínio político para os ingleses após a Primeira Guerra Mundial. As oliveiras palestinas observaram o desembarque das tropas israelenses em 1948 e a ocupação dos territórios por um povo estranho. Hoje em dia, a ocupação e seus agentes desenraizam e queimam oliveiras como ofensa e como estratégia de violência simbólica àquele símbolo mais subversivo da resistência palestina. Mesmo queimadas e às vezes replantadas ou plantadas as oliveiras permanecerão porque são parte daquele cenário, daquele contexto, daquela composição geográfica. Por mais insidiosos e invasivos que sejam o projeto moderno e o capitalismo, a vida sempre ressurge e a memória subversiva da resistência e da resiliência sempre ressurgem. Justamente por isso as oliveiras são símbolo da esperança.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as lutas contemporâneas

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas cristalizam e, por vezes, agrupam clamores de lutas que emergem da sociedade civil e dos movimentos sociais. Evidentemente, as lutas sociais extrapolam e por vezes interpelam criticamente os ODS, mas de modo geral é possível reconhecermos clamores das lutas populares naquilo que é visualizado como objetivo de desenvolvimento sustentável. Objetivos, a título de exemplo, como:

1 – Erradicação da pobreza

2 – Fome zero e agricultura sustentável

4 – Educação de qualidade

5 – Igualdade de gênero

6 – Água potável

10 – Redução das desigualdades

11 – Cidades e comunidades sustentáveis

16 – Paz, justiça e instituições eficazes

Todos estes objetivos de desenvolvimento sustentável acabam por resultar da articulação de demandas populares, através do processo de cristalização de suas pautas nas instituições representativas. Trata-se da democracia participativa dando conteúdo à democracia representativa. Por esta razão, “ocupar e permanecer” no espaço público, tal qual as oliveiras palestinas, é fundamental para a obtenção e manutenção dos direitos sociais. Neste sentido, o espaço público se tornou, mais que nunca, uma arena em que se disputam pautas e agendas, em que se disputam a consolidação e avanço ou o retrocesso dos direitos, a melhoria das condições de vida para toda sociedade ou a prevalência dos interesses privados e a ganância pelo lucro que caracteriza a atuação daquelas pessoas que se encontram em posições de poder hoje. Se o capitalismo neoliberal invade o espaço público e o privatiza para benefício de poucos, nossas paixões, desejos, sonhos e esperanças devem por sua vez permanecer, não arredar pé e ocupar, dando visibilidade às vidas humanas que são atropeladas e perdem sua dignidade a cada dia que passa.

Que sejamos oliveiras, que permanecem e lutam contra a miséria, contra a pobreza e contra um sistema econômico que explora o corpo, o trabalho e desapropria tudo aquilo que se tem como meio para manutenção da vida. Que sejamos oliveiras e permaneçamos firmes na denúncia do sistema econômico que se constrói sobre a desigualdade. A desigualdade econômica e social e de acesso aos meios de produção, mal endêmico que atrasa o desenvolvimento humano em todos sentidos e condena aquelas pessoas historicamente marginalizadas à falta de alternativas.

Que sejamos oliveiras que lutam contra a fome, contra o agronegócio, contra a monocultura, contra a destruição do solo e do ambiente, contra o envenenamento do nosso alimento. Que sejamos firmes oliveiras na luta pela terra, pela reforma agrária, pela valorização da agricultura familiar e pelas práticas de cultivo que cuidam do solo, da vida, do ambiente, dos ciclos de produção, de modo que democratize o acesso ao alimento e à manutenção da vida de modo sustentável, gerando riqueza equitativa. Que sejamos firmes oliveiras contra o lobby político das bancadas ruralistas, contra a violência, perseguição e violação dos direitos das comunidades indígenas. Que ocupemos os espaços públicos na defesa e na consolidação da demarcação das terras indígenas, roubadas a tiros por fazendeiros famigerados por lucro.

Que sejamos firmes oliveiras que ocupam e permanecem nas escolas e nas ruas, demandando educação pública de qualidade e acessível a toda população. Que permaneçamos oliveiras que lutam contra o genocídio da juventude negra e todas as formas de racismo, contra a criminalização e a favor do protagonismo da juventude e pelo cuidado e promoção da infância. Que sejamos como oliveiras que permanecem na luta pela defesa da diversidade, na inclusão das pessoas com deficiência e consideradas diferentes pela sociedade homogeneizadora. Que ocupemos firmemente o espaço público contra todo tipo de intolerância, seja de matriz cultural, religiosa e geográfica, como aquela que se vê em todo tipo de xenofobia e racismo.

Que sejamos oliveiras firmes que permanecem e ocupam o espaço público na denúncia e superação da violência doméstica e contra a mulher. Que sejamos pessoas promotoras da liberdade e do respeito à diversidade sexual e de gêneros, permanecendo como oliveiras na defesa da pessoas LGBTs, contra a violência e morte resultantes da cultura patriarcal e machista. Que permaneçamos como oliveiras na luta pela igualdade de gênero, pela justiça de gênero e na promoção do acesso de mulheres a espaços de exercício de poder, visando a liberdade e a igualdade na valorização do trabalho das mulheres.

Que sejamos como as oliveiras palestinas no que diz respeito à manutenção do espaço público como espaço de todas as pessoas e todas as formas de vida. Que permaneçamos resilientemente defendendo a liberdade e a democracia nos espaços urbanos, no manejo e administração das nossas cidades, contra todo tipo de limpeza étnica, remoção em massa para invizilibilizar a pobreza em bolsões de miséria, contra o triunfo do capital no espaço público, na luta pela manutenção de espaços de convivência e na interação saudável e respeitosa entre as pessoas, parte do ambiente, e as outras formas de vida. Que possamos permanecer no espaço público vivendo a cultura e aprofundando o sentido da experiência e da interpretação da vida humana contextualizada no nosso espaço de vida.

Para concluir, que possamos ser como as oliveiras palestinas a permanecer no espaço público, teimosamente esperançosos pela mudança nas instituições que deveriam servir à sociedade, que sejamos teimosamente esperançosos no aprofundamento da democracia, vivida participativa e radicalmente com o protagonismo dos coletivos humanos que carregam em si as diferentes identidades, cores, culturas e histórias. A esperança das oliveiras e sua sabedoria sempre levam-nos a reafirmar a fé em Deus que promove a justiça e que veio ao mundo em Jesus para viver e inaugurar seu reino de justiça. Que nós possamos ser como estas árvores que se alegram com a justiça de Deus.

Então as árvores da floresta
cantarão de alegria,
cantarão diante do Senhor,
pois ele vem julgar a terra.
1 Crônicas 16.33

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