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Transexualidade: Desafio para a Teologia e para a Igreja

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Transexualidade: Desafio para a Teologia e para a Igreja

Transexualidade: Desafio para a Teologia e para a Igreja

“Por que nos incomoda tanto quando Deus não leva em conta as leis formuladas pelos seres humanos?” (Regina Quinn, teóloga, Universidade de Tübingen, 1957)

Transexualidade é uma incongruência inerente da autopercepção sexual em relação ao sexo atribuído no nascimento. Ela pode acompanhar a necessidade urgente de equiparar o modo de vida e o corpo com o do sexo que determina interiormente. A transexualidade foi considerada durante muito tempo um grave distúrbio psíquico. Essa avaliação errônea levou a uma discriminação massiva e à violência contra pessoas transexuais. No entanto, sob a influência das pesquisas neurocientíficas e das ciências da vida, ocorreu uma mudança de paradigma nas últimas duas décadas.

Transexualidade não é uma doença psíquica, mas uma variante individual da sexualidade humana. O processo de conscientização dessa discrepância corpo-gênero pode estar associado a considerável sofrimento psicológico para as pessoas em causa. Muitas vezes há sérios impactos, incluindo, entre outros, parceria e família. Também inclui o fato de as pessoas transexuais serem dependentes de médicas e médicos, psicólogas e psicólogos, para a realização de suas vontades particulares. Transexuais raramente têm o respeito necessário frente à autodeterminação sexual e sua consideração fundada na dignidade que todo ser humano merece.

A visão alterada de gênero representa, sem dúvida, um enorme desafio para a teologia e a Igreja, pois a suposição da natureza do ser humano em dois sexos e o dualismo “homem” e “mulher” a ela associado formam aparentemente uma determinação dada por Deus e, portanto, determinante da vida na imagem humana cristã tradicional.

A teologia e a Igreja, ao querer orientar para o debate com tarefas e discussões atuais, não se fecham para teorias mais recentes de conhecimentos não teológicos e para as realidades sociais, mas as incluem em questões ético-teológicas.

Pessoas que se encontram para além ou entre os dois sexos, e foram, até então, apagadas ou excluídas, não devem ser entendidas como discrepâncias errôneas do “normal”, mas como uma expressão da diversidade da Criação.

Criação

Perspectivas teológicas

Lendo de novo – textos bíblicos para entender a diversidade de gênero

A Bíblia é uma biblioteca de textos de muitos séculos e das mais variadas situações sociais, que oferecem diferentes perspectivas e pontos de vista. A Bíblia também é lida em diferentes situações – fornece, portanto, respostas distintas. No entanto, a Bíblia tem um centro: o encontro de Deus com os seres humanos e sua parcialidade libertadora para com os/as marginalizados/as sociais, econômicos ou culturais. A lei e a justiça são a marca essencial de Deus no Antigo e no Novo Testamento –, portanto, sua defesa amorosa dos (ainda) impotentes. É importante descobrir o grande potencial de esperança e libertação da Bíblia para todas as pessoas.

O ser humano como ser físico

Os textos bíblicos atêm-se positivamente à corporalidade do ser humano. O ser humano é criado “do pó da terra” (Gênesis 2.7) e nunca se torna um ser puramente espiritual em algum momento histórico. Os seres humanos são vulneráveis e transitórios; todas as suas experiências, sensações, relacionamentos, seus pensamentos e, principalmente, seu amor e compaixão, são moldados por seu corpo (Hebreus 13.3: “Lembrem-se dos presos, como se vocês estivessem na prisão com eles. Lembrem-se dos que são torturados, pois vocês também têm um corpo.”).

O corpo faz parte da identidade e é muito mais do que apenas uma ferramenta do espírito ou da alma. Faz parte do ser humano construir um bom relacionamento com seu próprio corpo e com o meio ambiente.

O ser humano como imagem de Deus

“E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou como homem e mulher.” (Gênesis 1.27, cit. segundo a tradução da Bíblia de Lutero, 2017)

Gênesis 1.27 em traduções selecionadas

“Deus criou o homem como sua imagem, como imagem de Deus Ele o criou. Masculino e feminino Ele os criou.” (Tradução Ecumênica Alemã Revisada, 2017)

 “Então Deus criou Adão, os seres humanos, como imagem divina, como imagem de Deus eles foram criados; masculino e feminino Ele, Ela, Deus os criou.” (Bíblia em língua adequada, 2006)

 “E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; Ele os criou masculino e feminino.” (Bíblia-Schlachter, 1951)

 “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus Ele o criou, masculino, feminino Ele os criou.” (Buber-Rosenzweig, 1929)

Por um longo tempo esse versículo da Bíblia foi entendido como uma restrição normativa do ser humano a dois sexos, em vez de uma descrição explicativa de duas características. A tradução redutora por “homem e mulher” (a expressão hebraica corresponde a: “[…] masculino e feminino Ele os criou”) promoveu na tradição da interpretação um foco que o conteúdo deste texto não consegue exprimir totalmente, nem objetiva nem linguisticamente. Pois a determinação do ser humano à imagem de Deus (Gênesis 1, 27a+b) é associada em um segundo momento com a explicação de que a espécie ser humano foi criada “masculino e feminino” (Gênesis 1.27c).

Uma reaproximação dessa passagem bíblica importante pode contemplar aspectos cristológicos (por exemplo, Gálatas 3.28: “Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo”) de uma perspectiva cristã. Além disso, também é possível recorrer à riqueza de variantes na história de sua recepção.

Por um lado, é preciso pensar nas primeiras especulações judaicas e rabínicas sobre a androginia do homem pré-histórico. Assim diz no Midrash Bereschit Rabba, do século V: “Quando o Santo, que é abençoado, criou o primeiro ser humano, ele o criou andrógino, pois está dito: masculino e feminino Ele os criou” (BerR 8.1). Por outro lado, pode-se pensar na distinção de uma “dupla” ou “criação dupla” do ser humano na teologia da Igreja do Oriente. Segundo Gregório de Nissa (c. 335-394), por exemplo, o ser humano foi criado primeiramente como um ser espiritual andrógino e só então em sua corporalidade e sexualidade. No ser humano andrógino, ainda não sexualmente diferenciado, é vista a imagem de Deus (Tratado sobre a estrutura do ser humano [De opifício hominis], cap. 16).

Expandir perspectivas

Portanto, a criação do ser humano como imagem de Deus pode ser interpretada de maneiras muito diferentes:

  • Feminilidade e masculinidade, como no próprio Deus, também podem ser encontradas em um único indivíduo.
  • Dizem que todos os outros seres vivos foram criados “segundo a sua espécie”. O ser humano, por outro lado, é criado “à imagem de Deus”: Deus começa uma história com o ser humano. Assim, a história da criação não determina o ser humano (sexualmente), mas narra sobre seu futuro aberto. Segundo a vontade de Deus, a “natureza” não dita a vida humana. Isso também é evidente nas muitas histórias bíblicas nas quais Deus se serve da natureza ou também supera as leis da natureza para libertar as pessoas.
  • A diversidade é esperada: Gênesis 1.27 afirma que há diferenças entre os seres humanos, mas levanta uma questão: como pessoas tão diferentes podem ser a imagem da unidade de Deus? Os seres humanos são criados juntos em um movimento que visa, desde o início, à reconciliação, e se tornar um; portanto, a superação da demarcação e das relações de poder.

Nova criação em Cristo

Segundo Paulo, em Cristo já estão superadas as fronteiras e hierarquias entre os seres humanos. Em um texto até hoje visionário, ele descreve a nova criação: “Pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, revestiram-se de Cristo. Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre masculino e feminino: pois todos vocês são um só no Messias Jesus.” (Gálatas 3.27s., cit. segundo a Bíblia em língua adequada).

Paulo vê o reino de Deus surgir na comunidade cristã, em que as fronteiras anteriores são superadas: nacionais, culturais e sociais – e até mesmo de gênero. Mesmo que ele próprio não cumpra rigorosamente essa afirmação, estabelece o terreno mental para romper imagens rígidas de mulheres e homens, e libertar pessoas de restrições de papéis, gênero, casamento e padrões paternos.

O quão abertamente Paulo pensa fica claro aqui quando remete a si próprio, apenas alguns versículos adiante, a imagem do corpo de uma mulher, escrevendo: “Meus filhos, por quem de novo sinto as dores de parto” (Gálatas 4.19).

“Ainda não se manifestou o que havemos de ser…” (1 João 3.2)

Os autores e autoras da Bíblia calculam que ainda há algo para o futuro da humanidade. Eles experimentam – e nós experimentamos – o mundo existente como desastre. Dominação, opressão e exploração caracterizam o tratamento dado à terra e a convivência entre as pessoas.

Isso também afeta aqueles que não estão em conformidade com as normas (de gênero); contrasta com a esperança de um mundo no qual as pessoas se desenvolvem e se expressam livremente, fortalecendo-se e se respeitando mutuamente.

Respeito

Aqueles e aquelas que não se enquadram nas normas (de gênero) são testemunhas do fato de que Deus não se atém às regras dos seres humanos; porém, criou cada pessoa de modo singular e magnífico.

Elas não são doentes, estranhas ou bizarras, mas incentivos às mudanças necessárias na Igreja e na sociedade. Interesse mútuo, respeito e valorização da diversidade são as pedras basilares no caminho rumo a um mundo melhor.

* Texto extraído do manual “Criado à imagem de Deus – Transexualidade na Igreja”, realizado pelo Grupo Justiça de Gênero da Igreja Evangélica em Hessen e Nassau, Alemanha. A Associação Kreuzweise-Miteinander e a Igreja Evangélica na Alemanha (Evangelische Kirche in Deutschland – EKD) foram responsáveis por promover generosamente a tradução do manual para o português.

O Evangélicxs pela Diversidade é uma rede que reúne pessoas LGBTI e aliadxs que se identificam como evangélicas e que entendem que a diversidade sexual e a identidade de gênero devem ser celebradas como expressões da fé e espiritualidade, e que independente do gênero ou sexualidade, as comunidades de fé podem ser um lugar seguro para todxs.

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