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A não violência e a “ditadura gay”

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A não violência e a “ditadura gay”

A não violência e a “ditadura gay”

Mark Kurlansky escreveu um livro seminal. Chama-se Não violência: a história de uma ideia perigosa. Nele defende que a não violência é mais efetiva que a violênciao contrário do que estamos acostumados a ouvir e repetir. Nos bancos escolares, na família e na sociedade ouvimos insistentemente que aquele que se impõe pela força assumirá as rédeas da história porque terá provavelmente conquistado o poder. Já virou clichê comentar o fato de que apesar de toda a percepção de direitos e dignidade humana inscrita em leis nacionais e internacionais, ainda temos que enfrentar a mentalidade violenta e egoísta que promove guerras e impõe injustiças indesculpáveis. Uma anedota recente circulada no Twitter diz: Na última semana beatificamos um papa, casamos um príncipe e matamos um mouro na Cruzada contra o terrorismo. Bem-vindos à Idade Média!”.  

Não é possível colocar a culpa nos políticos — outro clichê muito comum — já que a violência é moeda corrente nas ruas e nos lares. Alimentam-se preconceitos, praticam-se discriminações, xinga-se, agride-se, abusa-se, mata-se. Por muito e por pouco. Para afirmar-se e para, simplesmente, negar ao outro algum espaço. Para suprimir a vontade alheia ou para demonstrar superioridade física ou moral. Até para proteger a coletividade, diz-se. As razões não se compreendem totalmente, mas as modalidades de violência já têm sido escrutinadas e classificadas. E são de uma variedade de dar inveja aos botânicos.  

A violência é uma ideia e uma atitude que em tese todos rejeitamos. Sobretudo nós cristãos que assumimos o seguimento de alguém que viveu e morreu para trazer paz porque foi entitulado como Príncipe da paz. Seus ensinos e sua prática apontam na direção do amor que não julga, não discrimina, não fere, não abusa e não mata. Ao contrário do que se poderia esperar de um messias judeu, sofreu mudo, morreu sem conclamar seus seguidores ao uso da espada, exigiu entrega e serviço compassivo, pregou a não resistência e o amor, mesmo ao inimigo. Uma de suas sínteses mais conhecidas foi a chamada Regra de Ouro: “Façam aos outros o que querem que eles façam a vocês; e para não deixar dúvida reafirmou outra importante síntese do Antigo Testamento, o Grande Mandamento: “Ame o teu próximo como a ti mesmo”.  

Ao longo do livro, mas sobretudo nos primeiros capítulos, Kurlansky repertoria o tratamento que as grandes religiões deram à não violência. Sua conclusão: todas apontam para o caminho da não violência como o caminho perfeito, mas reconhecem a ambiguidade da caminhada humana. É claro que algumas religiões também têm suas ambiguidades no tratamento desse tema como estão demonstradas na história. Nesse caso, é forçoso reconhecer com Kurlansky que “a religião e sua linguagem têm sido cooptadas por pessoas violentas”, ao invés de manter-se enraizada no ideal da não violência como expressão do amor e do respeito aos outros  

O fracasso do cristianismo em manter-se firmemente enraizado nos ensinos de amor, paz e não violência que Jesus viveu, pregou e recomendou como estilo de vida aos que desejavam lhe seguir começou quando Constantino, o imperador romano do século 3º., tornou-se cristão. De antimilitaristas, pacifistas radicais, defensores da não violência, a hierarquia da igreja passou a excomungar aqueles que rejeitassem entrar nas fileiras do exército imperial no seu projeto de conquista. Daí para que Agostinho de Hipona, no século 4º., elaborasse uma teologia nomeada da “guerra justa” e as cruzadas fossem justificadas como “guerras santas”, a partir do século 11º., foi um desenvolvimento lógico.   

A história ocidental, no que diz respeito ao uso da violência e da guerra como linguagem do poder e da redenção, vai apenas se desdobrando e se repetindo na esteira da ideia de “guerra justa” e da lógica da conquista do mundo “para Cristo”, que levou o Papa Urbano II a liderar a primeira Cruzada contra os “sarracenos”. O capítulo mais recente dessa história é bem conhecido e se chama guerra contra o “eixo do mal”, e reveste-se da mesma linguagem da violência redentiva e da “guerra justa” de Agostinho e Urbano II (assumidas, diga-se de passagem, pelos reformadores Lutero e Calvino). 

Faço essa breve digressão sobre o lugar da violência e da não violência na narrativa humana ideia muito perigosa que torna seus advogados e ativistas inimigos do Estado, conforme Kurlansky  e os desdobramentos posteriores na naturalização da violência e da guerra por parte das igrejas (com pouquíssimas exceções!) como resultado de sua aliança com o Estado, para comentar a recente articulação e convocação de certos pastores e líderes evangélicos ─ e também católicos (ecumenismo conservador, pasmem!) ─ a uma união contra a “ditadura gay”, a “iniquidade institucionalizada” e a “heterofobia” do movimento LGBT e dos simpatizantes de sua causa.  

Gostaria de fazer algumas observações importantes que,  no meu ponto de vista, poderiam nos ajudar a criar uma relação menos belicosa e mais proativa: 

1. A lógica dos movimentos sociais é expressar insatisfação com direitos negados, seja denunciando-os seja pressionando instâncias públicas para que eles sejam assegurados. Movimentos sociais não existem se não existir cidadãos e cidadãs que experimentam a negação de seus direitos fundamentais por parte da sociedade ou do Estado. Falamos aqui de cidadania, não de privilégios. O movimento LGBT é um reconhecido movimento social da sociedade brasileira que vem ganhando cada vez maior visibilidade e apoio da opinião pública pelas bandeiras cidadãs que defende. Tanto a bandeira da luta contra a homofobia, quanto o reconhecimento das uniões homoafetivas são demandas legítimas porque ancoradas na proteção e linguagem dos direitos, direitos já outorgados e assegurados à maior parte da população. A luta contra a discriminação e violência e pela igualdade de direitos nesse caso não precisam de elaborações teológicas para justificá-las. Como o Estado é laico, a religião não pode ser afiançadora de regras ou doutrinas que só cabe a ela e a seus membros. Vale a máxima “Dai a Cesar o que é de Cesar, a Deus o que é de Deus”. 

2. A veemência com que os movimentos sociais expressam a insatisfação com direitos que lhes são negados é proporcional à força com a qual a sociedade impõe uma situação injusta ou aos danos causados pela privação, discriminação, violência ou abuso cometido contra o segmento representado por determinado movimento social. Sendo composto por diferentes organizações e atores, diferentes tendências e tipos de ativismo e estratégias serão encontrados: alguns mais confrontacionais, outros mais proposicionais. O Movimento LGBT recorre a diferentes táticas e estratégias de pressão para fazerem valer sua cidadania negada. Se o Movimento LGBT, como todo movimento social, usa estrategicamente e se expressa numa linguagem denunciatória a fim de externar seu descontentamento e frustração, por que líderes e pastores evangélicos deveriam temer e reagir como se eles fossem inimigos preferenciais, acusando-os de quererem promover uma “ditadura gay” e de terem um comportamento dito “heterofóbico”? Por princípio, todo movimento social dirige suas demandas ao Estado, que é o garantidor e promotor dos direitos fundamentais. Os evangélicos, nesse caso, não deveriam se juntar ao Movimento LGBT a fim de fazer valer direitos civis (como é o caso da homofobia que resulta em violência e morte de homossexuais) e de direitos cíveis (como é o caso dos direitos de herança e pensão, entre outros)? Não deveríamos engrossar a fileira dos que reclamam justiça de um Estado e sociedade reticente a acertar suas dívidas sociais?  Como teremos uma sociedade justa, harmoniosa e segura, se existem pessoas com seus direitos fundamentais negados? Continuaremos a fazer ouvido surdo ao clamor de milhares de brasileiros e brasileiras que têm suas vidas ameaçadas ou desrespeitadas?

3. O uso de termos como “ditadura gay” e “heterofobia” expressa uma estratégia discursiva totalmente leviana e mal-intencionada. Representa o que há de pior na hipocrisia religiosa para afirmar-se no poder; é o uso da violência simbólica de uma linguagem que quer usar “o feitiço contra o feitiçeiro”, mas esquece que são os homossexuais que sofrem diariamente a discriminação, o preconceito e a violência que não raro termina em homicídio. Como é possível querermos calar quem é abusado, discriminado ou assassinado porque expressa sua sexualidade de maneira distinta da maioria? Como negar direitos de herança e pensão a parceiros que viveram juntos numa relação estável e construíram patrimônio durante parte de suas vidas? Seremos como os fariseus e os mestres da Lei apontando violentamente a letra, sem o Espírito da vida?

A não violência não é uma opção, mas um imperativo ético, central no evangelho de Jesus. Uma coisa é não aprovar um determinado estilo de vida ou defendê-lo de acordo com nossas crenças religiosas, outra é condená-lo à violência e ao desamparo jurídico quando direitos básicos lhes são negados. Vale a advertência de Deus ao povo de Israel aos líderes evangélicos: “Lembra-te de que te tirei da terra do Egito”. Há um pouco mais de 100 anos, os evangélicos não podiam expressar publicamente sua fé já que o Estado brasileiro era oficialmente vinculado a uma só religião, a católica.     

Termino conclamando os evangélicos a que sejam exemplos de virtudes cívicas que são a base de sociedades democráticas e plurais. Através delas, aprendemos a nutrir e a avançar no entendimento mútuo e na descoberta de valores compartilhados que promoverão o bem comum. Infelizmente, nós evangélicos não temos sido reconhecidos como campeões das virtudes cívicas num país de tantos pecados públicos.  Deixo algumas sugestões de atitudes que poderiam nos levar a outro patamar de diálogo com o Movimento LGBT e a parcela da sociedade brasileira que apoia a extensão de direitos civis e cíveis aos homossexuais. 

1. Sentem na mesa com lideranças e ativistas do Movimento LGBT para conhecerem e considerarem a legitimidade de suas demandas, ouvirem suas vozes em clima de respeito mútuo, e também apresentarem as visões presentes entre os evangélicos. Foi dessa maneira que Martin Luther King, Jr. e outros grandes campeões da luta por direitos civis nos EUA e em outros países levaram suas causas: com humildade, com senso de justiça e respeito por aqueles com os quais não partilhava os mesmos valores; 

2. Precisamos diferenciar agendas que podem ser descoladas para que acordos pontuais possam emergir: juntar-se e apoiar já o Movimento LGBT na luta contra a homofobia deveria ser considerada seriamente pelas lideranças evangélicas num gesto importante de que não são mesmo homofóbicos como parcelas do Movimento LGBT suspeitam; enquanto que o apoio às uniões homoafetivas deve ser levado mais a sério e visto como inclusão cidadã, e não como um direito que ameaça a liberdade religiosa. Os evangélicos precisam superar o complexo de religião minoritária e aprender a usar outros óculos na leitura da sua relação com a Igreja Católica, as outras religiões, o Estado brasileiro e outros segmentos da sociedade. 

3. Eliminem da linguagem todo tipo de palavra que seja ofensiva ou sarcástica e orientem outros pastores, membros e líderes a fazerem o mesmo; a linguagem no debate sobre o PL122 e o reconhecimento das uniões homoafetivas está carregada de significados que podem gerar reações violentas. Assumamos como princípio na esfera pública o mesmo princípio que assumimos nas nossas relações pessoais: o amor, o respeito e a não-violência. 

4. Utilizemos esse debate como uma oportunidade de aprender como podemos e devemos interagir na esfera pública, e como podemos incorporar certas virtudes cívicas como componentes fundamentais de nossa fé e espiritualidade (por exemplo, o respeito mútuo, a escuta, a participação cidadã, a mediação de conflitos, a inclusão de segmentos marginalizados, o diálogo etc). Na relação mais imediata com organizações e atores locais elas poderiam ser aplicadas para fortalecer a participação da população na resolução de problemas comuns e combater a tradicional apatia e indiferença com a coisa pública em grande parte das nossas comunidades. 

5. Está na hora de interagir com políticos evangélicos de uma forma republicana, não sectária; chega de serem tratados como despachantes dos nossos interesses nas casas legislativas. É necessário ampliar a relação com a Frente Parlamentar Evangélica para que ela possa estar atenta às diferentes posições sobre o tema no seio da própria comunidade evangélica, à custa de se inutilizar ou se apropriar indevidamente do termo “evangélico”. É preciso dialogar com nossos parlamentares para que demonstrem a virtuosidade evangélica na esfera pública dando exemplo de civilidade, respeito mútuo, escuta e diálogo, não se deixando sequestrar pela agenda de líderes evangélicos oportunistas, que fazem carreira em cima de controvérsias públicas. É hora de assumir posição e ostracizar os que se arvoram em representantes do povo evangélico e se locupletam em cima de posições extremadas e violentas para o seu próprio benefício pessoal, manipulando os fiéis conforme a “bola da vez”.    

É fato que a religião evangélica tem ganho mais espaço em diferentes setores da sociedade brasileira, entre os quais a mídia e a política. Por que não usá-lo para defender causas que construam uma reputação de compromisso com leis justas e fazer reverberar a voz dos que têm seus direitos negados, dos que são discriminados e são vítimas de um sistema que destrói a esperança? Quem sabe assim verão nossas boas obras e glorificarão nosso Pai que está nos céus. 

Antropólogo, com pós-doutorado pela Universidade de Montreal (Quebec), ativista de direitos humanos e editor da Novos Diálogos. Idealizador do Festival Reimaginar. Organizou com Clemir Fernandes a coletânea "Reimaginar a Igreja no Brasil: 40 Vozes Evangélicas". Foi secretário executivo da Aliança de Batistas do Brasil e atualmente trabalha com consultoria a organizações baseadas na fé em temas de direitos humanos, coordenando diferentes iniciativas através da Plataforma Intersecções.

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