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Aos evangélicos “progressistas”: Não é mais possível se esconder atrás de nossas contradições

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Aos evangélicos “progressistas”: Não é mais possível se esconder atrás de nossas contradições

Aos evangélicos “progressistas”: Não é mais possível se esconder atrás de nossas contradições

“Nem todo evangélico é fundamentalista”. Ainda que seja verdade, o conjunto de acontecimentos que tem sido regra está forçando um posicionamento mais radical das exceções. Sei bem, e muito bem, que estamos lotados de exemplos que mostram que há evangélicos e evangélicas cujas práticas, mais que suas pregações, inspiram outras pessoas a, no mínimo, ver o Evangelho, e a igreja, com outros olhos. Olhos esperançosos de um lugar comunitário e amoroso que quer acolher pessoas sem a cartilha pesada do “venha como estás, mas seja como nós”. Todavia, no campo macro da esfera pública, no campo macro da política em sociedade, as derrotas daqueles e daquelas que querem radicalizar na comunicação de um Evangelho libertador, desinteressado do controle e do proselitismo, tem sido de amargar o sagrado coração de Jesus.

Dizer “evangélico progressista” parece não dizer mais com precisão sobre irmãos e irmãs que escolheram radicalizar contra a apropriação totalitária do Evangelho feita pelo campo conservador que a cada dia toma gosto por “tocar o terror” histericamente nas redes sociais, nas tribunas do parlamento e nos púlpitos.

Discutir sobre o aborto sem se permitir continuar refém da hipócrita afirmação de “defesa da vida”, quando só “algumas vidas”, dentro de certos contextos, interessam ser defendidas, é uma covardia, e preservação da autorreputação.

Discutir a política de drogas (seja descriminalizar, seja legalizar), sem tocar nos efeitos que ela tem sobre a segurança pública empreendida nas periferias e favelas, é falsa compaixão. Continuar aceitando uma pregação pública de “combate às drogas”, quando na verdade o que se está sendo combatido são majoritariamente pobres e pretos que usam ou vendem de maneira varejista, é um pecado conivente, homicida.

Ficar encontrando formas de falar sobre acolher gays e lésbicas desconversando quando alguém pergunta se “gays vão ser salvos”, já podia ser fase superada ao menos para os progressistas. Gays não vão pro inferno, gays não são abominações, e pessoas do mesmo sexo devem se casar sem essa hipocrisia de que nós não devemos hostilizar mas não podemos aceitar. Aceitar o que? Que o princípio do amor, critério único pelo qual Jesus diz que reconheceremos aqueles que são seus discípulos, não vale nada, pode ser jogado no lixo, se um homem se apaixona e assume relacionamento com outro homem e uma mulher com outra mulher?

O que é ser progressista e alheio à força dialogal do esforço ecumênico e inter-religioso? Em tempos de intolerância e radicalização da demonização das tradições não judaico-cristãs, o macroecumenismo deveria ser credo. É sensato silenciar sempre diante das mortes no campo e condenar de imediato a ocupação de terras num país de concentração de terras vergonhosa?

O campo progressista evangélico está se tornando um balaio de gatos para onde a direita ultra-conservadora no Brasil parece ter conseguido enfiar todos os evangélicos que não estão dispostos a assumir uma pauta ultra-conservadora. E ainda há liderança evangélica progressista que teme ser taxado de marxista. Antes fosse. Mas sabe que não é, e nem quer correr o risco de ser considerado.

Enquanto o campo neocalvinista abraça a Escola Austríaca de economia e sua praxiologia individualista e do livre mercado levado ao limite em todos os sentidos; enquanto o campo pentecostal moralista-conservador alimenta Bolsonaro de unções e orações; definitivamente, não é mais possível nos escondermos atrás de nossas contradições contidas no conceito “progressista”.

A omissão e a inércia fazem coro com o conservadorismo, que grita, e ultimamente só tem gritado. Há sangue derramado dos linchamentos e das difamações. Mas também há esperança, e precisa haver ainda muita coragem dos que se veem progressistas, de qualquer campo denominacional.

Obrigado, Aliança de Batistas do Brasil! Obrigado Clemir Fernandes, Nancy Cardoso, Fábio Py, Ras André Guimarães, Liz Guimarães, João Luiz Moura, Henrique Vieira… citando vocês, lembro todas e todos que me inspiram e encorajam em tempos difíceis.

Ronilso Pacheco é de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Teólogo e pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, é ativista no campo dos direitos humanos e colaborador de diversas organizações, igrejas e movimentos sociais. É formado em Teologia pela PUC-Rio e mestrando em Teologia pelo Union Theological Seminary, da Universidade de Columbia (EUA). É autor de “Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e teologia em tempos de racismo, violência e opressão” (Novos Diálogos, 2016) e organizador do livro “Jesus e os Direitos Humanos: porque o reino de Deus é justiça, paz e alegria”, publicado pelo Instituto Vladimir Herzog, em 2018.

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