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Evangélicos, o militarismo e o golpe

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Evangélicos, o militarismo e o golpe

Nos tempos de Jesus a chamada pax romana estabelecia a ordem por meio da violência. O aparato militar do império vigiava e dominava as fronteiras do império, sobretudo as regiões periféricas como a Judéia e a Galiléia, onde havia permanente tensão social. Jesus não se identificava com aquela “paz” imposta pela força maior sobre as forças menores. Ele não legitimou o império romano e nem a sua violência intervencionista. Eram os soldados romanos que obrigavam os camponeses a andarem a segunda milha, apropriando-se das suas capas e túnicas. Centuriões oprimiam o povo nas cidades com as suas guarnições, instituindo o medo sobre as pessoas simples.

No Brasil, no golpe de 1964, assim como em outras conjunturas políticas anteriores, os militares intervieram como guardiões da sociedade civil, da ordem e da democracia. Partindo de uma tradição comum na América Latina de intervenção pela força, desrespeitando a constituição vigente, os militares no Brasil sempre se colocaram na condição de prontidão para agir, caso os civis não conseguissem estabelecer a ordem e a moral. Sobretudo quando fantasmas eram inventados, a exemplo do comunismo, como justificativas para uma ação unilateral e sem consequências.

Criou-se, portanto, uma tradição e uma autoconsciência nas forças armadas de que cumprem um papel histórico de vigilância da vida civil, enquanto reserva de moralidade da ordem pública, o que se pode questionar, sobretudo pelas experiências vividas no regime militar imposto a partir de 1964. Os civis são vistos como seres inferiores e incapazes de viverem em sociedade, daí sujeitos à necessária ação paternalista e autoritária quando julgados a caminho de um caos social e político pior.

Desta forma, sempre em crises agudas institucionais como a do presente, surgem vozes que defendem tal intervenção a fim de impor a ordem e a moral. Há que se lembrar que, em todas as intervenções políticas na história, os militares reproduziram as mesmas falácias da corrupção, acrescidas da violência legitimada e da quebra da ordem institucional. Assim, os prejuízos sociais e políticos foram sem medida, de uma ação que se tornou arbitrária, traumática e que se transmutou em ditadura com a aquiescência de segmentos e de estratos sociais civis, atendendo aos interesses de setores do grande capital, nacional e exterior, e dos Estados Unidos.

Paradoxalmente, para proteger a democracia, excluem os seus valores e suprimem as liberdades civis, ocupam o aparato do estado e alcançam privilégios que contradizem qualquer ordem republicana que estabelece a igualdade de direitos e de deveres a todos os cidadãos e cidadãs.

Para um país de espasmos democráticos ou lapsos históricos de vivência democrática, como se fossem concessões das elites dirigentes, respaldadas pelas forças armadas, estas agem como uma força paralela e não sujeita às mesmas leis que os demais cidadãos e instituições. Isto é antidemocrático e antirrepublicano. A sociedade brasileira e os evangélicos deveriam ter aprendido com a negatividade do intervencionismo militar em nossa história, num claro desvio de suas funções e papéis institucionais. Não deveríamos apoiar a violência engendrada pelo estado pela vida das forças armadas contra a sua própria população, tal como ocorreu em 1964-1985.

No entanto, a partir de 1964, os evangélicos em sua boa parte e em suas representações denominacionais, apoiaram e foram apoiados pelos militares, angariando vantagens por conta desta aliança. Lideranças evangélicas treinadas pela Escola Superior de Guerra ocuparam cargos nas principais denominações eclesiásticas, reproduzindo a lógica de um poder autoritário em sua natureza.

Diferente de Jesus e do espírito apostólico, os evangélicos brasileiros se identificam com a violência legitimada voltada principalmente contra as populações das periferias, pobres, negras e desempregadas. A lógica teológica do literalismo bíblico sustenta a lógica maior da violência que se contrapõe à ética e ao espírito do Reino de Deus, expressas nas bem-aventuranças. A cultura da paz deveria ser iniciada, cultivada, proclamada, dialogada e estabelecida a partir das igrejas cristãs, enquanto espaços de liberdade de opinião, diálogo, solidariedade, pacificação e reconciliação.

Os evangélicos deveriam ser os primeiros a defenderem a democracia e a contribuírem com o momento político com atitudes que vão para além de uma oração passiva e quietista, antes atuante nos cenários mais complexos da sociedade, servindo aos que sofrem e sendo solidários com as vítimas da injustiça. A indignação ante a corrupção explicitada pela grande mídia não se traduz em uma ética social que ultrapassa o discurso do moralismo individualista.

O intervencionismo militar, uma vez mais, retardaria o processo de construção de uma cidadania com justiça social com direitos políticos garantidos, numa sociedade com menos desigualdades e com as liberdades individuais e coletivas salvaguardadas. As forças armadas não podem se impor às forças desarmadas da população. Qualquer intervenção encobre interesses não confessados por trás do discurso da moralidade pública, onde se camuflam outras imoralidades ainda piores. Além disso, o intervencionismo militar hoje não é consenso nas próprias forças armadas.

A democracia se resolve com a radicalização da democracia social e política, seja qual for a extensão da crise institucional e política. À sociedade civil cabe um amplo debate sobre si mesma, seus projetos e prioridades, desde os movimentos sociais, as entidades de classe, as instituições, as igrejas e as organizações sociais. E o primeiro passo seria a defesa da participação popular nos destinos do país por meio das eleições diretas em 2018, a reforma política e jurídica, e a destituição do atual ocupante da presidência da república, tomada de forma usurpadora.

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Pastor congregacional em São Luís (MA). É bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Congregacional do Rio, licenciado em História pela UNESP-Franca, mestre em Ciências da Religião pela UMESP e doutor em História pela UNESP-Assis. É professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da UFMA, foi presidente da Fraternidade Teológica Latino-americana – Setor Brasil (2012 a 2015) e é membro da Associação Basileia. É autor dos livros "As outras faces do sagrado: protestantismo e cultura na primeira República brasileira", "Os Mascates da fé: história dos evangélicos no Brasil" e "Os 500 Anos da Reforma Protestante no Brasil".

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