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Até quando, Senhor? Comunicação e juventude negra

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Até quando, Senhor? Comunicação e juventude negra

Até quando, Senhor? Comunicação e juventude negra

“Senhor, simplesmente não consigo segurar o choro às vezes
Quando meu coração está cheio de tristeza e meus olhos estão cheios de lágrimas
Senhor, simplesmente não consigo segurar o choro às vezes”

Lord I just can’t keep from crying – Negro spirituals
No dia 19 de maio João Pedro foi assassinado pelo Estado do Rio de Janeiro, na figura da Polícia Militar. João brincava com os primos dentro de casa quando foi atingido com um tiro na barriga. Seu corpo foi colocado em um helicóptero e ficou desaparecido por horas até que a família o encontrasse no IML de São Gonçalo. 

Esse deveria ser um texto sobre comunicação, mas na verdade sai como o grito de quem não aguenta mais. O grito de quem, como o salmista e os profetas, só consegue dizer “Até quando, Senhor?”. 

No twitter, o primo de João Pedro enfatizou: “Meu primo, meu sangue, tem 14 anos, faz 15 no dia 26/06, do grupo de jovens da igreja, criado no evangelho, estava com o primo e as primas em casa e começou a operação, levou um tiro na barriga e os policiais pegaram”. Ao ler esse tweet, as palavras “criado no evangelho” ficou ecoando na minha cabeça. Imaginei João Pedro nas aulas da Escola Bíblica Dominical, cantando hinos com o grupo de jovens, comendo cachorro quente depois do culto. Poderia ser meu irmão, meus primos, meus amigos do grupo de jovens.

Nesse momento me lembro de um dos últimos tweets de Marielle Franco um dia antes de ser assassinada: “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”. Me lembro de quando o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel metralhou de um helicóptero em uma tenda de oração da Assembleia de Deus, felizmente vazia. “Foi um livramento”, disse o diácono da igreja na época. 

“O corpo (negro caído no chão) é templo do Espírito Santo” – Ronilso Pacheco

Jovens negros estão morrendo. Jovens negros cristãos estão morrendo. O corpo de Cristo está sendo mutilado e grande parte da igreja não está sofrendo com ele.

A política de morte está no genocídio de nossos corpos, mas perpassa as teologias banhadas de sangue que encontram lugar nos púlpitos e mídias evangélicas. 

A teologia de morte está nas igrejas de parede preta e teologias brancas que abrem a boca, eventos e lives para defender o cristofascismo mas se calam diante da morte de jovens negros e problemas sociais. Está nos livros e textos de teólogos de internet que se fantasiam de mendigos mas negam a existência do racismo no nosso país. Está nos fantasmas criados e propagados pelo fundamentalista evangélico: ideologia de gênero, marxismo cultural, democracia racial etc.

Essas teologias demonizam os movimentos feministas, antirracistas, as lutas pelos direitos humanos. Desmobilizam nosso povo, que vê o problema mas é incentivado a exercer a fé sem obras. Lota estádios para um “avivamento” que não promove justiça, mas aplaude a conversão do falso messias pela terceira vez.

E a comunicação com isso?

Esse deveria ser um texto sobre comunicação, e no fim das contas é. Porque a construção teológica hoje, principalmente entre os jovens, talvez se dê mais na internet do que nos púlpitos. Pastores midiáticos de Instagram alcançam milhões de seguidores, com quase o mesmo impacto numérico que os da TV. O cristofascismo age em mídias e linguagens diferentes, mas com o mesmo objetivo: poder, dominação, criar uma narrativa terrivelmente evangélica que alcance Brasil e mobilize em desmobilizar. 

Se disputar narrativas dentro da igreja é difícil, disputar na internet, com seus algoritmos e robôs, é muito mais. E por isso extremamente necessário. Há pessoas no mundo sedentas por libertação de teologias de morte, teologias racistas, machistas e homofóbicas.  Como ouvirão sobre o Jesus negro se não há quem pregue?

No cenário de pandemia e quarentena, em que as redes sociais se tornam ainda mais um campo de mediações, é urgente que façamos barulho. Que cobremos justiça para nosso irmão João Pedro, Demétrio e pelas pessoas negras que sofrem com o racismo em todas as suas faces perversas. 

Enquanto escrevo esse texto, ouço o profeta Pregador Luo e ecoo suas palavras: Onde estão os inconformados desse mundo? 

“O governo promove o racismo e a segregação,
Mas cedo ou tarde o poder voltará pra nossa mão
Pois na bíblia tem esta frase escrita
‘Bem aventurados aqueles que têm sede de justiça’”

Martin Luther King dizia que o que o preocupava não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. 

Se por um lado vemos parte da igreja omissa e calada, por outro lado nós somos igreja, e estamos clamando. Comunicação em um país racista tem a ver com gritar e amplificar o grito dos nossos. É sobre ser voz profética e comunicar que nosso Deus tem lado, o lado do oprimido. 

Meus irmãos e irmãs, não podemos nos calar diante da injustiça, diante da profanação e genocídio dos corpos que Deus santificou. Que não nos conformemos com este século. 

Luciana Petersen é estudante de Jornalismo, feminista negra, editora e podcaster no Projeto Redomas.

Artwork by @uendelns

O Movimento Negro Evangélico é uma organização autônoma e apartidária que mobiliza pessoas, redes e organizações que trabalham com o tema da negritude no Brasil a partir da igreja evangélica, criando assim uma rede articulada entre elas para lutar por políticas afirmativas e enfrentar a desigualdade racial, o racismo institucional e cultural e o extermínio da juventude negra.

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