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Das catedrais às cruzes dos seres humanos

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Das catedrais às cruzes dos seres humanos

A manifestação do Cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos, conhecido por sua cultura teológica e trânsito em ambientes ecumênicos europeus, chamando os cristãos a despertarem e levantarem, é contraditória. Ao afirmar que “querem construir uma realidade que não seria mais a Europa, porque sem cristianismo a Europa não existe”, mostra lucidez mas fica sem impacto em ambientes teológicos católicos, ecumênicos e no universo intelectual e político europeu, por causa dos desdobramentos contraditórios.

Kasper é conhecido como um teólogo lúcido, com clareza não apenas conceitual, mas também pastoral. Sua ascensão foi marcada pelos critérios clássicos da formação, capacidade de diálogo, experiência pastoral como padre e bispo, e acadêmica, como professor de teologia em universidades européias e intercâmbios. Teve presença marcante na Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas em Porto Alegre (2006). Isso o fez aprofundar temas teológicos relevantes, desenvolvendo linguagem diplomática para lidar com a mídia e o grande público, e bases conceituais consistentes, para falar com a cúpula, chegando a confrontar-se com setores incumbidos do zelo pela Doutrina da Fé e a assustar grupos de visão tridentina, associados à direita, com militância agressiva e recursos financeiros.

Mas o contrabalanço dos grupos de direita é forte e as ameaças, grandes. A falta de impacto em ambientes católicos e ecumênicos tem a ver com o esforço para movimentar-se na estrutura de traços conservadores, na qual precisa atender demandas tradicionais, com lógicas de poder, acordos e resultados. Embora o discurso de defesa do cristianismo, das catedrais e das cruzes na Europa pareça claro, na verdade aponta para o lado menos grotesco dos desastres causados pela civilização cristã, das cruzadas ao nazismo, e uma prática pendular que pede perdão mas mantém estrutura imperial, defende a família mas não deixa os padres se casarem, elogia as mulheres mas não lhes dá poder eclesial.

Já no mundo intelectual e político europeu, sob a influência do galicanismo, as resistências são maiores. Que a maior parte da Europa seja cristã é uma dúvida. Razoável. Minorias comandarem maiorias é verdade, e não apenas na religião. Sobretudo quando essas visões ainda suponham a existência da cristandade, que já acabou. Sem o sustentáculo de imperadores e nobres, a cruz tem deixado de ser chave para todas as portas. Dizer que cruz é símbolo cultural, agrava a situação. Para os muçulmanos expulsos da península ibérica, para os judeus que migraram por toda a Europa e, hoje, para minorias de imigrantes, refugiados e desterrados. A visão é eurocêntrica. A reação de ateus e agnósticos corresponde ao peso da sacralidade, imposta com massacres, violência, pela via da cultura e do desrespeito às liberdades.

O último elemento, pelo qual a reação se afasta das reações do poder e toma a praça é a laicidade. As sociedades são pluralistas, as pessoas têm aprendido a conviver com as diferenças, e a tolerância tornou-se virtude em todas as regiões que querem se desenvolver. Mas não raras vezes esbarra em atitudes da instituição que mais pleiteia sua defesa, na postura intolerante de líderes religiosos e nos setores com menor índice de educação. Se o laicismo se mostra intolerante, como denuncia o Cardeal, de quem aprendeu esse comportamento?

Admite que a cruz foi usada muitas vezes para perpetrar o mal, mas tenta resgatar seu significado, não crendo que alguém a use desse modo hoje. E associa o desaparecimento desse símbolo ao vazio e à secularização. O grito do cardeal, na verdade, se integra a um discurso escarmentado, de lamento e de castigo duro, para lembrar Claude Geffré, numa atmosfera religiosa, política e econômica que cimenta uma ordem social, na qual quanto mais há resistência, mais torna irreversível o retorno ao mundo que não se quer deixar morrer.  Na verdade, o que acontece é a dissociação da religião e da cultura. A cultura já não representa a cristandade, e esta, há muito deixou de ser marca da cultura ocidental. Ninguém perde o que já não tinha!

É preciso guardar o discurso, aguardar os sinais dos tempos e afastar-se da oficialidade para recuperar a credibilidade. Ouvir os cristãos, ordenados e leigos, revela sabedoria histórica. José Comblin disse que o cristianismo sempre migrou e agora pode ir para a Índia e a China. Para tal, é fundamental lembrar que as igrejas não dão a última palavra sobre o sentido da história. O que podem fazer é lembrar a necessidade de espiritualidade, de atendimento à busca de sentido, da urgência de limites às aventuras tecnológica e militar, e da necessidade de ser mais na relação com a alteridade e o Absoluto, como lembrou Agenor Brighenti.

Para dar conta do diálogo entre igrejas, religiões e sociedades, é preciso “libertar a mensagem cristã da fixação regressiva na recomposição da unidade perdida”, observou Degislando Lima no Simpósio Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Conquanto não seja desejável, a Europa pode sobreviver sem cruzes e catedrais. Mas terá uma existência difícil, se o clamor das populações, das minorias, e dos discriminados dos quatro cantos do planeta não for atendido. Não esqueçamos que no nordeste, Hélder Câmara disse que salvar a vida de militantes de esquerda, sob a perseguição da polícia da ditadura, era mais importante que o risco da profanação do altar, onde se esconderam!

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