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Martin Luther King, o perigoso sonho da justiça imatável

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Martin Luther King, o perigoso sonho da justiça imatável

Martin Luther King, o perigoso sonho da justiça imatável

Assim como os profetas bíblicos do Antigo Testamento, que, no vasto universo evangélico de nossas igrejas, são vistos, lidos, interpretados e, sobretudo pregados, de maneiras mais distintas possíveis, Martin Luther King talvez seja a figura contemporânea mais próximo deste mesmo “uso seletivo”. Não sei o quanto isso é possível, mas nós sabemos que ele é. Grande parte de nossas igrejas optaram pelo King “pacifista”, o pastor que se preocupava com as questões sociais, mas queria resolver tudo pela via da não violência. Optaram pelo King que vivia a condenar o uso da violência (que, acreditam, era usada por manifestantes que não eram da igreja, obviamente, porque “cristãos de verdade” só protestavam pacificamente.) Com esse objetivo, retalharam Martin Luther King, tiraram-no de seus diversos contextos de sermões, construindo uma imagem do pastor negro americano que, se não é falsa, ela é minimamente incompleta, ou distorcida.
A luta e o clamor de King se fazem muito necessários hoje. E é injusto que ele seja dissociado, no primeiro plano, de sua escolha pelo compromisso com o fim da segregação racial nos Estados Unidos. King escolheu isso como missão, e não é possível encontrar falas suas, sermões, num período de pelo menos 13 anos, em que ele abra mão desta perspectiva como ponto de partida. Os dois discursos mais famosos de King, o “I Have dream”, de 63, e o do “Topo da montanha”, de 68, dois dias antes de sua morte, não nos permitem relativizar uma palavra desconectada dos dilemas do seu tempo.
Para King, o que afetava a justiça nos Estados Unidos era o racismo. A segregação racial não era um detalhe, uma escolha subjetiva, era mais que isso. Sendo política de Estado, a segregação racial era “só” a expressão institucional do racismo que marca a formação social do seu país. O pastor Martin Luther King foi forjado com a dor do assassinato do adolescente Emmett Louis Till, que aos 14 anos é morto brutalmente e com o corpo jogado num rio, acusado de ter cometido o “grave crime” de assobiar para uma mulher branca. Foi forjado na vergonhosa humilhação sofrida pela negra Rosa Parks, expulsa de um ônibus, ao se recusar a viajar em pé porque não poderia sentar nos bancos vazios da frente porque aos negros estavam reservados os bancos dos fundos.
Martin Luther King não isolava a igreja do mundo, impedindo-a de ser lugar de continuidade das discussões e da convocação do povo à luta concreta do povo negro. Toda igreja que quer usar a vida e liderança de King como exemplo a ser seguido, e blinda sua igreja da participação direta nos embates das opressões e injustiças do cotidiano da vida real, ou não entendeu sua missão, ou entendeu mas escolhe esconder, manipulando apenas a seu belprazer a imagem de “evangélico influente”. Do púlpito, em um trecho de seu sermão, no culto após o dia do assassinato do jovem Jimmie Lee Jackson, King, profundamente indignado, afirmou sem meias palavras que, que “quem matou Jimmie foi cada pastor branco que em suas pregações falam da bíblia, mas ficam em silêncio sobre isso diante da sua congregação”.
É fato que o sonho de King ainda não se realizou, em lugar algum. Creio que no seu discurso sobre o sonho que tinha, ele estava bem ciente disso, de que não entraria na “terra prometida”, onde a justiça (que ele entendia como tendo o fim da segregação racial e o fim da violência contra o povo negro como expressão maiores) era a característica principal. Mas é muito provável que ele não imaginaria que a denúncia e o interesse do povo de Deus quanto a esta jornada perderia tanta força e se confundiria tanto. Seria difícil imaginar que a temática do racismo, a violência em torno do racismo, o papel inclusive de instituição reprodutora da lógica do racismo da maioria das igrejas seria rechaçada como um exagero, uma abordagem desnecessária, um assunto que tem seu lugar, mas que este lugar nunca deve ser a igreja.
Difícil imaginar um Martin Luther King que, do alto de seu púlpito, não faria memória e denunciaria a gestão violenta do Estado, que faz vítimas como a menina Maria Eduarda, o menino Eduardo de Jesus e os cinco jovens fuzilados em Costa Barros, no Rio de Janeiro; que ele não lembrasse a chacina de Cabula, na Bahia; que ele não denunciasse a negligência do Estado e a mentalidade vingativa e sem misericórdia da população diante das vidas barbaramente perdidas nos presídios do Norte e Nordeste; que ele não exortaria publicamente qualquer alusão ao discurso de que “bandido bom é bandido morto”.
O sonho de King é perigoso. Sua concepção de justiça é perigosa, porque ela ousa não projetar o seu referencial de justiça para o céu, abstratamente, alegando tratar-se de fé e embasamento bíblico. O perigo do sonho de King é materializar a concepção de justiça. A denúncia aqui e agora das estruturas de poder, marginalização, opressão do povo. Falou naquele tempo da igreja branca e sua apatia diante do racismo. Não tem porque imaginar que ele não falaria hoje da igreja rica, elitista, burguesa, conservadora e escondida por detrás de algumas “ações sociais”, que segue apática diante desigualdades e moralismos legalistas que seguem fazendo vítimas. Ainda precisamos do sonho do Dr. King e seu amor pela justiça. Esta justiça é imatável.

Ronilso Pacheco é de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Teólogo e pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, é ativista no campo dos direitos humanos e colaborador de diversas organizações, igrejas e movimentos sociais. É formado em Teologia pela PUC-Rio e mestrando em Teologia pelo Union Theological Seminary, da Universidade de Columbia (EUA). É autor de “Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e teologia em tempos de racismo, violência e opressão” (Novos Diálogos, 2016) e organizador do livro “Jesus e os Direitos Humanos: porque o reino de Deus é justiça, paz e alegria”, publicado pelo Instituto Vladimir Herzog, em 2018.

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