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Entre o rosa e o azul eu fico com o arco-irís

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Entre o rosa e o azul eu fico com o arco-irís

* Por Bob Luiz Botelho

Sempre me achei uma pessoa equilibrada, mas vez ou outra recebo demandas de realidade que me mostram que estou preso numa bolha. Gosto sempre de falar que tenho um psiquiatra gay e um psicólogo cristão pra ficar no equilíbrio, mas aprendi com a vida e com as boas amizades que o equilíbrio é bambo e ele só acontece quando há tensão.

O equilibrista no circo só consegue atravessar a corda porque ela está muito bem esticada e ela só está esticada porque está tensionada por duas forças contrárias entre si. Para atravessar de um lado ao outro, os braços esticados, ou com o apoio de uma vara, fica perceptível que o equilíbrio que ele apresenta de forma impecável, acontece através do andar bambo. Como eu disse, o equilibro é bambo e só acontece na tensão.

Este texto é pra provocar tensão e achei importante essa introdução porque não queria que a tensão que proponho aqui seja vista de forma pejorativa.

Algumas ideias infantis como “ideologia de gênero” já não fazem mais sentido pra mim, sequer pra fazer piada, quanto mais pra se levar a sério.

Mas daí eu sou confrontado com o fato de que esse termo ainda faz sentido na cabeça de muita gente e que tem realmente uma galera acreditando que existe uma organização internacional chamada “movimento LGBT”, formada por pessoas que ficam pensando 24 horas por dia sobre como arruinar o projeto de famílias que se entendem contempladas com o padrão cis-heterormativo, a famosa família tradicional brasileira. A gente ainda precisa dialogar com pessoas que acreditam no ideal da família dos comerciais de margarina, ou mesmo sabendo que aquilo é utopia, tem esse vislumbre como que de um horizonte a ser percorrido. Aqui no Brasil, assim como se percebe em toda a América Latina, a gente vê que o discurso evangélico tem forte responsabilidade nisso tudo!

A verdade dos fatos é que às vezes a gente precisa se propor a voltar algumas casas e tentar explicar, de forma dialogal, que não tem ninguém querendo destruir a família de ninguém! A gente precisa explicar que todo mundo tem pleno direito de ser feliz do jeito que é e que se uma família está autenticamente feliz sendo estável, cis-hétero e seguindo aos padrões, o tão temido “movimento LGBT” (que vale a pena dizer que é heterogêneo, diverso entre si e cheio de contradições internas) não perde um segundo se preocupando com vocês. Podem respirar descansados, tudo o que a gente quer é que vocês sejam felizes mesmos.

O que pessoas como eu, militantes da comunidade LGBTI, querem é apenas assegurar que pessoas LGBTI, que por definição são diversas e diferentes desse padrão acima, não sofram e não sejam expostas à violência e opressão, como ao longo da história vem acontecendo. É importante deixar claro que o que acontece ao longo da história não é um movimento de pessoas diversas oprimindo as que estão no padrão, mas sim pessoas dentro desse padrão condenando, torturando, matando e violentando as pessoas diversas.

Vamos, então, aos acontecimentos recentes que motivam meu artigo.

Tivemos uma líder evangélica influente no cenário religioso nacional, que agora está ministra da pasta presidencial que trata de direitos humanos no Brasil, afirmar que “menino veste azul e menina veste rosa”, insinuando que, a partir do atual governo e no que depender das responsabilidades públicas dela, começa, em suas próprias palavras, “uma nova era no Brasil”. O objetivo do discurso dela é afirmar que agora, sob comando e tutela dela (a pastora), as agendas de promoção de visibilidade e afirmação de direitos de pessoas sexualmente diversas não terá espaço nas propostas de políticas públicas que ela defenderá como ministra. Pessoalmente não vejo motivo para dar ibope para uma fala medíocre como essa, mas a partir dela surgiram diversas reflexões sobre identidade de gênero e sexualidade que tomaram conta dos temas em diálogo, tanto do lado evangélico quanto do lado LGBTI.

De todas, a que mais me incomoda são as falas de quem atribui aos pais a “culpa” pela sexualidade ou identidade de gênero diversa de suas filhas e filhos (e filhes), de forma a criar um ambiente de terror que faça com que pais e mães se perguntem: “onde foi que eu errei?”.

Esses dias eu li no último número da revista Ultimato (março-abril 2019) que “o ensino de uma sexualidade saudável aos filhos não passa por estereótipos, mas sim pela vivência amorosa e abertamente expressa da sexualidade dos pais”. Essa fala isolada não é problemática em si, se não estivesse escrita em um contexto onde o autor sugere que “desde os primeiros dias de vida a criança percebe a qualidade do padrão relacional dos pais. […] É preciso que o filho vivencie um relação de ternura entre os pais, que os veja se beijarem, se abraçarem, dizerem palavras carinhosas um para o outro, serem gentis, cúmplices e com disponibilidade de serviço (até sacrificial) pelo outro.” (p.36)

Qualquer tentativa de debate do ponto de vista científico, técnico ou da pesquisa, tem como premissa básica que se parta do mesmo pressuposto. Eu não sou psicólogo, nem psiquiatra e embora seja militante e pesquisador em saúde mental, além de estudante de licenciatura, que me coloca diante de estudos sobre educação, formação, desenvolvimento e aprendizagem, meu objetivo aqui é antes de mais nada reconhecer que os pressupostos de escrita são distintos entre si e que isso torna o debate nessa perspectiva pouco profícuo e eficaz. Estamos partindo de lugares diferentes, estamos almejando horizontes diferentes e estamos percorrendo trajetórias diferentes, embora estejamos falando sobre o mesmo tema.

A minha argumentação aqui nesse texto vai de encontro às questões de como se escreveu, quais palavras foram escolhidas e quais as problemáticas de se insinuar que lares onde os pais heterossexuais não troquem afeto diante das crianças são um celeiro de possibilidades de disfunções em identidade de gênero e sexualidade, considerando a manifestação de uma identidade diferente da cis-hétero como problemática e disfuncional.

As sugestões dessa fala são absurdas e eu vou tentar sistematizar aqui alguns elementos importantíssimos na tentativa de trazer luz e emancipar pais e mães que sofrem por se sentirem culpados por nos terem como filhas/filhos/filhes.

1 – Ser LGBTI não é um desvio!

Nós precisamos superar urgentemente as noções que temos de que uma expressão de gênero ou sexualidade diferente da cis-hétero é necessariamente um desvio ou uma patologia. Por favor, parem de nos considerar defeituosos, parem de nos considerar doentes, parem de achar que vocês precisam achar a origem do “erro” porque NÓS NÃO SOMOS ERRADOS(AS/ES). Diversidade não significa defeito e o fato de eu me expressar diferente de como você se expressa não me coloca no lugar de ERRO. Eu fico imaginando as mães e pais lendo o texto e se machucando com a reflexão de que “então é por isso que minha/meu filha/filho/filhe é assim”, como se tivessem encontrado a “raiz” do problema ou como se a partir de agora pudessem justificar a razão por termos nos tornado quem somos.

Enquanto essa mentalidade prevalecer nós vamos continuar machucando muita gente. Vamos continuar machucando nossas crianças, vamos continuar machucando nossas mães e pais. Parem, por favor, parem! Parem de tentar entender a raiz ou origem, parem de tentar achar algum motivo. Nós somos assim e isso não é um problema. Não precisa tentar entender se nasceu desse jeito, se foi culpa de abuso sexual, se é porque o pai foi ausente, se é porque a mãe mimou demais ou qualquer outra resposta pronta que se aprende nos cursos de cura e libertação das igrejas! Nós não somos um erro!

2 – Não existe padrão na formação de identidade de sua/seu filha/o/e

Vou tentar me usar como exemplo. Sou o terceiro filho de quatro. Tenho um irmão mais novo e dois mais velhos. Vivemos sempre na mesma casa, com os mesmos pais. Eu sou homossexual, nenhum dos meus três irmãos é. Por que na mesma casa, com a mesma educação, só eu fui me tornar homossexual na família? Um dos meus irmãos mais velhos namorou 6 anos à distância, se casou com uma esposa incrível, se guardou até o casamento e é super bem resolvido com sua sexualidade, sua monogamia e sua identidade de gênero. Nós tivemos o mesmo pai; inclusive nossa diferença de idade é de apenas 2 anos e 3 meses, ou seja, nossas fases de desenvolvimento, desde à infância até a fase adulta, foram muito próximas e fomos expostos às mesmas experiências. Por que só eu “dei errado”? Talvez justamente porque ser gay não é “dar errado”.

Vejam eu não estou propondo aqui que a família não tenha nada a ver com a formação de identidade da criança, tampouco excluindo a noção de que a forma com que fui criado é responsável por traços do meu caráter e personalidade, mas quero deixar claro que sou muito mais que isso (falarei disso mais no ponto 4). Não existe um padrão de como educar sua criança, a vida não vem com manual de instruções. A gente faz essa análise de que a identidade (gênero ou sexualidade) é consequência da quebra de padrão e a gente nem vê os problemas enormes que existem nesse suposto padrão.

Meus pais, por exemplo, sempre foram muito afetuosos entre si e cá estou eu sendo gay para a glória de Cristo. Não havendo violência entre as relações, havendo honestidade e sinceridade de afeto, faço minhas as palavras do Lulu Santos, que diz: “Consideramos justa TODA forma de amor”. Imagina se todas as mães e pais tiverem que passar a se comportar na frente das crianças de uma forma diferente da qual se comportam naturalmente só porque “precisamos nos beijar na frente das crianças, se não elas vão ser homossexuais”. Ei, tá muito errado isso aí. Ame a pessoa que é sua companheira ou companheiro da forma como você se sente bem em amar e expressar e eu te garanto que isso é suficiente. Nem toda mãe e todo pai gosta de se beijar na frente das crianças, nem todo casal precisa ser “fofinho” como nos comerciais de margarina só pra mostrar pras crianças a ternura e o amor. Ninguém tem que performar nada na frente de ninguém! Apenas ame e ponto final.

3 – Nem todas as famílias fora desse padrão têm resultados fora do padrão estabelecido

Aqui eu quero tornar visível as famílias que estão fora desse padrão trazido pelo texto. Mães solteiras, seja por divórcio, luto, ou porque decidiram serem livres sobre o próprio ventre. Pais e mães que não são casados entre si e que tem outra pessoa como companheira ou companheiro (padrasto/madrasta). Crianças que foram educadas por avós, crianças que foram cuidadas por tias/tios e primas/primos.

Enfim, todas as diversidades complexas nos arranjos familiares que se possam imaginar aqui e que não se sentem contempladas com “pai e mãe se beijando na frente das crianças”. Retomo aqui a fala do atual vice-presidente, General Mourão, que, ainda na época de campanha disse algo como “lares que só tem mãe e avó são fábricas de marginais”. O artigo na Ultimato não sugere que famílias fora do padrão sejam fábricas de marginais, mas insinua que famílias fora do padrão são “fábricas de LGBTI ou pessoas com compulsão sexual”. Nesse momento eu convido ao texto todas as pessoas que não foram criadas por pães e mães ao mesmo tempo, ou que tiveram em sua criação a participação intensa de outros atores (tia, avó, irmão, primo etc.) e que se entendem cis-heterossexuais. O que temos a dizer diante desses casos? A gente vai ficar em função de procurar algum tipo de desvio no comportamento sexual dessa pessoa só pra justificar nossa afirmação de que lares fora do padrão geram deficiências. A gente precisa superar essa noção de forma urgente.

Assim como não existe padrão na formação da identidade da criança, em como a criança vai se desenvolver na sua identidade de gênero e/ou sexualidade, também não existe padrão no formato para se criar uma criança. O padrão que existe é amor, dedicação e entrega! Imagino mães solteiras lendo esse texto e se culpando por terem aberto mão de seus relacionamentos abusivos e que possuem uma/um filha/filho/filhe LGBTI. Hey, mãe, mulher, você não é culpada de nada! Primeiro porque ser LGBTI não é um erro, segundo porque errado é ficar num relacionamento abusivo. Ser mãe solo não! Precisamos parar de ver a identidade LGBTI com uma perspectiva punitivista para famílias fora do padrão, primeiro porque ser LGBTI é uma dádiva que Deus nos dá e segundo porque chega de punir quem não segue o padrão só porque você segue.

4 – Eu sou muito mais do que o reflexo dos meus pais

Sei que existe toda uma abordagem dentro das incontáveis escolas dentro da psicologia que fala sobre família, funções, padrões e tals e como eu disse ali acima, eu realmente acredito que minha mãe e meu pai tiveram um papel fundamental na formação de quem eu sou hoje. Olha só, não acho que quem somos hoje dependa só de nós. Aquela coisa que a gente aprende na antropologia pós-colonial de que identidade e alteridade são faces da mesma moeda é muito real. O que eu não acho, de forma alguma, é que a gente precisa justificar 100% da personalidade e do caráter de uma pessoa na educação que ela experimentou. Inclusive, eu acho um enorme contrassenso pais e mães evangélicos falarem que filhos LGBTI são culpa de disfunção familiar e estarem assim com tanto medo de beijo gay na novela. O medo do beijo gay na novela só revela como vocês, famílias tradicionais brasileiras, são e se sentem extremamente frágeis e vulneráveis na educação de suas crianças. E olha só, tá tudo bem se sentir assim. O que me espanta é que se a família é tão importante assim na definição de identidade sexual de uma criança, deixa a novela pra lá! O mais importante nisso tudo aqui é a gente ter a noção de que uma identidade diversa não é culpa de ninguém porque (além dos outros motivos apontados acima) um sujeito é muito mais do que apenas o reflexo de sua família.

A propósito, outro contrassenso forte nesse debate é quando nós, militantes pelos direitos humanos, afirmamos que a criminalização e marginalização do indivíduo é consequência de fatores sociais, culturais e econômicos e os “cidadãos de bem” vem com dedos pra cima de nós afirmando que o caráter é culpa apenas do indivíduo. Contextos de pai ausente, mães com jornada dupla, violência doméstica, drogadição na parentela próxima, baixíssimos índices de educação e profissionalização? Pra esse debate, a gente precisa culpar o indivíduo?

É extremamente importante termos noção de que embora, sim, pais e mães tenham importante papel na construção da identidade de suas crianças, somos muito mais do que uma réplica de comportamentos adquiridos por nossos responsáveis. A gente tem tantos exemplos próximos para trazer a esse debate. É tão fundamental nos desvencilharmos desses referenciais retrógrados que só culpabilizam pais e mães em profundo martírio pelas filhas/filhos/filhes que tem. Chega! Eu sou gay e isso não é culpa de ninguém! Nem minha, muito menos da minha família.

5 – Não existe ideologia de gênero!

Eu resolvi deixar esse ponto para o final porque, embora a gente tenha falado um pouco disso lá no início, é importante a gente retomar e tentar deixar as coisas bem claras. Pessoal, não existe uma organização internacional tentando a todo custo destruir o que vocês construíram. Por favor, parem com isso! Enquanto a gente construir debates que olham a diversidade como uma “ideologia inimiga”, nós só vamos continuar a reproduzir violência atrás de violência e isso tem que acabar. Ninguém quer que sua criança seja nada além do que ela é. Se sua criança é uma pessoa cis-heterossexual, ninguém na comunidade LGBTI tem qualquer intenção de mudar isso. Aliás, se sua criança estiver dentro deste padrão cis-heteronormativo, pode vestir de rosa, de azul ou até mesmo de arco-íris que não vai ser esse tipo de detalhe que vai mudar qualquer coisa.

Quando eu era um cristão bastante religioso (falo dessa forma porque continuo sendo cristão evangélico) eu também sempre via qualquer debate sobre diversidade como parte de uma ideologia que precisava ser reprimida, combatida e vencida. Sei inclusive que muitas pessoas vão ler esse meu texto com o nariz entortado e cheias de dedos diante do que escrevo, pensando em vários argumentos para se contrapor e isso é muito triste. Isso foi triste na minha trajetória e só eu e Deus sabemos como repelir esse debate sobre diversidade só piorava minha saúde mental e me atormentava! Igreja, nós não queremos nada além de que a verdade liberte todas as pessoas (João 8.32)! A verdade é Cristo (João 14.6) e Ele vem pra nos libertar de toda prisão. Existe uma comunidade enorme de pessoas diversas que estão sofrendo angustiadas em seus corpos e em suas comunidades porque não se aceitam da forma linda com que Deus as permitiu ser. Isso precisa acabar! Eu tenho orado pra que Deus toque o coração da igreja e derrame sobre nós um espírito de paz!

Espero que esse texto seja luz no caminho de quem tem sofrido, tanto pessoas LGBTIs quanto famílias dessas pessoas que se martirizam e sofrem por algo que Deus não pediu que sofrêssemos. Deus nos ama e celebra todas as cores possíveis da nossa diversidade! Que aprendamos a jubilar no Espírito a identidade que Ele nos deu, porque não importa como sejamos, somos amadas/amados/amades como filhas/filhos/filhes dEle!

Que o grande amor de Deus Pai/Mãe todo poderoso, a graça maravilhosa e salvadora de Jesus o filho, a comunhão e as consolações do Espírito Santo sejam sobre todxs nós! Não somente agora que nos libertamos da prisão da religiosidade, mas para todo o sempre. Amém!

* Bob Luiz Botelho é membro da Igreja do Armazém, militante em Saúde Mental e Diversidade. Missionário e produtor cultural, estudante de Geografia pela UFPR e membro da Coordenação Nacional do Evangélicxs pela Diversidade.

O Evangélicxs pela Diversidade é uma rede que reúne pessoas LGBTI e aliadxs que se identificam como evangélicas e que entendem que a diversidade sexual e a identidade de gênero devem ser celebradas como expressões da fé e espiritualidade, e que independente do gênero ou sexualidade, as comunidades de fé podem ser um lugar seguro para todxs.

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