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Quatro lições da juventude do ministério pastoral exercido por mulheres

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Quatro lições da juventude do ministério pastoral exercido por mulheres

Quatro lições da juventude do ministério pastoral exercido por mulheres

No dia 10 de julho de 2019 completaram-se 20 anos do ministério pastoral exercido por mulheres como uma realidade denominacional entre os batistas brasileiros, ligados à Convenção Batista Brasileira (CBB). Não posso dizer que foi fácil este percurso até aqui. Posso dizer, e digo, que apesar das dificuldades de todos os tipos, as que fazem parte naturalmente do exercício da vocação pastoral àquelas da relação por muitas vezes desgastante com colegas pastores e instituições ao longo deste tempo, com maior ou menor intensidade, mas sempre presente, foram 20 anos exitosos.

O que vi e vivi nesses 20 anos não cabem nesse texto nem em muitos livros. Decidi, no entanto, como forma de celebração, compartilhar palavras que me disseram ao longo desse tempo e que se transformaram, creio eu, em lições para o ministério pastoral feminino.

Primeira lição

No tumultuado dia do meu concílio (26/06/99), fui até o banheiro da Primeira Igreja Batista (PIB) em Campo Limpo, na periferia de São Paulo. Lá estavam algumas mulheres da igreja e também uma irmã visitante. Ela tinha ido acompanhar um dos muitos pastores presentes. Assim que me identificou, virou-se e, exaltada, disse: “Está vendo o que você está fazendo com a nossa denominação?”

Lembro de ter respirado fundo. Eu estava nervosa, tentando controlar emoções variadas e também estava sensível às tensões vividas pela igreja antes do concílio. Afinal, havia uma comunidade de fé inteira igualmente apreensiva, não sobre o que tinham decidido, mas por não saber o que enfrentaríamos naquele dia e nos subsequentes. Até hoje ao recordar esse episódio e meditar sobre a pergunta furiosa da irmã, sinto o peso do meu legado. O que fiz juntamente com a PIB Campo Limpo foi, de fato, um divisor de águas. Nossa denominação não é mais a mesma, como tantos dizem de forma negativa. Os que se lamentam por um tempo impossível de ser revivido, não por causa exclusiva das pastoras, mas porque nem nós mesmos somos o que fomos em determinado momento de nossa trajetória, são poucos, mas barulhentos. Tudo muda. Sobretudo, em uma experiência religiosa como a nossa cujo movimento sempre foi uma marca. O saudosismo que observa raivosamente a mudança das coisas, pessoas e instituições talvez esteja perdendo um tempo precioso de caminhar mais rápido e mais acompanhado em direção ao futuro, pois o futuro é sempre o nosso destino.

A primeira lição, portanto, é essa: as pastoras são uma realidade denominacional. E nossa denominação não é a mesma também por conta da nossa presença nos ministérios locais, nas várias regiões desse país. E, por mais que alguns digam que isso não é bom, é bom, e irreversível.

Segunda lição

Ainda no mesmo dia do concílio, minha mãe protagonizou um embate com um pastor (o colega não sabia que ela era minha mãe) que dizia barbaridades sobre uma mulher no ministério pastoral.

Impropérios que ouvimos ainda hoje como anátema, Jesabel, diabo, etc. etc. Ela, então, virou-se para ele e disse: “Pastor, faça como Gamaliel: se for de Deus crescerá; se não for, morrerá aqui”. Descobri ao longo do caminho que não há como conversar com quem não deseja conversar, quem não se abre ao diálogo. Não há como convencer quem considera a vocação pastoral feminina como algo antibíblico.

Descobri que esse é um trabalho do Espírito de Deus e não nosso. Podemos partilhar o porquê somos pastoras, mas não temos como convencer a ninguém. Somente o Espírito é capaz de tamanha mudança de coração. Sim, é mais uma questão de mudar o coração do que qualquer outra coisa. Uma estratégia para essa mudança são os frutos que estão aí aos olhos do povo de Deus, àqueles que se permitem ver.

Pastoras em igrejas periféricas, em meio a comunidades de risco, em bairros populares ou de classe média, como titulares ou auxiliares, batizando, ensinando, pregando, cuidando, servindo.

A segunda lição é a de Gamaliel. Não “morreu” em mim. Somos muitas! Em todas as regiões do Brasil. Em igrejas que servem ao Senhor, amorosamente, com gratidão por um Deus que tem convocado homens e mulheres para servir e não para serem servidos.

Terceira lição

Os primeiros meses, os primeiros anos do meu ministério também foram difíceis. Estávamos sós. Nossos próprios irmãos nos isolaram e não nos davam descanso em sua oposição. Era apenas eu e a igreja, tínhamos a Deus e uns aos outros. Certo dia, fui escrever a pastoral para o boletim dominical e um texto veio a minha mente, talvez soprado, “Ninguém despreze os humildes começos”. Escrevi uma pastoral sobre uma “parábola da loja de botões” para falar da importância das coisas pequenas, tímidas, humildes que parecem esconder, em um primeiro momento, toda a potência do que serão mais adiante. Trocando em miúdos, o título diz para prestar atenção na forma como apreciamos as coisas que começam pequenas, tímidas, pois o começo é só o começo. O começo é apenas possibilidade, ainda não é aquilo que se projetou. Logo, algo pequeno como uma semente de abacate, crescerá e dará árvore frondosa, com muitos frutos, embora tudo tenha começado bem pequeno.

A terceira lição é essa: o pequeno é sempre o primeiro e temporário estágio daquilo que se relaciona com a vontade de Deus.

Quarta lição

Muitos anos mais tarde, pregando em uma igreja na baixada fluminense, já como diretora do Seminário Teológico Batista em Belford Roxo, terminado o culto, fui com o pastor até a porta para me despedir da congregação. Uma menina de uns 10 anos me abraçou e disse: “Eu também vou ser pastora”. Sorri para ela e afirmei: “Sim, você poderá ser, se Deus quiser.”

O que Deus fez através da vida de muitas mulheres em função pastoral durante os anos antes de 1999, passando por estes últimos 20 anos, nos trouxe até a fala dessa menina. O divisor de águas só aconteceu, como um kairós para mim e para a PIB em Campo Limpo, foi, imagino, por ter chegado à igreja, como seminarista, sem esconder, duvidar ou me calar sobre a minha vocação. Naquela época também, em um alinhamento kairótico, ter um pastor (Antonio Carlos de Mello Magalhães) que não estranhou minha declaração a ponto de me cercear ou impedir minha vivência pastoral no meio da comunidade. E, também, principalmente, como parte deste momento do kairós, uma igreja sem medo de decidir, protagonista desta história bonita de fazer parte de um plano maior. Ter dito quem eu era transformou muitas vidas até ao ponto de uma menina décadas depois dizer espontaneamente como uma possibilidade entre outras de servir, que o ministério pastoral é uma realidade na vida das igrejas, uma realidade denominacional.

A quarta lição é simples, mas fundamental: Importa não apenas ser, mas também dizer. Assumir uma voz que seja sua, revelando para si e para os outros o que Deus mesmo deseja.

Eu sou grata a Deus que me insuflou coragem durante toda a minha história. Quando eu nada enxergava, sua luz aparecia no horizonte; quando a força para Ser me faltava, Ele me dava a Dele; quando ameaçava esquecer do porquê havia me escolhido, Ele me ensinava sobre misericórdia. Porque não podemos ser boas pastoras, nem bons pastores, sem fé, dependência divina e misericórdia.

Como Batista, sou imensamente grata a PIB em Campo Limpo. Uma igreja que me amou e foi amada. E ainda é. Entre tantos exemplos desse amor, o mais precioso foi me ensinar uma verdade dos Evangelhos: Deus revela sua vontade aos pequeninos e a esconde dos sábios. Lição que aprendi, que vivo e sigo defendendo.

Sigo defendendo que a vocação pastoral é dom de Deus e que Ele confere a quem quer.
Sigo defendendo que ministério pastoral é para servir.
Sigo defendendo que a igreja do Senhor Jesus, chamada Batista, é soberana.
Sigo defendendo que temos e fazemos parte de uma multidão de testemunhas daquilo que Deus tem feito com homens e mulheres submissos apenas a Ele.

Nestes 20 anos, então, sou grata pelo avanço benéfico da presença das pastoras em nossa denominação. Desejando que no futuro não haja mais histórias de interditos, palavras odiosas, assédio moral, desigualdade de salário, torcida contra, ameaças de ruptura, entre tantas formas desamorosas de lidar com nossa presença, mas que haja cada vez mais celebração e gratidão, como eu já sinto hoje.

Silvia Nogueira é pastora batista. Possui graduação em Teologia pela Faculdade Teológica Batista em São Paulo (1999). Possui graduação e licenciatura plena em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Mestrado em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação (FFP/UERJ). É professora de Língua Portuguesa da rede municipal de Macaé, RJ.

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