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Essa noite tive um sonho…

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Essa noite tive um sonho…

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“Essa noite eu tive um sonho de sonhador. Maluco que sou, eu sonhei. Com o dia em que a Terra parou. Com o dia em que a Terra parou. Foi assim. No dia em que todas as pessoas do planeta inteiro resolveram que ninguém ia sair de casa como que se fosse combinado em todo o planeta. Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém.” (Raul Seixas)

O velho Raul tinha razão ao abalizar o dia em que a terra parou. O contexto pandêmico é marcado por muitas ausências e por novos modos de vida em sociedade. Ao ir às farmácias, por exemplo, encontrei vária fases, a saber: faltou álcool gel, em especial o número 70, faltou máscara, faltou termômetro, faltou ivermectina, faltou própolis verde, faltou bala de mel e gengibre, faltou vick vaporub, faltou vitamina C. Todos/as estavam à procura de melhorar sua imunidade, evitar resfriados, não se contaminar!

Há sem dúvida a ausência e por isso mesmo, a saudade, de familiares e amigos, da universidade e das escolas, da igreja, das praças, do cinema, do campo de futebol, do barzinho ou do churrasco, da praia e do shopping no final de semana. Nosso “sextou” não tem o mesmo sabor! A vontade de abraçar, beijar a face e tocar o outro é enorme. Será que efetivamente alguns valores serão ressignificados em nossas jornadas? Quem sobreviver a esse caos terá uma nova práxis cotidianamente?

Temos chorado (empaticamente) por tantas vidas com suas dores e incertezas, mas, de repente, os rostos foram se tornando conhecidos. É terrível esse momento. Nosso sono nunca mais foi o mesmo e, talvez, a premissa de viver um dia de cada vez deixou de ser uma “frase comum”, tornando-se uma verdade para muitos de nós. Entretanto, é preciso problematizar algumas questões neste cenário com o intuito de gerar uma reflexão para uma nova humanização.

Com efeito, o grande abismo social em solo brasileiro nos revela no espelho embaçado de uma suposta democracia racial os corpos que mais sofrem neste período. Como ficar em casa num espaço pequeno com muitos integrantes? Higienizar-se com a falta de água? Comprar remédios sem dinheiro?  Acessar os hospitais em ônibus apelidados de “navios negreiros”? Evidentemente que o vírus não escolhe classe, gênero, raça, sexualidade e faixa etária, contudo, há corpos que estão mais vulneráveis que outros por um processo histórico cheio de desigualdades, a saber: corpos afro-indígenas das florestas e das periferias do território brasileiro.

Cabe ressaltar que não se trata de uma praga do(s) Deus(es) e, muito menos, o apocalipse bíblico propagado por algumas lideranças cristãs. Os corpos afro-indígenas são esmagados a partir de um projeto civilizacional de poder e controle dos seus modos de ser, assim sendo, o racismo estrutural é uma realidade a ser superada extremamente complexa, todavia, passa por quatro eixos antirracistas: as leis, a educação, as políticas públicas afirmativas de reparação social e a quebra dos privilégios da branquitude.

Há muitos problemas sociais a serem enfrentados. Assim sendo, se para os cristãos o paradigma de Jesus de Nazaré não foi o suficiente para uma nova humanização, será que a pandemia terá força para oferecer uma mudança radical? Suspeito com muito temor que muitos e muitas estão fazendo votos que mudarão suas ações em sociedade, dizendo que se sairmos dessa tudo será diferente. Será? Pode ser que sejam os mesmos votos da virada de ano que dizem: amarei mais; os momentos familiares terão prioridade; vou equilibrar lazer e trabalho; lerei mais; farei regime na segunda; participarei da educação dos meus filhos; etc. Espero estar enganado, pois, o humano, vez por outra, sabe ser encantador.

Ora, não se pode esquecer que esse contexto cheio de limitações-contradições apontou também para uma rede de afetividade-solidariedade. Instituições múltiplas ouviram os clamores de homens e mulheres em situação de vulnerabilidade social. Confesso que há situações em que voltamos a acreditar na humanidade. Poucos momentos, é verdade, mas, são daqueles que nos alimentam a utopia de outra socialização.

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