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Finalmente surgirá entre nós uma Teologia da Saúde?

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Finalmente surgirá entre nós uma Teologia da Saúde?

Finalmente surgirá entre nós uma Teologia da Saúde?

Eu gostaria de entrar nessa reflexão com uma pergunta inspirada por um texto do Boaventura de Souza Santos, sociólogo português que vocês conhecem. O texto se chama “A cruel pedagogia do vírus”. Eu não vou citar nem reproduzir o que ele diz. Leiam esse trabalho.

É a relação entre pedagogia e crueldade que eu acho interessante. E eu fui pensar em como as práticas pedagógicas estiveram historicamente cheias de crueldades, muitas vezes nas escolas, outras vezes nas igrejas, e outras vezes dentro de casa mesmo. Agora numa pandemia!

E por mais que os setores progressistas da educação, da fé, da ciência, insistam na ideia (correta, a meu ver) de que o sofrimento não precisa ser condição de aprendizagem, cá estamos nós, de novo, tentando extrair lições da dor, do sofrimento, da triste realidade das mais de 55 mil pessoas mortas apenas no Brasil pela tal “gripezinha”.

Aprenderemos? O que aprenderemos? Mudaremos? Em quais direções?

Eu vou colocar algumas questões mais amplas, e tentar ir me aproximando gradativamente da provocação teológica contida no título deste artigo, embora isso seja só didática, porque a gente sabe que no chão da vida as coisas estão juntas.

Tomara que a cruel pedagogia do vírus nos ensine que o Estado Mínimo não é uma boa ideia nem mesmo nos países de economia mais planificada, quanto mais entre nós, latino-americanos, povos marcados historicamente pela espoliação e pelas disparidades sociais.

Como é curioso e trágico que um vírus escancare o que todo mundo já sabe. Chega a ser risível que um vírus evidencie nossas patologias sociais mais que nossas melhores produções acadêmicas, teológicas, artísticas, midiáticas. Porque são os pobres que estão morrendo mais no momento. É o povo das periferias, das grotas, das favelas.

E aqui me permitam fazer uma rápida digressão autobiográfica. Com ela eu quero desembocar na tal provocação teológica.

Os caminhos da vida nos últimos anos me colocaram em contato com os temas da saúde coletiva no Brasil. Tenho ministrado disciplinas de saúde coletiva e políticas públicas para estudantes de psicologia, de odontologia, de enfermagem, fisioterapia e de outras áreas da saúde.

Tenho tido a oportunidade singular de conhecer, de defender e de ajudar a formar gente para trabalhar em algo que eu considero um verdadeiro milagre, chamado Sistema Único de Saúde (SUS). E eu quero caracterizar melhor esse milagre.

Antes, não sei se vocês sabem, mas apenas 3 países no mundo todo possuem sistemas de saúde públicos de acesso igualitário e universal: Reino Unido, Cuba e Brasil. Mas vamos lá. Que tipo de milagre é o SUS, e o que isso tem a ver com Teologia?

O SUS é o milagre produzido pela luta das comunidades pobres desse país. Não nasce de uma canetada estatal. Nasce da organização de gente pobre, coletivamente organizada. É um milagre porque somos um continente.

O Brasil é maior que toda Europa ocidental junta. E nesse país continental, em tempos anteriores à atual pandemia, 1 milhão de pessoas batem nas portas do SUS todos os dias, e 96% desse povo recebe algum atendimento. Aqui em Alagoas enquanto 4% da população tem plano de saúde privado, 96% das alagoanas e alagoanos dependem do SUS.

Há muitas outras razões que fazem do SUS um milagre. Ele é simplesmente umas das maiores políticas públicas do mundo, a maior política pública do Brasil, a que mais promove equidade social e a que mais repara em curto prazo os efeitos demoníacos do Capitalismo.

Porque se tem um lugar onde se pode ver nitidamente as marcas demoníacas do Capitalismo, esse lugar é o corpo das pessoas, a saúde das pessoas.

A pandemia atual não nos revelou isso. Já sabíamos! O que a pandemia fez foi ampliar um grito que os pobres já vêm dando desde a redemocratização do país, grito por equidade, por justiça e por saúde!

Mas que diabos isso tem a ver com Teologia?

Antes de seguir, acho importante retificar que é assim que deveríamos todos e todas fazer Teologia: ouvindo as demandas da sociedade, e tomando-as como ponto de partida de nossa reflexão. E mais: deveríamos sempre fazer Teologia tentando discernir onde o Espírito de Deus está agindo no mundo, para além de nossa presença, para lembrar o bom e velho Paul Lehman.

Nós simplesmente não temos uma Teologia da Saúde entre nós. E tomara que essa cruel pedagogia nos leve nessa direção.

Eu não proponho essas coisas por ser professor de saúde coletiva. Eu proponho essas coisas porque antes de tudo vejo essa Teologia da Saúde fervilhando nas narrativas que fundam a nossa fé. Releiam, por exemplo, o evangelho de Marcos, que serviu de base para a produção dos outros evangelhos.

Vejam vocês mesmos e vocês mesmas se a saúde dos corpos nas comunidades da Judéia e da Galiléia não é um dos temas centrais daquela narrativa.

Cito um trecho de Marcos (1,32-34):

“E, tendo chegado a tarde, quando já se estava pondo o sol, trouxeram-lhe todos os que se achavam enfermos, e os endemoninhados. E toda a cidade se ajuntou à porta. E curou muitos que se achavam enfermos de diversas enfermidades, e expulsou muitos demônios, porém não deixava falar os demônios, porque o conheciam”.

Eu considero esse trecho como uma espécie de síntese dessa narrativa. Era essa a memória que as primeiras comunidades tinham da atividade de Jesus de Nazaré. Um projeto não apenas de renovações de valores, mas onde a saúde coletiva tinha centralidade.

Me pergunto: quem eram aqueles corpos adoecidos? Eram os corpos espoliados pela presença imperial romana. Curioso que hoje nós falamos nos determinantes sociais da saúde e da doença. Tem secretaria de Estado pra pesquisar e intervir sobre esses determinantes.

E os determinantes sociais por trás daquelas multidões de pessoas adoecidas eram a dominação política (falta de autonomia), a espoliação econômica (sistema de tributos) e a opressão religiosa imposta pelas elites judaicas. É a tríade que John Dominic Crossan chama de “sistema de exploração”.

Saúde então é valor evangélico de primeira grandeza. É por isso que eu desejo que a pedagogia do vírus produza entre nós essa teologia. Mesmo porque vivemos sob formas de dominação diferentes, mas tão malignas quanto as mencionadas.

Eu acho até que essa Teologia está aí intuitivamente sendo gestada em nossas comunidades. Mas essa pandemia vai passar, e eu não estou propondo uma reflexão a ser feita apenas para esse momento. Eu estou falando da aproximação aos aspectos fundantes do Cristianismo.

Se não existe justiça com racismo, com homolesbotransfobia, com misoginia, também não existe justiça sem saúde, condição básica para um bem-viver.

Baiano, teólogo, psicólogo, professor do ensino superior e psicólogo clínico humanista. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Alagoas, onde atualmente faz Doutorado em Linguística.

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