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O desafio do discipulado integral: Emaús como metáfora

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O desafio do discipulado integral: Emaús como metáfora

“O próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles.” (Lucas 24:15)

Seguir a Jesus no seu reino de vida sempre foi e continua sendo um grande desafio. O caminho estreito do discipulado de Jesus Cristo, que aponta para um projeto de vida na “contramão” (Carlos Mesters) ou na “contracultura” (John Stott) será desafiador em qualquer época ou tempo. Precisamos clamar pelo Santo Espírito que nos guie nesse caminho. No seu último livro, Discípulo radical, John Stott afirma: “Para muitos, é uma grande surpresa descobrir que os seguidores de Jesus Cristo são chamados de ‘cristãos’ apenas três vezes na Bíblia”. Claro, sabemos que tanto a palavra “cristão” como “discípulo” implicam relacionamento com Jesus”, mas parece que a designação “cristão” nos faz muito mais comprometidos com o cristianismo institucionalizado, enquanto ser chamado de discípulo/discípula de Jesus nos convida a um seguimento de Jesus de Nazaré,  a um radical seguimento do seu reino de vida. Talvez, por isso temos uma sociedade cristã, sem muitos discípulos de Jesus Cristo seguindo-o na radicalidade e integralidade do seu chamamento. Temos muita gente comprometida com a fé cristã enquanto doutrina e crenças e pouca gente disposta a seguir a vida e as escolhas radicais de Jesus de Nazaré. Quero seguir o texto bíblico do caminho de Emaús Lucas 24.13 -35 como fio condutor e inspirador desta reflexão.

1- “Emaús” como metáfora discipular

O relato tem como ponto inicial uma conversa no caminho de Emaús: Dois deles estavam indo para um povoado chamado Emaús… conversavam a respeito de tudo que havia acontecido. Depois de terem seguido Jesus até Jerusalém e ali testemunharem a sua morte na cruz, os dois discípulos estão retornando à sua aldeia de origem desanimada, triste e sem esperança. Esta cena serve como um retrato dos cristãos na época em que Lucas escreve seu Evangelho. Em nossos dias, no Brasil e na América latina também cresce o número de pessoas que não acreditam mais em nada. Estão sem utopias e sem fé; muitos se encontram desiludidos com os problemas dentro das igrejas e na sociedade. Tudo isso faz crescer o medo, a violência e a falta de esperança.  Mediante uma pedagogia divina o ressuscitado faz um discipulado do caminho que produz mudança de uma situação inicial dos discípulos de olhos impedidos de ver (v.16) para uma situação buscada de olhos abertos que reconhecem a presença de Jesus no meio da dor, do medo e do caos (v.31). A comunidade discipular faz o caminho do que “é” ao que “pode ser”, abrindo o caminho para possibilidades ocultadas. Isto é precisamente “Emaús” como metáfora discipular.  Nesse caminho do discipulado integral se desenvolve uma mudança, uma verdadeira subversão de olhar da comunidade discipular para o mundo e a realidade. São os olhos abertos da comunidade discipular de Emaús que podem devolver a esperança, coragem e o compromisso com a missão para que possam anunciar que o reino de vida em Jesus.

Pensar no discipulado integral para Brasil e América Latina requer um discipulado que se faz no caminho com as mesmas atitudes e métodos de Jesus em Emáus.  A primeira mudança no olhar que quero sugerir diz respeito aos dois discípulos no caminho. Diz o nome de um deles, Cleopas (v.18), mas oculta o nome do outro. Por quê? Poderia se suspeitar, uma vez que os nomes mais omitidos nas narrativas bíblicas são de mulheres, que seria ali uma mulher? Se pensarmos que estão voltando juntos para casa, poderia ser um casal, marido e mulher que seguiram Jesus e agora retornavam para casa? Na comunidade discipular de Jesus mais ampla, além dos doze, havia os 70 e nesses 70 podemos imaginar mulheres, crianças, casais. Além disso, em João 19.25 encontramos a seguinte narrativa: Perto da cruz de Jesus estavam a sua mãe, e a irmã dela, e Maria, mulher de Cleopas, e também Maria Madalena…”. Por isso , tomo a liberdade de chamar nesse texto o casal de Emaús e neles enxergar a representação da comunidade discipular seguidora de Jesus.

2- Aproximação e escuta

O relato introduz elementos típicos da prática discipular de Jesus: “Se aproximou e começou a caminhar com eles”. É uma aproximação para escutar, acompanhar e aprender. O mestre, no silêncio e na escuta sensível, se faz primeiro um discípulo da comunidade discipular, para depois conversar e desenvolver um processo discipular junto a ela. Paulo Freire sempre insistia em sua pedagogia da autonomia que ensinar exige saber escutar.

Para o discipulado integral vivido no cotidiano, importa esta atitude de escutar. Isto está na base do discipulado de Jesus Cristo. É atitude fundante e estruturante de toda nossa vida no Espírito.

“O Credo de Israel começa com esta palavra/atitude. E escutar, na tradição bíblica e espiritual, significa estar atentos/as para a realidade, para os acontecimentos, para o mundo e viver concretamente. É atitude contemplativa em primeiro lugar que vai aos poucos modificando nosso jeito de olhar e nossas teorias sobre o que observamos e experimentamos e, portanto, vai modificando nosso jeito de viver também.”[1]

O discipulado integral escuta a Deus, mas escuta também o outro, a realidade concreta. A pedagogia da aproximação passa por uma escuta discipular sensível que integra o saber e o ponto de vista do outro como ponto de partida para seu processo discipular. Escutas e aproximações mútuas fazem parte do discipulado à maneira de Emaús. No caminho discipular de Emaús o outro se torna meu mestre também porque me interroga, me indaga e me ensina. Por isso que Emaús é caminho da comunidade discipular onde há mutualidade de escuta, aproximação e aprendizado mútuo onde todos são transformados pela palavra.

Podemos nos interrogar como Igreja evangélica no Brasil e na América latina: Que tipo de aproximação estamos fazendo como comunidade discipular de Jesus em nossos contextos? Que tipo de escuta temos tido no caminho? Temos nos deixado interrogar e indagar pelos caminhantes?

3- Perguntas e respostas: des-conhecer e re-conhecer Jesus no caminho?

Novamente recorrendo ao Evangelho de Lucas, quando o casal de Emaús está fugindo de Jerusalém e voltando para sua cidade, aproxima-se Jesus, o não reconhecido, e caminha com eles um tempo. Ele faz uma pergunta e passa o tempo todo escutando o que aquele casal está vivendo, passando, qual a perspectiva que eles têm do acontecimento. Depois é o casal que tem que escutar a Jesus, que faz um bom estudo bíblico com eles para ajudá-los a enxergar melhor os fatos e poder perceber nessa tragédia uma graça e uma Palavra do Deus da vida. Mas todo esse esforço de escutar  fisicamente um ao outro e a Bíblia não ajudou ninguém a reconhecer Jesus. E aqui o problema não é saber quem é Jesus, mas saber reconhecê-lo como aquele pobre caminhante. O problema é reconhecer um Jesus não triunfalista, crucificado, que não resolve os problemas e as desgraças do jeito que a gente quer, não é alguém que podemos controlar. Ele é aquele que morreu na cruz. Parece que a expectativa, a ilusão da comunidade, impediu-os de reconhecer a Palavra de Deus. Foi somente quando esta escuta se transforma em ação, em hospitalidade e em partilha do pão (koinonia) que eles conseguiram reconhecer Jesus, na sua verdade, o Crucificado e Ressuscitado. Os olhos se abriram. É bom ressaltar que estudar a Bíblia só esquenta o coração, não abre olho. E algo novo aconteceu. Mesmo a noite, eles voltaram para Jerusalém, bem diferentes de quando eles tinham saído.

Na pergunta de Jesus : “Sobre o que vocês conversam enquanto caminham e por que estão tristes?” está implícito uma querer saber não somente de informações do que tem ocorrido, mas principalmente está na pergunta de Jesus um real interesse pelo estado emocional e espiritual dos discípulos.  Jesus quer saber como eles compreendem as coisas, qual o seu olhar para a realidade?  Certa confiança foi crescendo no caminho através da aproximação e da escuta. As intersubjetividades envolvidas abrem a interlocução onde o que mais importa não é a informação que aparentemente se transmite um ao outro, mas a pergunta de Jesus propicia um processo inferencial de interpretações através da qual os participantes desse processo expressam, coordenam e transformam suas maneiras de analisar a realidade.

Uma vez que o mestre sabe das “coisas ocorridas” que encheram de tristeza e desesperança o coração da comunidade discipular, Jesus coloca em prática sua estratégia didática provocando um desequilíbrio, põe em crise o que se pensa para criar atitude receptiva frente a outros pontos de vista: “Não devia o Cristo sofrer estas coisas, para entrar na sua glória?”. Pronto! Está dada a oportunidade para introduzir uma nova perspectiva da realidade. A comunidade sabe o que tem acontecido, mas não consegue entender sob a luz da proposta do reino o “que” e o “para” daquelas coisas. Sem a chave certa não é possível ter acesso ao sentido: tudo permanece caótico e sem sentido. Na narrativa, Jesus usa as Escrituras dentro do contexto situacional específico para entregar uma chave para que a comunidade discipular tivesse acesso ao sentido real do que tinha acontecido para que a interpretação da realidade deixe de ser casual ou caótica. A Escritura é usada para tentar iluminar a realidade. No discipulado de Emaús, a Bíblia é trazida para iluminar o caminho. Discipulado da Palavra que dialoga com a vida e com a realidade dos discípulos. O discipulado integral não pode olhar só para as Escrituras e nem só para a realidade. Emaús é metáfora desse diálogo entre Palavra de Deus com a realidade humana. Em Emaús as Escrituras é o caminho e não a chegada. A chegada é transformação dos olhos entristecidos e desesperançados dos discípulos para a abertura de visão e compromisso esperançoso com a missão.

4 – Mudança de caminho e compromisso com a missão

O seguimento é essencialmente tarefa, encargo, missão, prática salvífico-libertadora, comunhão com a causa de Jesus de servir ao Reino. Exige, inclusive, a disponibilidade para participar também em seu próprio destino, assumindo a inevitável conflitividade e perseguição, isto é, carregando a cruz até ao fim (cf. Mc 8, 35; Mt 10, 16-18.21-25.38-39; Lc 14,27; Jo 12,24-26). Mas isso não estava entendido previamente pela comunidade. Houve um desentendimento sobre o que significava a messianidade de Jesus bem como o seguimento dele. A comunidade cristã, ainda hoje, tem muitos problemas teológicos e espirituais de compreender a Cruz de Jesus Cristo. Ou se acentua em demasia sua vida e sua obra ou se confunde ressurreição com imaterialidade e com irrealidade. Das duas formas nós somos arrancados dos processos históricos, onde deveríamos viver essa espiritualidade cristã.

Jesus, Palavra de Deus feito carne, gastou sua vida em dois caminhos fundamentais: Revelar o Reino de Deus e Revelar a Misericórdia do Pai. Parece-me que está clara nossa tarefa e nosso caminho a seguir no caminho da Vida Espiritual em Jesus. Este foi e é o sentido original da encarnação. É a vivência desta opção, entendida como indispensável tradução do seguimento de Jesus neste nosso tempo histórico, o lugar preferencial onde se traduz, por força do Espírito, a experiência de Deus que está na raiz da espiritualidade que nos ocupará aqui. É nossa tarefa discipular revelar o rosto de Deus que é amor misericordioso. Tomás de Aquino vai nos lembrar que “de Deus só podemos dizer o que não é”. Mesmo assim, uma das melhores definições que temos na tradição bíblica é de que Deus é Amor Uterino (misericórdia). Ele se revelou e se revela porque é amor incondicional. Portanto, anunciar o reino de vida de Jesus significa revelar esse rosto de Deus para o mundo através não só de palavras, mas de gestos, ações concretas.

Concluindo

Jesus foi e continua sendo o modelo a ser recriado na vida do discípulo ou da discípula (Jo 13.13-15). O seu reino de vida continua sendo a única matéria. Apesar das exigências radicais do discipulado, não é exigido perfeição das pessoas dessa comunidade discipular, afinal, as pessoas que Jesus escolheu eram pessoas com virtudes e fraquezas como nós. Foi com aquele grupo de pessoas fracas que  Jesus começou a maior revolução da história humana.

Finalmente, Emaús como metáfora nos desafia ao discipulado integral:

  • Capaz de recuperar a memória transformadora de Jesus e situar o discípulo/discípula no lugar onde este mesmo Jesus indubitavelmente se situou aquele no qual, com autenticidade e radicalidade evangélicas, pode dar-se a conversão primeira, ponto de partida obrigatório de todo discipulado cristão.
  • Que permita recuperar o verdadeiro rosto do Deus cristão, já que quem segue a Jesus está em condições de conhecer ao Deus que nele se manifesta. Para conhecer Deus-Pai e o Reino que é Boa Nova de salvação, Deus crucificado e ao mesmo tempo, Deus de vida e libertador que se afirma contra os ídolos que levam à morte.
  • Perseverante e consequente com a primeira e radical conversão ao mundo e a sua luta pela justiça, exige que se viva no compasso do Espírito pois foi o que pautou o estilo e o empenho de vida de Jesus.
  • Que permita superar os falsos dualismos de tantas espiritualidades deslocadas e conseguir uma articulação dialeticamente fecunda entre os dois polos necessários de toda espiritualidade cristã: o “místico” e o “político”.
  • De caráter nitidamente pascal, que recupera a centralidade da cruz, própria de toda espiritualidade cristã, vivida pela mediação do amor solidário com os crucificados da história. Uma fé que vence o mundo (1Jo 5.4), uma esperança que se afirma, inclusive, contra toda esperança (Rom 4.18), um amor que se historiciza em solidariedade ativa para com os mais pequenos (Mt 25.34-40).

Nota

[1] Paulo Ueti. Espiritualidade Bíblica: Anotações a partir do NT.

Pastora batista, professora de Novo Testamento e assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI). É formada em Educação Religiosa pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil e em Pedagogia pela UFAL. Tem especialização em assessoria bíblica e doutorado em Teologia pela Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo.

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