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O escândalo da Missão Integral

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O escândalo da Missão Integral

O escândalo da Missão Integral

Desde Saulo de Tarso (1 d.C) a intolerância religiosa no contexto judaico-cristão tem matado muita gente em nome de pretensa “verdade” que é muito mais disputa por (podres) poderes do que a “defesa da fé pura”. Porque a mensagem de Cristo é vida-salvação, liberdade-equidade, respeito-paz. O que passar dessa ética da vida é de procedência maligna. Estética da morte!

Estevão, Jan Huss, Miguel Serveto, “Noite de São Bartolomeu”, huguenotes da Guanabara são apenas alguns tristes exemplos ilustrativos de pessoas que sofreram violência em nome da “verdade”, exatamente no ambiente “cristão”. Tais práticas são, obviamente, a total antítese da mensagem de Jesus, embora teimem em resistir sempre, como hoje entre nós, em faces e espaços diversos: da igreja ao Congresso Nacional, da academia à conversa de bar, da privacidade familiar ao universo virtual da rede social.

Mas um dia a pessoa pode cair em si e abraçar o evangelho da graça, libertando-se de construtos e institutas da religião. Que faz mal aos outros e também a si, afinal são apenas preceitos de homens (Mc 7.6-10).

Contra equívocos, má-fé, intolerância, neomacarthismo, neocalvinismo, novas cruzadas, que, à la Goebbels, insiste numa mentira para desqualificar o outro, visando finalmente aniquilá-lo, sigamos e prossigamos na mesma missão de Cristo: “anunciar boas novas aos pobres, proclamar libertação aos cativos, restauração da vista aos cegos, pôr em liberdade aos oprimidos e anunciar o ano da graça do Senhor” (Lc 4.18, 19).

E se alguém questionar essa missão, como fizeram os discípulos de João com o próprio Jesus julgando que ele era um possível enganador, não caiamos na tentação de responder metafisicamente ou com arrazoados ilusionistas, porém com atos de amor e justiça, com missão integral, conforme fez o próprio Senhor: “Naquela mesma hora curou a muitos de doenças, de moléstias e de espíritos malignos, e deu vista a muitos cegos”. E após responder com as mãos, reiterando sua posição que era exatamente o cerne da dúvida de João, Jesus confirma com a boca: “Ide e contem a João o que vocês viram e ouviram: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciado o evangelho”. E, arremata Jesus: “Bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim” (Lc 7.14-23).

O evangelho, que é radical, sempre escandaliza, principalmente quem deseja pasteurizá-lo ou customizá-lo aos seus caprichos. Sejam teológicos, de poder político-econômico-midiático, eclesiológico, ideológico.

Portanto, contra a aparente piedade, o dogmatismo e a intolerância dos saulos-de-tarso que se julgam doutos como um Gamaliel (mas são tacanhos como um Simão Mago), respondamos com a sabedoria elevada e insofismável da ética do amor divino que abraça e salva a todos/as. Que estende as mãos para servir, como é próprio da diaconia cristã. Que emprega e suja os pés na caminhada do reino em prol de todos/as, a partir dos famintos, sedentos, estrangeiros, doentes, presos (Mt 25.34-40). No entanto, tem pés formosos porque anunciam boas novas, promovem a paz e proclamam a salvação do reinado de Deus (Is 52.7). Este é o evangelho terno, fraterno, frágil e eterno do Jesus Cristo de Nazaré.

Foto: Tomaz Silva/ Agência Brasil

Teólogo (STBS), mestre em Sociologia (UERJ) e doutor em Ciências Sociais (UERJ), é pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e membro da Igreja Batista Marapendi, Rio de Janeiro.

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