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Por uma espiritualidade litúrgico-transformadora

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Por uma espiritualidade litúrgico-transformadora

É sabido que onde um pequeno grupo desfruta privilégios que seria direito de todos, a partir da maioria despossuída, ali impera a injustiça. Como no caso dos hebreus sob regime de escravidão dos faraós, pois produziam bens e serviços para uma minoria egípcia que se apropriava do seu trabalho. Como também ilustra a África do Sul do apartheid, onde uma ínfima minoria branca explorava e massacrava uma imensa maioria negra. Como ainda na atualidade, quando trabalhadores pobres ficam em regime de semi-escravidão, sob o controle de capangas armados em fazendas pelo interior do Brasil, além de trabalhadores urbanos que ganham menos de 1 salário mínimo, por mês, embora tenham uma carga horária semanal de mais 40 horas! Muitos explorados em detrimento de uma minoria arrogantemente embevecida com seu poder, privilégio e prestígio.

Onde a injustiça campeia, o direito do mais fraco é usurpado – muitas vezes legalmente – pelas artimanhas e esquemas do mais forte. Como nos dias do profeta Amós, quando os mais ricos falsificavam balanças para explorar os pobres, degradando-os ao ponto de os venderem, como se fossem mercadoria, pelo preço de um simples par de sandálias. Como na Alemanha nazista, que usava e abusava da mão de obra judia, explorando-a até a morte. Como hoje, quando juízes corrompidos por grileiros de terra colocam a polícia para perseguir trabalhadores sem-terra, com esposa e filhos, lançando-os para sobreviverem em barracos de plásticos à beira de estradas. Quando uma mãe vai de madrugada com seu bebê, queimando de febre, buscar um socorro médico e nem sempre consegue, pois os recursos que deveriam ir para a saúde, são desviados pela corrupção, por aqueles que se locupletam do poder que estão em suas mãos, sejam funcionários públicos ou privados (cf. Is 10.1, 2).

Em meio a essa tormenta contínua de injustiça, corrupção, maldade, violência, somos paradoxalmente convidados a celebrar, com alegria e teimosa esperança, a justiça de Deus. Pois ele, Yahweh, se compadece do pobre, faz justiça ao órfão e à viúva, não aceita suborno, está sempre ao lado daqueles que mais sofrem, toma o partido dos oprimidos, traz esperança e alegria para quem vive num contexto de morte… (Dt 10.17, 18; Lc 4.18, 19) (Alguns termos deste parágrafo podem ser acusados de anacrônicos, porém, a realidade dos fatos é triste e persistentemente atual, o que exige, portanto, de todos quantos se sentem servos de Deus e parceiros de Seu Reino, compromisso efetivo e ação eficaz em prol da justiça).

É essa a identidade do Deus a quem celebramos, pois ele é bom e sua misericordiosa justiça dura para sempre. Ele é o Senhor de toda a terra, que julga os povos com equidade (Sl 100.5; Sl 96.13).

Celebrar a justiça de Deus não significa ter uma postura contemplativa, alienada ou passiva, antes, ativa e proativa, comprometida e transformadora. Que atua nas lutas e movimentos pelo cumprimento do que é direito e alia-se a Deus e com seus parceiros na tarefa de construir e executar a justiça. É esse comportamento, marcado por uma espiritualidade litúrgico-transformadora, que exalta ao Senhor e o celebra, de fato, como Deus da justiça. Do contrário, estamos fazendo coro – literal e metaforicamente – com maiorias religiosas em suas celebrações cultuais que, além de serem mera quimera, legitimam, dissimulam e perpetuam maldades e injustiças. Este é o culto que não somente desagrada, mas é rejeitado e denunciado por Deus (cf. Is 1.10-20), afinal, culto e justiça, como há tempos afirmou Rowland Crouch, são parte de uma mesma e verdadeira espiritualidade cristã.

Teólogo (STBS), mestre em Sociologia (UERJ) e doutor em Ciências Sociais (UERJ), é pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e membro da Igreja Batista Marapendi, Rio de Janeiro.

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